A pandemia de COVID-19 deixou uma lição pouco elegante: o mundo gosta de acreditar que está preparado até a crise chegar. Uma avaliação internacional publicada na revista The Lancet, em 13 de outubro de 2026, examinou 17 grandes ameaças à saúde global neste século. Duas receberam a classificação mais grave: inteligência artificial maliciosa e conflito nuclear associado à fome nuclear. A probabilidade é considerada baixa, mas o impacto possível é extremo. O estudo também sustenta uma ideia menos cinematográfica e mais útil: governos ainda podem reduzir boa parte do dano, desde que parem de tratar prevenção como assunto para a próxima reunião.
Quais são as ameaças com potencial de extinção?
As ameaças com potencial de extinção são a IA maliciosa, inclusive quando usada para criar novas armas biológicas, e um conflito nuclear capaz de desencadear fome nuclear. A conclusão vem da Comissão do The Lancet sobre ameaças globais à saúde no século XXI, conduzida por dezenas de especialistas. Não se trata de uma previsão de que esses eventos ocorrerão, mas de uma avaliação do que poderia acontecer caso se materializassem.
Os pesquisadores deixaram de fora outros riscos teoricamente capazes de extinguir a humanidade, como impactos de asteroides e erupções de supervulcões, porque consideraram sua ocorrência neste século improvável demais para uma estimativa consistente. A chamada “vida espelho”, uma forma de vida ainda não criada, também foi excluída. A hipótese é discutida por causa de possíveis riscos à saúde, mas falta material concreto para medir o problema.
O ponto não é montar um ranking de monstros apocalípticos. É reconhecer que algumas ameaças exigem atenção antes de haver cadáveres, gráficos em queda e pronunciamentos com música triste ao fundo. A IA aparece nesse grupo porque pode ser empregada de forma deliberadamente nociva, inclusive na biologia. Já as armas nucleares carregam uma consequência que costuma ser esquecida quando a conversa se resume à explosão: a interrupção da produção e da distribuição de alimentos.
Como os pesquisadores compararam riscos tão diferentes?
Os pesquisadores compararam os riscos usando DALYs, uma medida que combina anos perdidos por morte prematura com anos vividos em doença, lesão ou deficiência. Um DALY equivale, em termos simples, a um ano de vida saudável perdido. Modelos estimaram quanto desse prejuízo poderia ser evitado entre 2025 e 2100, considerando diferentes cenários para cada ameaça.
Quinze riscos, além dos dois classificados como de potencial de extinção, foram associados a mais de 1 bilhão de DALYs evitáveis. Para dar escala ao número, os autores afirmam que 1 bilhão de DALYs corresponde a duas pandemias de COVID-19. A lista inclui poluição do ar, resistência antimicrobiana, desnutrição infantil, mudanças climáticas, conflitos armados convencionais e pandemias naturais.
Também aparecem problemas menos espetaculares, porém persistentes: obesidade, tabagismo, pressão alta, consumo elevado de álcool, saúde mental frágil, envelhecimento não saudável, desigualdade de renda e baixa escolaridade. A ameaça com maior carga potencialmente evitável foi a obesidade, com 23,1 bilhões de DALYs entre os cenários mais favorável e mais grave até 2100. Não parece o material de um filme. Justamente por isso merece atenção.
Quais medidas podem reduzir o impacto?
As medidas mais importantes são preparar sistemas de saúde para ameaças múltiplas, ampliar investimentos em inovação e criar um monitoramento permanente dos riscos globais. A comissão recomenda que governos construam e financiem estruturas capazes de responder a crises, em vez de improvisar hospitais, cadeias de suprimento e protocolos quando o problema já atravessou a porta.
O estudo estima que a carga global de doenças e lesões entre 2025 e 2100 será de 246 bilhões de DALYs no cenário-base, algo equivalente a cerca de 500 pandemias de COVID-19. Mas há uma pegadinha estatística importante: esse total não pode ser somado diretamente às estimativas de cada ameaça, porque muitos problemas se sobrepõem e atingem as mesmas pessoas.
Essa sobreposição é o centro da questão. Educação influencia saúde e crescimento populacional; renda altera acesso a tratamento; clima pressiona alimentos e doenças; conflitos desmontam serviços básicos. Uma ameaça raramente chega sozinha, com crachá e formulário. Talvez seja essa a parte mais difícil de vender politicamente: prevenir uma catástrofe não produz uma fotografia dramática, apenas mantém possibilidades abertas. E, quando a prevenção funciona, o desastre não acontece para provar que ela funcionou.
Os editores do The Lancet defendem que a saúde global precisa abandonar a análise de danos isolados e acompanhar a combinação entre eles. A recomendação é criar um “Monitor das ameaças globais à saúde do século XXI”, atualizado continuamente, ao lado de investimentos em saúde, clima e tecnologia. A humanidade não controla todos os riscos. Controla, porém, quanto tempo passa fingindo que eles pertencem ao futuro.


