O Instituto Robert Koch (RKI) estima que quase 10 mil pessoas morreram na Alemanha em 2025 por causas associadas ao calor, segundo dados divulgados em 30 de julho. O número, calculado até 19 de julho, já supera qualquer ano inteiro da série histórica: o recorde anterior era 2018, com 9 mil mortes. A cifra é um soco no estômago de um país que tradicionalmente não associava seu clima temperado a letalidade térmica. Mas as ondas de calor, cada vez mais longas e intensas, estão redesenhando o mapa do risco — e as cidades alemãs não acompanharam o traço.
Quase 7.900 das vítimas tinham mais de 75 anos. O calor, raramente listado como causa direta nos atestados, age como um multiplicador de comorbidades: desidrata, descompensa cardíacos, altera o efeito de medicamentos contínuos. É uma mortalidade que se infiltra nas brechas do sistema, visível apenas para quem cruza os bancos de dados com a meteorologia. O RKI faz esse cruzamento desde 2001, e o gráfico de 2025 é o mais íngreme da série — um alerta que os tomadores de decisão ainda não leram.
O que impede as cidades de implementar zonas frias e áreas verdes?
A resposta curta é: falta de investimento, normas defasadas e um urbanismo que ainda coloca o carro no centro. As propostas vão de bebedouros e salas climatizadas abertas ao público até códigos de obra que limitem a temperatura interna a 25 °C. O ex-ministro da Saúde Karl Lauterbach (SPD) defende sistemas de alerta e ampliação de parques; a líder verde Franziska Brantner acusa o governo federal de inação. O problema maior é que o planejamento urbano é pulverizado em centenas de municípios, sem coordenação. Medidas simples — pintar telhados de branco, trocar piso de praças por material permeável — não saem da gaveta. Em Berlim, o asfalto atinge 60 °C nas tardes de julho; a temperatura sob a copa de uma árvore é 15 °C menor. A diferença é a que existe entre viver e sobreviver ao verão.
Quanto custa a adaptação e por que o dinheiro não resolve tudo?
Os 30 bilhões de euros estimados por Brysch representam 0,8% do PIB alemão, uma fração do que o país gasta em subsídios fósseis anualmente. Mas a coalizão governista está dividida: o SPD e os Verdes pressionam por investimentos, enquanto o FDP, liberal na economia, resiste a qualquer aumento de gasto público. Além disso, não basta liberar verba; é preciso mão de obra para instalar sistemas de refrigeração, reformar edifícios antigos e manter áreas verdes — recursos escassos num mercado de trabalho já aquecido. A burocracia municipal também atrasa projetos simples: um bebedouro público pode levar dois anos entre licitação e instalação. Enquanto isso, o termômetro não espera. A pergunta é se as mortes vão finalmente forçar um plano nacional de adaptação ou se o calor continuará sendo tratado como fenômeno meteorológico e não como emergência de saúde.
Por que o sistema de saúde ainda subnotifica as mortes por calor?
Porque o calor raramente aparece como causa imediata no atestado de óbito, e o sistema de vigilância depende de modelagem estatística que subestima o impacto real. O RKI usa um método de excesso de mortalidade, comparando os óbitos observados com uma linha de base histórica. Quando a temperatura sobe, o excesso é atribuído ao calor. Mas esse cálculo é retrospectivo e chega tarde demais para acionar protocolos de emergência. Além disso, muitos hospitais e asilos não têm registros sistemáticos de temperatura interna, o que dificulta correlacionar picos de calor com agravamentos. A Organização Mundial da Saúde recomenda planos de ação desde 2008, mas a Alemanha nunca os tornou obrigatórios. O resultado é um apagão informacional que permite que a opinião pública trate cada onda de calor como surpresa, quando os dados já mostravam a tendência há duas décadas.
O que a ficção científica nos ensinou sobre cidades inabitáveis — e por que ignoramos?
O romance “O Ministério para o Futuro” (2020), de Kim Stanley Robinson, abre com uma onda de calor que mata 20 milhões de pessoas em uma semana na Índia — uma catástrofe que força governos a agir. A Alemanha de 2025 não precisou de um choque dessa magnitude para começar a discutir adaptação; os 10 mil mortos bastaram para encher páginas de jornais, mas não para destravar investimentos. A ficção climática passou décadas desenhando metrópoles inabitáveis, mas a realidade alemã mostra que o problema não é falta de imaginação: é falta de vontade política. No livro de Robinson, a resposta vem com um banco central de carbono e geoengenharia. Na vida real, a discussão ainda é se um bebedouro público vale o custo.
Enquanto os partidos trocam acusações, o verão avança. As 10 mil mortes de 2025 não são um acidente; são o produto de décadas de negligência com o ambiente construído. Cada grau a mais no termômetro é uma sentença para os mais velhos, os mais pobres, os que não podem fugir do calor. Adaptar as cidades não é uma questão de luxo ou de ideologia verde — é uma questão de infraestrutura básica, como saneamento ou eletricidade. Plantar árvores, pintar telhados, instalar bebedouros são atos banais, mas que, somados, definem quem vive e quem morre no próximo verão. E o próximo verão já começou. A escolha é entre continuar lendo notícias de recordes de temperatura com indignação passageira ou transformar cada rua, cada praça, cada telhado em um escudo contra o inevitável.


