Veja como o Exército dos EUA espalhou bactérias no metrô de Nova York em 1966

Em 6 de junho de 1966, passageiros do metrô de Nova York foram involuntariamente incluídos em um experimento militar com bactérias. Na estação da 23rd Street, pesquisadores do Exército quebraram ampolas de vidro contendo Bacillus subtilis, então conhecido como Bacillus globigii, e acompanharam o deslocamento da nuvem pelos túneis. Em cinco minutos, a bactéria havia chegado a todas as estações entre as ruas 14th e 59th. A estimativa era de que mais de 1 milhão de pessoas pudessem ter sido expostas em cinco dias. O microrganismo era considerado inofensivo, mas podia causar meningite em casos raros.

O que aconteceu no metrô de Nova York?

O Exército dos EUA espalhou uma bactéria considerada de baixo risco para medir com que velocidade um agente biológico viajaria pelo sistema subterrâneo. Cientistas posicionados em diferentes estações usaram máquinas de coleta de ar, enquanto os passageiros seguiam para o trabalho, para casa ou sabe-se lá para onde. Nenhum deles foi avisado. A operação ocorreu nas linhas Seventh Avenue e Eighth Avenue, com o material liberado na 23rd Street e detectado rapidamente nos dois sentidos do trajeto.

O resultado era tecnicamente impressionante e moralmente indigesto. A bactéria atravessou uma faixa extensa do sistema em poucos minutos, mostrando que um ataque poderia alcançar muita gente sem precisar de uma operação cinematográfica. Bastava o ar — não, a circulação normal de uma cidade — para fazer o serviço. O Bacillus subtilis não costuma provocar doença em pessoas saudáveis, mas a segurança estava longe de ser absoluta. O Código de Nuremberg, elaborado após a Segunda Guerra Mundial, afirma que o consentimento voluntário do participante é indispensável em pesquisas com seres humanos.

Por que o experimento fazia parte de um programa maior?

O teste do metrô integrava um programa secreto de pesquisa em guerra biológica que começou durante a Segunda Guerra Mundial e se expandiu durante a Guerra Fria. O governo americano dizia buscar meios de dissuasão e defesa, mas a fronteira entre estudar uma ameaça e construir a própria ameaça ficou convenientemente nebulosa. Antes de Richard Nixon cancelar formalmente o programa, em 1969, foram realizados mais de 200 testes conhecidos envolvendo agentes biológicos e populações que não haviam concordado em participar.

O caso mais famoso desse ambiente foi o Projeto MKULTRA, conduzido do início dos anos 1950 ao fim dos anos 1960 — e talvez além disso. O projeto investigou controle mental e o uso de substâncias como LSD, inclusive em hospitais, com pacientes submetidos a tratamentos perigosos sem consentimento. O experimento do metrô parece menos extravagante, mas pertence à mesma família de decisões: uma autoridade define que o risco é aceitável e deixa o cidadão fora da sala. Para quem estava no vagão, a ciência chegava como uma nuvem invisível.

Outros testes mostram que o risco não era teórico

Em 1950, a Marinha dos EUA já havia realizado um teste semelhante na baía de São Francisco, lançando bactérias ao ar durante uma semana a partir de um navio. Uma das cepas era o mesmo Bacillus subtilis; a outra, Serratia marcescens, também era tratada como inofensiva. Monitoramentos indicaram que os microrganismos viajaram até 23 milhas pela atmosfera. No Hospital Stanford, 11 pacientes desenvolveram uma infecção por Serratia, e Edward Nevin, de 75 anos, morreu.

A ligação entre a operação e a morte nunca foi provada de maneira irrefutável. Décadas depois, a família de Nevin processou o governo e perdeu. Isso não transforma o episódio em detalhe administrativo. No caso de Nova York, não se conhece dano confirmado, embora a exposição estimada tenha alcançado mais de 1 milhão de pessoas e não seja possível descartar completamente consequências posteriores. A lição, se é que ainda precisa ser desenhada, não está na bactéria escolhida. Está no silêncio em torno dela — e em quantos passageiros teriam entrado naquele trem se soubessem o que viajava no ar.

Via

spot_img