Veja como o Brasil tentou fabricar seus próprios computadores

Antes de existir computador brasileiro nas mesas e nos bancos, houve máquinas importadas, laboratórios militares, estudantes desmontando protótipos e uma política industrial que misturava soberania, improviso e ambição. A trajetória passa pelo Zezinho, pelo Patinho Feio, pela Cobra e até por um clone do Macintosh. Ela também mostra o preço de tentar criar uma indústria tecnológica protegida do mundo.

Como os primeiros computadores chegaram ao Brasil?

Os primeiros computadores chegaram ao Brasil como equipamentos importados, enormes, caros e destinados a tarefas institucionais específicas. O marco mundial costuma ser o Eniac, apresentado em fevereiro de 1946 nos Estados Unidos, enquanto a primeira máquina a operar no país foi instalada em 1957.

Tratava-se de um Univac 120, fabricado pela americana Remington Rand e adquirido pela Prefeitura de São Paulo para processar dados do serviço municipal de água e esgoto. O equipamento ocupava um andar inteiro. Tinha válvulas, gerava calor colossal e exigia uma infraestrutura que fazia a expressão “computação em nuvem” parecer uma piada meteorológica.

Naquele período, processamento eletrônico de dados era uma operação de escala industrial. O físico Marco Aurelio Alvarenga Monteiro descreve uma estrutura gigantesca, enquanto o engenheiro Vivaldo José Breternitz observa que esse serviço municipal deu origem à atual Prodam.

A iniciativa privada também começou a experimentar. A fábrica de brinquedos Estrela, em São Paulo, utilizava um Univac em 1958, sinal de que os computadores já eram vistos como ferramentas de eficiência, embora ainda estivessem muito longe do escritório doméstico.

O que foram o Zezinho, o Cisne Branco e o Patinho Feio?

O Zezinho, criado no ITA em 1961, foi o primeiro computador totalmente projetado e construído no Brasil, embora tenha sobrevivido principalmente como fonte de peças para novos experimentos.

O projeto reuniu os estudantes José Ellis Ripper, Andras Gyorgy Vasarhelyi, Fernando Vieira de Souza e Alfredo Volkmer. Segundo a jornalista Vera Dantas, o equipamento teve vida curta: alunos de turmas posteriores canibalizaram seus componentes para continuar pesquisando. É um destino bastante brasileiro para um pioneiro: virar infraestrutura do próximo pioneiro.

A pesquisa ganhou impulso mais consistente durante a ditadura militar, especialmente por razões estratégicas. O capitão de fragata José Luiz Guaranys Rego defendia que a Marinha não poderia depender completamente de tecnologia estrangeira para operar seus navios.

Em 1968, o então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, futuro BNDES, passou a apoiar o Projeto Guaranys. A iniciativa estimulou universidades a desenvolver computadores. A Unicamp criou o Cisne Branco, inspirado na canção tradicional da Marinha; a USP respondeu com o Pato Feio, logo convertido em Patinho Feio.

Por que o Patinho Feio foi importante para a informática brasileira?

O Patinho Feio foi importante porque entrou em operação em 1972 e provou que uma universidade brasileira conseguia construir um computador funcional com tecnologia desenvolvida localmente.

O equipamento da USP pesava cerca de 100 quilos e resultava de dois anos de pesquisa e desenvolvimento. Sua capacidade era modesta diante dos padrões atuais: fazia operações matemáticas, processava listas e executava tarefas pequenas. Não era um produto comercial, mas funcionou como embrião de projetos posteriores.

A inauguração ocorreu em 24 de julho de 1972, com a presença do governador paulista Laudo Natel e do jurista Miguel Reale, então reitor da USP. O sacerdote Ernesto de Paula também foi convidado para benzer a máquina.

A demonstração pública, contudo, não saiu como planejado. Um fotógrafo pisou em um fio e desligou o equipamento, que demorou a ser reiniciado. A cena tem uma precisão quase bufa: autoridades, ciência nacional e um cabo derrotando o futuro. Ainda assim, o Patinho Feio cumpriu sua função histórica.

Como nasceu a Cobra, primeira fabricante nacional de computadores?

A Cobra nasceu em julho de 1974 para transformar a pesquisa do Patinho Feio em capacidade industrial voltada inicialmente às necessidades da Marinha brasileira.

O nome era um acrônimo de Computadores Brasileiros. A empresa surgiu como uma joint venture tripartite, com participações iguais do Estado, da brasileira Equipamentos Eletrônicos e da inglesa Ferranti, fornecedora de equipamentos navais.

O convênio com a Marinha levou a PUC-Rio a funcionar como centro de desenvolvimento de uma máquina comercialmente viável. O resultado foi o G-10, cuja letra homenageava Guaranys, morto precocemente em 1973. O protótipo aproveitava a tecnologia do Patinho Feio, mas buscava sair da bancada acadêmica e enfrentar o mercado.

Da experiência do G-10 nasceu o MC 500, lançado pela Cobra como o primeiro computador comercial brasileiro. A parceria com a Ferranti ajudou a transferir conhecimento: funcionários brasileiros passaram quatro meses em Manchester aprendendo os métodos da companhia inglesa.

Como a Cobra cresceu no mercado brasileiro?

A Cobra cresceu combinando encomendas militares, proteção estatal e uma demanda crescente de bancos, empresas públicas e grandes companhias privadas.

O Argus 700, da Ferranti, foi escolhido como base para a formação tecnológica da empresa. A versão nacional recebeu o nome Cobra 700. Em 1977, o atacadista Makro comprou quatro dessas máquinas e 60 terminais de caixa, enquanto Petrobras, Hospital das Clínicas de São Paulo, Ministério das Comunicações e Exército também apareciam entre os clientes.

A empresa chegou a quase 1.500 funcionários e anunciou a construção do Cobrão, complexo fabril em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Na virada para os anos 1980, passou a vender microcomputadores como Cobra 480, Cobra 300 e Cobra 210.

O período também produziu pesquisa própria. Segundo Marco Aurelio Alvarenga Monteiro, a companhia desenvolveu o primeiro microcomputador totalmente projetado no Brasil e criou o sistema operacional SOX. A reserva de mercado dava espaço para a indústria local, mas cobrava uma conta menos visível: componentes importados eram difíceis de obter, e o produto nacional frequentemente chegava mais caro e defasado.

O que aconteceu com a Cobra depois da abertura do mercado?

A Cobra perdeu força depois da abertura do mercado em 1992, quando fabricantes nacionais passaram a enfrentar concorrentes estrangeiros com componentes, escala e tecnologia mais avançados.

A legislação de 1984 havia restringido a importação de software e protegido a indústria local. O modelo impulsionou empresas brasileiras, mas também limitou o acesso a peças e soluções internacionais. O resultado foi uma combinação desconfortável: capacidade técnica relevante, preços altos e defasagem diante dos grandes centros tecnológicos.

Com a reabertura, muitas empresas fecharam ou mudaram de atividade. A Cobra abandonou gradualmente a fabricação de computadores e se concentrou em serviços, integração de redes e soluções para o sistema bancário. Um de seus projetos foi a modernização da rede de agências do Banco do Brasil.

A companhia foi incorporada progressivamente pelo próprio banco. No início dos anos 1990, o Banco do Brasil já detinha 80,61% do capital. Desde 2013, a empresa se chama BBTS, preservando parte do legado de uma tentativa brasileira de transformar autonomia tecnológica em negócio duradouro.

Por que o clone brasileiro do Macintosh não chegou ao mercado?

O clone brasileiro do Macintosh não chegou ao mercado porque a Apple contestou a engenharia reversa e o governo impediu a comercialização do produto.

A Unitron Eletrônica, instalada na Freguesia do Ó, em São Paulo, anunciou em 1985 o Mac 512, baseado no Fat Mac. A empresa recebeu aprovação governamental e uma linha de crédito para desenvolver o equipamento, num momento em que a reserva de mercado favorecia soluções nacionais.

Sem acesso ao código-fonte ou ao licenciamento, os engenheiros recorreram à engenharia reversa. Reproduziram o desenho, a topologia da placa-mãe e o conteúdo da memória que armazenava a interface gráfica da Apple. Protótipos foram apresentados na Feira Nacional de Informática de 1986.

O episódio escalou para a diplomacia internacional. Os Estados Unidos ameaçaram sobretaxar produtos brasileiros, incluindo laranja e sapatos, caso o governo não tomasse providências. A Secretaria Especial de Informática bloqueou o projeto. Sem poder vender o computador, a Unitron entrou em colapso financeiro e encerrou as atividades.

O que essa história ensina sobre tecnologia nacional?

A história da informática brasileira mostra que autonomia tecnológica exige pesquisa, mercado, componentes, escala e regras capazes de equilibrar proteção com competição.

O Zezinho revelou a capacidade de criação acadêmica. O Patinho Feio demonstrou que um projeto local podia funcionar. A Cobra transformou parte desse conhecimento em produto, formou profissionais e atendeu clientes importantes. O clone do Macintosh, por sua vez, expôs o limite jurídico e comercial de uma indústria que tentava alcançar rapidamente uma tecnologia estrangeira.

Nada disso cabe na caricatura de sucesso absoluto ou fracasso completo. A reserva de mercado criou musculatura industrial e estimulou pesquisa, mas também isolou fabricantes de uma cadeia global que avançava depressa. Quando a abertura veio, a proteção desapareceu antes que muitas empresas tivessem escala e competitividade suficientes.

O Patinho Feio, a Cobra e o Mac 512 pertencem a uma mesma pré-história: a época em que computador ainda era promessa material, preso a salas enormes, painéis luminosos e decisões de Estado. O Brasil não inventou a computação, mas tentou construir um lugar dentro dela. Deu certo em parte. E essa parte ainda explica muita coisa.

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