A Biblioteca Central Richard J. Riordan, um ícone art déco de Los Angeles, abriga mais de dez milhões de itens e é a terceira maior dos Estados Unidos. No ano do seu centenário, a instituição estreou uma obra que desafia as proporções: o maior livro pop‑up já construído. Com 9,4 metros de largura por 6,1 de altura quando aberto e peso próximo de uma tonelada, a peça supera o recorde mundial anterior e ocupa o saguão central, sob os murais históricos de Dean Cornwell, que há quase um século retratam a Califórnia.
O que torna esse livro pop‑up um recorde mundial?
Com 9,4 metros de largura por 6,1 de altura, o livro pop‑up ‘Luceros y Penumbras’ quebra o recorde mundial anterior por uma margem confortável — o detentor da marca media 8,8 por 5,5 metros, um volume chinês de temática fantástica. A estrutura se eleva a mais de 3,3 metros e pesa quase uma tonelada, resultado de uma colaboração com o engenheiro de papel Matthew Reinhart. Para o Guinness, foi preciso demonstrar que a obra podia abrir e fechar repetidamente usando apenas materiais livrescos: tecido, papel e adesivos.
Encomendada pela Library Foundation of Los Angeles para o centenário da instituição, a obra cumpre à risca esse critério material — nada de metal ou plástico. Exposta na rotunda central, sob a cúpula decorada, ela dialoga com os murais de Dean Cornwell, finalizados em 1933, que retratam a história da Califórnia. A coincidência de datas é quase romanesca: o maior livro pop‑up do mundo repousa no mesmo salão onde, há quase um século, Cornwell pintou a conquista do Oeste.
Qual é a inspiração por trás de ‘Luceros y Penumbras’?
O artista e gravurista Daniel González, de Los Angeles, evoca as próprias lembranças da cidade e o papel da biblioteca como farol do conhecimento: daí os “luceros” (estrelas) e as “penumbras” do título. Uma das páginas abertas revela uma grande árvore com o horizonte de Los Angeles ao fundo, pontuada por símbolos das culturas, ecologias e tradições que compõem a metrópole. González, que trabalha com gravura e serigrafia, transportou para a escala arquitetônica a linguagem do livro de artista.
Realizada em parceria com a Library Foundation of Los Angeles e a biblioteca, a segunda página exibe a fachada da própria instituição, acompanhada da frase bilíngue “Each person is a library” — “Cada persona es una biblioteca”. A instalação integra a exposição do centenário, que também traz peças da Toy Moveable Collection, um arquivo com mais de 2.000 livros pop‑up e objetos tridimensionais, que vão de clássicos do século XIX a experimentações contemporâneas. Fica em cartaz até novembro de 2026.
Num momento em que bibliotecas se debatem entre o digital e o físico, ‘Luceros y Penumbras’ reafirma o livro como dispositivo ancestral de espanto. Feito dos mesmos materiais que povoam as estantes — papel, cola, tecido — ele escala a experiência da leitura para uma arquitetura habitável. Ocupar o saguão de uma biblioteca centenária com uma engenhoca de papel de quase uma tonelada é um gesto de confiança na matéria e na memória. Ao abrir, não se lê: atravessa-se. A biblioteca já viu de tudo em cem anos — de pergaminhos medievais a bases de dados online —, mas é provável que poucas intervenções tenham provocado tanto espanto quanto um livro que, literalmente, não cabe na estante.


