China e Rússia podem realmente destruir a constelação Starlink? A resposta pode ser um tiro no pé

A guerra moderna encontrou na Starlink um protagonista inesperado. A constelação de milhares de satélites da SpaceX, inicialmente concebida para conectar consumidores rurais, tornou-se rapidamente o tendão de Aquiles digital russo na Ucrânia — e, por extensão, uma obsessão geoestratégica para China e Rússia. Uma investigação conjunta dos veículos europeus The Insider, Der Spiegel e Le Monde revelou documentos que mostram uma parceria sino-russa no campo das armas espaciais muito mais profunda do que qualquer um dos países jamais admitiu publicamente. O foco principal? Estratégias para neutralizar a rede de banda larga orbital de Elon Musk.

Os repórteres analisaram um conjunto de apresentações exibidas em um fórum de cooperação técnico-militar China-Rússia, até então secreto, realizado em 2023. Esse intercâmbio bilateral continuou desde então, com uma sexta rodada de encontros prevista para o fim deste ano em São Petersburgo. A conclusão das publicações é cristalina: a parceria saiu da retórica compartilhada e evoluiu para um programa estruturado e multidisciplinar para construir armas que nenhum dos dois países poderia desenvolver sozinho.

A sombra de Starlink sobre os campos de batalha

Não é difícil entender a motivação chinesa e russa. Desde a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022, o Starlink provou ser uma vantagem vital para os militares ucranianos. Em alguns casos, a rede permitiu estender o alcance efetivo de suas armas, levando a luta para dentro do coração do território russo. Para o Pentágono, o Starlink e suas variantes, como os satélites militares Starshield, seriam um multiplicador de força crucial em um conflito com as potências euroasiáticas, oferecendo uma camada de comunicação, navegação e mira impossível de se obter por meios tradicionais.

Ex-oficiais de defesa americanos ouvidos pela Ars Technica não demonstraram surpresa com o tom das revelações. A preocupação de Pequim com o Starlink se arrasta há anos, tanto na perspectiva econômica quanto na de segurança nacional. Charles Galbreath, coronel aposentado da Força Espacial americana e hoje pesquisador do Mitchell Institute, aponta que a colaboração entre as duas potências é mais preocupante do que as ações isoladas de cada uma delas. A China entra com recursos financeiros substanciais e expertise em chips; a Rússia, com a experiência brutal de testar novas capacidades em combate real na Ucrânia, a um custo humano de 1,4 milhão de baixas.]

A estratégia chinesa em três tempos

No centro da reportagem está uma apresentação feita por dois funcionários da estatal China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC). Eles descreveram uma meticulosa “escada de escalada” para derrotar o Starlink, começando por medidas diplomáticas para criar pressão internacional, sob o argumento do risco de colisões na órbita baixa. A segunda fase seria técnica: uma guerra de trâmites em organismos internacionais por faixas de frequência e slots orbitais, combinada com interferência eletromagnética (jamming) para bloquear o sinal regionalmente.

O terceiro e último degrau seria o “golpe de misericórdia”: a destruição física da constelação por meio de guerra cibernética e armas antissatélite (ASATs). Embora os slides da CASC não detalhem o método, as reportagens europeias sugerem que uma das ideias envolveria uma nuvem de projéteis de alta densidade capazes de pulverizar os satélites em uma colisão. É uma lógica de “zona bloqueada”, onde a presença dos satélites da SpaceX em órbita baixa é enquadrada pelos chineses não como concorrência, mas como um “bloqueio” que sufoca rivais — uma forma astuta de vender o ataque como autodefesa.

O bumerangue atômico e a órbita incendiada

A realidade, no entanto, impõe um contraponto amargo a essas ambições. A “escada de escalada” já está em movimento. Engenheiros chineses anunciaram um canhão de micro-ondas de 100 gigawatts que poderia ameaçar satélites em órbita baixa, e a Rússia trabalha para ejetar pequenas esferas na rota das constelações inimigas. Contudo, a carta mais extremada e paradoxal está no suposto plano de Moscou de posicionar uma arma nuclear em órbita — uma violação direta do Tratado do Espaço Exterior de 1967.

Uma detonação nuclear na órbita baixa seria a arma antistarlink definitiva. O problema é que o tiro sairia pela culatra de forma cataclísmica. As nuvens de radiação se espalhariam pelo espaço próximo à Terra, tornando a órbita baixa inutilizável para qualquer missão espacial por meses ou até anos. A consequência de tal evento não seria apenas o colapso das redes de satélites ocidentais, mas também a destruição completa das próprias constelações emergentes de observação e comunicação que a China está lançando, como a Guowang. A dinâmica lembra uma máxima da Guerra Fria: a tentação do primeiro golpe desaparece quando o atacante se descobre no raio do próprio cogumelo.

Estamos, portanto, diante de um impasse clássico. A resiliência do Starlink não está apenas na sua capacidade de reposição acelerada via foguetes reutilizáveis, mas no fato de que sua aniquilação total exigiria um sacrifício orbital que nem chineses nem russos estão dispostos a fazer. Enquanto isso, a própria Força Espacial dos EUA apresentou recentemente seu novo jammer terrestre. A dança na “escada” continua, mas o último degrau, por ora, é de areia movediça para qualquer um que ouse pisá-lo.

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