A derrota no Texas coloca Musk diante de um problema que dinheiro não resolve

Elon Musk saiu da eleição americana de 2026 com um problema bastante concreto: o Texas, estado para o qual transferiu empresas e operações, escolheu candidatos democratas, enquanto sua aposta política nacional consumia US$ 474 milhões em apoio a republicanos. James Talarico venceu a disputa para o Senado, Gina Hinojosa foi eleita governadora e Nathan Johnson assumiu o cargo de procurador-geral, segundo o relato. Para alguém acostumado a tratar política como mais uma linha do balanço, foi uma noite especialmente ruim.

A mudança para o Texas começou no fim de 2020, depois de meses de atrito com reguladores da Califórnia e da irritação de Musk com regras ambientais, tributação progressiva e cobranças sobre a Tesla. Ele dizia que a Califórnia estava acomodada e que o Vale do Silício exercia influência demais. A solução foi levar para o chamado Lone Star State as sedes da Tesla e da SpaceX. A SpaceX também instalou no sul do estado a Starbase, um grande campus de desenvolvimento de foguetes que já vinha enfrentando resistência de moradores e reguladores federais. A política, às vezes, cobra aluguel atrasado.

O que a vitória democrata muda para os negócios de Musk?

A vitória democrata pode dificultar a expansão de data centers, os investimentos em inteligência artificial e a aprovação de leis de tecnologia. A eleição deu força a grupos contrários a esses empreendimentos, abrindo caminho para novas moratórias sobre instalações que consomem grandes volumes de energia e água. Hinojosa já havia defendido uma moratória e o fim de incentivos fiscais para o setor. A resposta é direta: o ambiente regulatório tende a ficar menos confortável para Musk, especialmente no Texas.

O mercado reagiu mal aos resultados, ainda conforme o relato, com quedas nas ações da Tesla e em ativos associados ao Texas logo na abertura de quarta-feira. A reação não é difícil de entender. Data centers são parte importante da estratégia de expansão da IA, mas dependem de terrenos, energia, licenças e benefícios tributários. Cada uma dessas portas pode ser fechada por uma decisão local, estadual ou federal. O dinheiro compra influência; não compra automaticamente uma licença ambiental.

Dan Ives, analista de tecnologia e aliado de Musk, resumiu o risco em uma nota divulgada na manhã seguinte: o controle democrata, sobretudo no Senado, criaria obstáculos relevantes para a legislação de inteligência artificial e tecnologia em Washington nos dois anos seguintes. O comentário tem um detalhe curioso. Quando até um defensor precisa falar em “grandes obstáculos”, a festa já acabou — não, o contrário — ela talvez nem tenha começado.

Musk pode abandonar a expansão de data centers?

Musk sinalizou que pretende se afastar da ofensiva terrestre de data centers, depois de permanecer em silêncio por várias horas. Em uma publicação, escreveu que “data centers no espaço” pareciam atraentes naquele momento, numa referência aos planos da SpaceX de desenvolver centros orbitais de processamento. Em outra, brincou que seus “lasers espaciais de interferência eleitoral” não haviam funcionado desta vez. Piada, fuga ou estratégia? Não dá para saber ainda.

O episódio expõe uma contradição menos engraçada. Musk concentrou empresas, capital e infraestrutura no Texas para escapar de um ambiente político que considerava hostil, mas ajudou a transformar o estado em uma peça central de sua própria estratégia tecnológica. Agora, a votação pode limitar justamente os projetos que justificavam essa concentração. Talarico, em seu discurso de vitória, defendeu retirar o grande dinheiro da política para impedir que bilionários ou trilionários comprem eleições. A frase mira Musk, mas alcança um sistema inteiro. E os lasers, por enquanto, continuam sem endereço eleitoral.

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