Silfra, a fissura onde você pode nadar entre duas placas tectônicas

Há um lugar na Islândia em que a Terra parece ter aberto uma passagem para dentro de si. A fissura de Silfra fica entre as placas tectônicas Norte-Americana e Eurasiática, e visitantes podem nadar ou mergulhar nesse intervalo usando roupas especiais. A água é absurdamente transparente, permanece entre 2°C e 4°C durante todo o ano e, em alguns pontos, permite visibilidade de até 100 metros. Não é exatamente um passeio para quem confunde coragem com dispensar luvas.

Onde fica a fissura de Silfra?

A fissura de Silfra fica no Parque Nacional Þingvellir, a cerca de uma hora de carro de Reykjavík, diretamente sobre a Dorsal Mesoatlântica. Ela faz parte de um sistema de rachaduras criado pelo afastamento contínuo das placas Norte-Americana e Eurasiática, enormes blocos rochosos que formam a camada externa do planeta. As placas se separam pouco menos de 2,5 centímetros por ano. Parece pouco, até lembrarmos que montanhas e oceanos também são feitos de paciência.

Silfra foi ampliada por uma série de terremotos em 1789, quando o terreno se abriu e novas fissuras surgiram na região de Þingvellir. Uma delas se conectou a um sistema subterrâneo de nascentes e acabou preenchida por água do degelo. A formação, porém, é provavelmente muito mais antiga. O Parque Nacional Þingvellir informa que uma fissura de dez metros levaria pelo menos 1.500 anos para se formar, considerando um afastamento de cinco milímetros por ano.

O nome dá a impressão de que existe uma linha perfeitamente desenhada separando continentes, como se a geologia tivesse contratado um arquiteto. Não é bem assim. A fissura é um conjunto de seções conectadas, com cerca de 600 metros de extensão e 200 metros de largura no total. O visitante percorre trechos conhecidos como Big Crack, Silfra Hall, Silfra Cathedral e Silfra Lagoon, cada qual com diferentes dimensões, profundidades e condições de circulação da água.

Por que a água de Silfra é tão fria e transparente?

A água de Silfra é fria e cristalina porque o degelo percorre o subsolo por décadas antes de alcançar a fissura, filtrado por rochas vulcânicas e protegido do calor da superfície. Ela vem da geleira Langjökull, a pouco mais de 50 quilômetros de distância, e mantém temperatura entre 2°C e 4°C mesmo no verão. Em dias quentes, o ar pode chegar a 18°C; no inverno, temperaturas negativas não alteram muito aquela torneira natural subterrânea.

Esse longo caminho pelas rochas remove impurezas e explica a visibilidade excepcional, que frequentemente alcança 100 metros. A água é tão limpa que parece uma peça de vidro azul encaixada no chão, embora seja prudente não tentar tratá-la como piscina. Para entrar, turistas usam roupas secas, equipamentos de snorkel ou mergulho e orientação especializada. Depois, há o chocolate quente. Uma invenção modesta, mas perfeitamente adequada ao caso.

É seguro nadar entre as placas tectônicas?

É possível nadar em Silfra com segurança nas áreas autorizadas, mas algumas partes permanecem restritas por causa da profundidade e da força da correnteza. O chamado “toalete”, um túnel estreito com uma queda vertical, podia arrastar mergulhadores até aproximadamente 16 metros de profundidade. O apelido não é uma recomendação turística; é uma descrição de mau gosto para um lugar que já teve correnteza suficiente para expulsar pessoas como se fossem descarga. A caverna de Silfra também está fechada e ultrapassa 60 metros em alguns pontos.

O frio e a geologia não deixam muito espaço para improviso. Os trechos abertos aos visitantes são acompanhados por operadores de turismo, e o equipamento adequado é indispensável. Ainda assim, a experiência não é uma descida ao centro da Terra. É um mergulho curto, controlado e superficial em partes de uma fratura que continua se alargando, milímetro após milímetro, enquanto os visitantes fazem o possível para não bater os dentes.

A vida ali também é mais discreta do que a paisagem. Há microrganismos e uma alga verde-neon conhecida como “cabelo de troll”, mas poucos animais encontram alimento suficiente na água filtrada. Um pequeno crustáceo, o anfípode Crymostygius thingvallensis, é exclusivo de Silfra e de outras fissuras próximas ao lago Þingvallavatn. Peixes como o salvelino-do-ártico entram ocasionalmente durante a época de reprodução, em agosto e setembro; o salvelino-anão vive ali o ano inteiro, embora raramente se deixe ver.

Silfra oferece uma imagem difícil de esquecer: de um lado, uma placa; do outro, outra; no meio, água glacial transparente e um visitante vestido como astronauta de orçamento terrestre. A paisagem não é apenas bonita. Ela mostra, em escala humana, que o planeta está sempre se movendo — devagar demais para assustar, depressa o bastante para abrir uma passagem.

spot_img