O mesmo aeroporto aproxima casos de ebola no Quênia e na Nigéria — entenda a investigação

Dois casos de ebola, um identificado no Quênia e outro na Nigéria, levaram autoridades africanas a investigar uma coincidência incômoda: os pacientes passaram pelo Aeroporto Internacional de Entebbe, em Uganda, no dia 3 de outubro. Eles podem até ter estado no mesmo terminal, mas ainda não há prova de encontro, contato ou transmissão no local. Uganda, que afirma não registrar casos ativos, virou o ponto de interrogação do mapa. Não necessariamente a origem.

O que liga os casos de ebola no Quênia e na Nigéria?

A ligação conhecida é geográfica e temporal: os dois pacientes estiveram no Aeroporto Internacional de Entebbe na mesma data, segundo Wessam Mankoula, chefe de preparação e resposta a emergências do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC). A coincidência não basta para estabelecer uma cadeia de transmissão, mas justifica o rastreamento de passageiros, contatos e trajetos.

O caso queniano envolve um paciente que viajou da República Democrática do Congo (RDC) para o Quênia passando por Uganda. Ele morreu em Nairóbi, em 5 de outubro. O paciente nigeriano é uma mulher que viajou pela África Oriental e teve os primeiros sintomas em 7 de outubro, quatro dias depois da passagem por Entebbe. O intervalo é compatível com a investigação, não com uma conclusão pronta.

Uganda aparece, portanto, em duas histórias que ainda podem ter explicações diferentes. O país pode ter sido apenas uma escala para pessoas infectadas antes da viagem. Também é possível que alguma infecção tenha passado despercebida numa região de circulação intensa, próxima a fronteiras movimentadas. A diferença entre as hipóteses é enorme; os dados disponíveis ainda não escolheram uma delas.

O que se sabe sobre o caso de ebola na Nigéria?

O caso nigeriano foi confirmado em Abuja e envolve uma mulher que havia viajado recentemente pela África Oriental, incluindo Uganda. Ela procurou atendimento médico quatro dias depois do início dos sintomas, foi submetida a exames e acabou isolada para tratamento. A Nigéria identificou 44 pessoas que tiveram contato com ela, entre familiares, profissionais de saúde, pacientes e possíveis contatos durante a viagem.

A origem da infecção, porém, virou motivo de disputa entre autoridades. Uganda afirmou que a mulher havia viajado anteriormente para o leste da RDC, país que enfrentava um surto de ebola, e que apenas transitara por território ugandense sem apresentar sintomas. Pela versão de Kampala, a exposição poderia ter ocorrido na RDC.

Mas o governo suíço apresentou outra versão. Em declaração à Reuters, o Departamento Federal de Relações Exteriores da Suíça afirmou que a mulher e o marido não estiveram na RDC. As autoridades suíças a identificaram como cidadã suíça de origem ugandense, casada com um diplomata suíço lotado em Abuja. Na quinta-feira, o governo suíço disse acreditar que ela contraíra o vírus durante uma viagem a Uganda com o marido — hipótese ainda sem confirmação independente.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Africa CDC disseram não ter recebido evidências de que a paciente tenha viajado à RDC. Isso aumenta a incerteza sobre o local da exposição, mas não demonstra que o contágio ocorreu em Uganda. Não, o contrário também não está provado.

Por que a investigação do caso queniano enfrenta dificuldades?

A investigação no Quênia também depende da localização de contatos. Segundo o jornal Daily Nation, as autoridades procuram um cidadão ugandense que teria tido contato com o paciente morto em Nairóbi. O diretor-geral de Saúde do Quênia, Patrick Amoth, afirmou que os investigadores possuem o nome, o número do passaporte e o telefone do homem, mas ainda não conseguiram encontrá-lo.

O obstáculo é prosaico e decisivo: ele usava um número telefônico do Sudão do Sul, o que dificulta a localização. Ter sido identificado como contato tampouco significa estar infectado. Significa que sua movimentação e seu estado de saúde podem ajudar a reconstruir a cadeia de transmissão, caso ela exista.

Desde o primeiro caso confirmado, o Quênia registrou novas infecções associadas a ele e intensificou medidas de triagem e controle nas fronteiras. A busca por uma única pessoa, neste caso, não é burocracia sanitária. É uma tentativa de descobrir quem esteve exposto antes que os sintomas façam o trabalho de anunciar o vírus.

No lado nigeriano, a confirmação em Abuja provocou preocupação entre moradores. “Estou realmente muito preocupada”, disse à DW Peace Kolawole, segurando um frasco de álcool em gel. Jonathan Steven resumiu outro medo: “As pessoas nem estão mais preocupadas em adoecer, estão preocupadas em sobreviver”. A frase fala tanto do ebola quanto da confiança — ou da falta dela — nos sistemas de saúde.

Por que o controle nas fronteiras não elimina o risco?

O controle de fronteiras reduz riscos, mas não identifica todos os casos de ebola. Segundo a OMS, o período entre a infecção e o aparecimento dos sintomas pode variar de dois a 21 dias, e a pessoa infectada só se torna contagiosa depois que os sintomas surgem. Um passageiro sem sinais visíveis pode atravessar um aeroporto e continuar a viagem sem ser detectado.

Uganda compartilha uma longa fronteira com a RDC, onde surtos de ebola ocorrem periodicamente. Pessoas e mercadorias circulam por uma região extensa, e nem todo deslocamento passa por um posto formal. É o tipo de geografia que transforma uma linha no mapa em uma peneira bastante imperfeita.

O surto declarado em 15 de maio no leste da RDC também se espalhou para outras províncias. Segundo o último relatório do Instituto Nacional de Saúde Pública da RDC, com dados coletados até 29 de outubro, foram registradas 10.351 infecções confirmadas e 5.026 mortes. A taxa de letalidade era de 48,6%, enquanto o rastreamento de contatos alcançava 84,5%.

Os números dão dimensão ao problema, mas não resolvem a pergunta central: onde cada pessoa foi infectada? Para isso, autoridades precisam cruzar registros de viagem, listas de passageiros, relatos familiares, prontuários e contatos telefônicos. E precisam compartilhar tudo depressa, antes que a burocracia chegue primeiro.

Quais perguntas ainda precisam de resposta?

A principal dúvida é se os pacientes do Quênia e da Nigéria tiveram algum contato no Aeroporto Internacional de Entebbe em 3 de outubro. Até agora, não há confirmação de que tenham se encontrado ou de que o vírus tenha sido transmitido ali. A coincidência sustenta a investigação; não sustenta, sozinha, uma acusação epidemiológica.

Outra questão é o local em que a paciente nigeriana foi infectada. Uganda afirma uma passagem pela RDC; a Suíça nega essa viagem e aponta Uganda como possível lugar de exposição. OMS e Africa CDC não confirmaram a ida à RDC. Talvez novos registros esclareçam o trajeto. Talvez a resposta dependa de uma cadeia de contatos que ainda não foi encontrada.

Uganda diz estar reforçando a vigilância sanitária nos pontos de entrada. A Nigéria ampliou o rastreamento dos 44 contatos identificados, enquanto o Quênia tenta localizar o cidadão ugandense ligado ao caso fatal. Por enquanto, o aeroporto é uma coordenada comum, não uma prova comum. E, no mapa da epidemia, uma escala de viagem pode ser apenas uma escala — ou o lugar onde a história começou.

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