Quando a luz acabar, quem estará preparado?

O Pentágono está se preparando para a possibilidade de uma guerra capaz de derrubar a rede elétrica e interromper cadeias de abastecimento por semanas. Um requisito em desenvolvimento prevê que cada grande base militar dos 48 estados contíguos dos Estados Unidos consiga operar de forma independente por pelo menos 90 dias. No Reino Unido, a campanha Be Ready recomenda algo bem menos ambicioso, mas igualmente revelador: água, comida não perecível e dinheiro vivo para três dias sem serviços essenciais. Enquanto governos calculam a duração de um apagão, os muito ricos já compraram geradores, propriedades de fuga e estoques para um intervalo maior.

O programa americano, chamado FORTRESS, incluiria água, combustível, comunicações e energia. O Pentágono não informou qual adversário está no centro da preocupação. Em 2024, porém, agências americanas de cibersegurança, inteligência e segurança pública alertaram que hackers ligados ao Estado chinês haviam penetrado redes de energia, água e comunicação dos Estados Unidos. A hipótese era que essas estruturas pudessem ser sabotadas durante um conflito futuro. Não é exatamente o roteiro de um filme, embora a diferença entre uma base militar autossuficiente e um bunker de bilionário esteja ficando menos nítida.

Por que Estados Unidos e Reino Unido estão reforçando a preparação?

Estados Unidos e Reino Unido estão reforçando a preparação porque um conflito pode atingir simultaneamente energia, água, comunicação e abastecimento. A exigência americana de 90 dias vale para grandes bases, enquanto a orientação britânica pede que as famílias tenham recursos para três dias. São escalas diferentes para o mesmo problema: a vida contemporânea depende de sistemas que funcionam continuamente, até o momento em que deixam de funcionar.

A campanha britânica Be Ready foi lançada em 22 de outubro e orienta os moradores a guardar água, alimentos que não dependam de refrigeração e dinheiro em espécie. A recomendação não fala necessariamente em guerra. Uma falha prolongada pode resultar de ataque cibernético, desastre natural ou interrupção de serviços essenciais. Três dias parecem pouco até faltar água na torneira, o cartão parar de passar e o celular virar apenas uma tela iluminada.

O plano FORTRESS leva essa lógica para uma escala militar. Uma base que não consegue manter combustível, comunicações e energia perde capacidade operacional mesmo que seus edifícios permaneçam intactos. O detalhe importante está na autonomia, não no concreto. O abrigo mais seguro do mundo precisa de alguma coisa para continuar funcionando.

Como os muito ricos estão montando seus refúgios?

Os muito ricos estão combinando geradores, estoques, equipes de segurança e imóveis afastados dos grandes centros para enfrentar interrupções prolongadas. Consultores, corretores e profissionais que trabalham em residências de alto patrimônio relatam que essa procura aumentou especialmente nos últimos cinco anos. Há quem mantenha sistemas de energia reserva e suprimentos para meses; há quem espalhe propriedades pelos Estados Unidos e pelo exterior.

Brian Daniel, fundador da Celebrity Personal Assistant Network, afirmou que seus clientes passaram a tratar a segurança como uma prioridade mais constante. Famílias com patrimônio superior a US$ 100 milhões, segundo ele, costumam manter pessoal de segurança em tempo integral. Alguns compradores também procuram bunkers subterrâneos de luxo, avaliados em milhões de dólares. O nome comercial é “tranquilidade”. O equipamento, nem sempre tão tranquilo.

Mark Zuckerberg oferece um exemplo conhecido. Em dezembro de 2023, a Wired informou que o executivo desenvolvia uma propriedade de aproximadamente 1.400 acres em Kauai, no Havaí, com custo estimado em US$ 270 milhões. Os planos analisados pela revista indicavam um abrigo subterrâneo de mais de 5.000 pés quadrados, com energia e alimentos próprios. Zuckerberg contestou a descrição de bunker para o fim do mundo e disse à Bloomberg que se tratava apenas de um abrigo, algo parecido com um porão. Talvez a diferença esteja no dicionário. Ou no orçamento.

O que os estoques e as “casas de fuga” revelam?

Os estoques e as chamadas “casas de fuga” revelam que a preparação dos bilionários deixou de ser apenas uma excentricidade particular e virou um mercado organizado. Philip Farina, consultor da Risky Business, disse que campanhas recentes de preparação governamental aumentaram as consultas de famílias de alto patrimônio. Durante a pandemia, alguns clientes deixaram regiões com regras mais rígidas e buscaram imóveis secundários em áreas remotas.

O pacote procurado por esses compradores pode incluir terreno autossuficiente, alimentos e bebidas armazenados, mochilas de emergência, treinamento com armas e planos de comunicação para todos os familiares. Parece uma lista de compras, mas cada item responde a uma dependência concreta. Sem comunicação, a família não sabe onde se reunir. Sem combustível, o gerador é um monumento caro. Sem água, o refúgio vira cenário.

Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, disse à New Yorker, em 2017, acreditar que mais da metade dos bilionários do Vale do Silício havia investido no que esses círculos chamam de “seguro contra o apocalipse”. Sam Altman, em perfil publicado pela mesma revista em 2016, mencionou armas, ouro, iodeto de potássio, antibióticos, baterias, água, máscaras de gás e um terreno em Big Sur para onde poderia voar. A lista tem algo de medieval e algo de manual técnico. O medo é antigo; a logística, não.

Por que a localização da casa virou parte da segurança?

A localização da casa virou parte da segurança porque altitude, distância dos centros urbanos e resistência a tempestades podem determinar a sobrevivência de uma propriedade durante um apagão. Em Miami, compradores ricos perguntam sobre a altura do imóvel, a existência de gerador e a possibilidade de instalar um. A cidade é cercada por água e exposta a furacões, portanto a rede elétrica não é uma preocupação abstrata de corretor.

Samuel Strauch, da Metrik Real Estate, afirmou que vidros resistentes a impactos e construção preparada para ventos fortes já são considerados características esperadas por compradores sofisticados. O imóvel precisa continuar habitável quando a rua está alagada, o comércio fechado e o sinal de celular instável. Em Palm Beach, uma via próxima a Mar-a-Lago foi fechada por razões de segurança relacionadas à guerra entre Irã e Israel, segundo os relatos citados. Corretores disseram que alguns compradores viram a interrupção como vantagem, não como inconveniente.

Jessica Julian, agente imobiliária baseada em Palm Beach, afirmou que aquilo que antes parecia um transtorno temporário passou a integrar a infraestrutura local de negócios. É uma frase estranha, mas precisa: a segurança deixou de ser um serviço extraordinário e passou a influenciar o valor do endereço. A casa não vende apenas vista para o mar. Vende distância, barreira, acesso controlado — e a esperança de que isso baste.

Quem consegue se preparar para um apagão prolongado?

Quem consegue se preparar para um apagão prolongado são, sobretudo, governos e famílias capazes de pagar por redundância: mais de uma casa, mais de uma fonte de energia, mais de um caminho para sair. A maioria das pessoas receberá uma recomendação de três dias e terá de decidir o que cabe no orçamento. Um bilionário pode comprar um abrigo subterrâneo; uma família comum talvez compre água, lanternas e pilhas. Não é a mesma proteção.

O ponto não é rir do bunker nem aceitar que todo apagão anuncie o colapso. Também não dá para saber qual dessas previsões se concretizará. O dado mais incômodo é outro: instituições militares estão planejando autonomia de 90 dias, enquanto governos aconselham cidadãos a suportar 72 horas. Entre esses dois números existe uma diferença de classe, geografia e poder.

Quando a luz acabar — se acabar por horas, dias ou mais — a pergunta não será apenas quem tem um gerador. Será quem tem água, comunicação, comida e um lugar para onde ir. Alguns já compraram a resposta. Os demais ainda estão procurando uma tomada.

Via

spot_img