Houve um tempo em que pedir um livro pelo correio era um gesto de confiança no futuro. Você preenchia um formulário, enviava um cheque, esperava semanas. A internet encurtou o ciclo: clique, pagamento, entrega na porta. Agora o governo americano estuda se o mesmo princípio pode valer para fuzis AR-15 — e, por extensão, para quem os compra longe dos holofotes.
A administração Trump determinou que o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) revisasse as regras de venda de armas. Em abril, o ATF entregou 34 propostas. A mais espalhafatosa elimina a obrigação de o comprador ir a uma loja física para verificação de antecedentes criminais. A checagem seria remota, e o fuzil, despachado pelo correio. É a lógica do e-commerce aplicada ao armamento: menos atrito, mais conversão. O produto é um semiautomático.
As 34 mudanças que o ATF colocou na mesa
As propostas miram desfazer o legado de Joe Biden, que ampliou a exigência de licença para vendedores. Mas o que a Casa Branca chama de defesa da Segunda Emenda é visto por especialistas como uma máquina de encher os arsenais do crime organizado. A mesma administração que, em maio, classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas agora facilita o caminho para que essas facções recebam armamento americano. A ironia não passou despercebida.

Do forno de Viracopos aos fuzis Colt na fronteira
As rotas do tráfico já são conhecidas. Em maio, um fuzil AK-47 enviado da Flórida foi flagrado no aeroporto de Viracopos, desmontado e escondido dentro de um forno. Em março do ano passado, 30 fuzis foram localizados em prensas hidráulicas, com destino a São Paulo, Rio, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No mês passado, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu no Paraná 26 fuzis, 22 deles da marca americana Colt — a maior apreensão da história da corporação. A procedência exata ainda será periciada, mas o endereço de origem não surpreende.
John Lindsay-Poland, coordenador do projeto Stop US Arms to Mexico, vê na venda online com entrega postal um risco novo. “Uma das propostas especialmente preocupantes é permitir a venda e a entrega de armas pelos Correios, sem qualquer interação presencial. O comprador pode ser qualquer pessoa que não tenha uma razão legítima para adquirir a arma”, diz. Para ele, o problema central é o tamanho do mercado civil americano, que normaliza transações suspeitas. Mesmo que uma arma seja exportada legalmente e depois desviada, o vendedor raramente enfrenta consequências.
Matt Schroeder, pesquisador da Small Arms Survey, acrescenta que a exportação ilegal já é feita por “organizações criminosas, algumas bastante amadoras, que pagam pessoas sem antecedentes para comprar pequenas quantidades”. Essas armas são depois reunidas e enviadas. O afrouxamento das exportações legais, porém, preocupa mais. Em setembro de 2025, Trump revogou restrições de Biden para 36 países com histórico de desvio de armas, incluindo Paraguai, Suriname, Colômbia e Peru. O Departamento de Comércio justificou: “centenas de milhões de dólares por ano em oportunidades de exportação”.
Fábricas clandestinas: a nova linha de montagem do crime
No Brasil, as apreensões de fuzis dispararam 167% desde 2021, chegando a 2.152 unidades em 2025, segundo o Sou da Paz. Das armas com origem rastreada, 738 são americanas e 586 brasileiras. Mas a produção clandestina local está mudando o jogo. Em Santa Bárbara d’Oeste, uma fábrica disfarçada de oficina aeronáutica tinha capacidade de 3,5 mil fuzis por ano. “A qualidade melhorou muito”, diz Michele dos Ramos, da Senasp. “O custo para a facção é bem menor do que importar.”
A logística que encurtou a distância para o comércio pode agora encurtá-la para o crime. O correio que entrega livros também entrega fuzis — e as facções já têm o endereço.

