Imagine uma trilha na serra, entre pedras e nuvens baixas. O cachorro sente o cheiro de algo — talvez um veado, talvez uma caça maior — e some entre os arbustos com a disciplina feroz de quem seguiu uma trilha de nariz. Você tem um rastreador GPS na coleira dele, mas a rede celular não pega ali. O aparelho pode calcular a posição, mas não tem como te avisar. Você apita, chama, espera. Nada. A floresta engoliu o bicho e não devolveu sinal.
Esse cenário, tão comum a quem convive com cães de alto estímulo, foi o gatilho para Jonathan Bensamoun criar o que ele descreve como o primeiro dispositivo vestível conectado por satélite para cães. Bensamoun é o fundador e CEO da Fi, uma empresa que fabrica rastreadores para pets desde 2017, motivada originalmente por uma experiência doméstica: ao adotar um pastor alemão chamado Thor, ele quis garantir que a pessoa que levava o cachorro para passear não cortasse caminho no percurso.
Quando a rede celular falha, o satélite assume
Mesmo com a empresa crescendo e conquistando fatia de mercado, Bensamoun ouvia dos clientes a mesma reclamação: o rastreador funciona, mas só enquanto tem cobertura de celular. Em áreas rurais, sertões, trilhas ou regiões com infraestrutura precária, o aparelho virava um peso bonito na coleira. O problema não era a tecnologia GPS — era a parte de comunicação, que dependia de torres de celular que não existem onde o cachorro costuma fugir.
Foi aí que entrou o Starlink, a constelação de satélites da SpaceX que, a partir de 2024, passou a oferecer conectividade direta a smartphones e dispositivos via parceria com a T-Mobile. Bensamoun viu a solução tomando forma: quando a rede terrestre falha, um satélite sobrevoando a região assume a tarefa de transmitir os dados. Em 8 de julho, o serviço entrou no ar. O primeiro rastreador de cães via satélite do mundo.
O dispositivo combina um receptor GPS, que calcula a posição em tempo real, com um modem simples e eficiente em energia que se conecta à rede celular da T-Mobile. Quando o cachorro se afasta de uma zona pré-definida — o quintal, por exemplo — o dono recebe um alerta no aplicativo. Se não houver torre por perto, o aparelho liga direto para um satélite Starlink para completar a transmissão. É como um lifeline que funciona mesmo quando você está a quilômetros de qualquer poste de luz.

Geofence, vibração e um bichinho treinado
O sistema permite configurar uma geofence: uma área virtual ao redor do ponto de origem. Enquanto o cachorro estiver dentro dessa cerca invisível, o dono não recebe notificação. Quando o animal cruza a linha — por exemplo, pula o muro e desaparece na mata — o alerta dispara. A lógica é simples, mas o impacto para quem já passou noite acordado imaginando o pior é enorme.
Além do rastreamento, o dispositivo oferece um recurso que parece tirado de um filme de espionagem canina: o dono pode enviar sinais ao cachorro — pequenas vibrações ou sons curtos — para chamar a atenção do animal de volta. A ideia não é apenas tecnológica, é comportamental: Bensamoun sugere treinar o cão para associar aquela vibração ao momento da recompensa. Vibração igual a comida. O bicho aprende rápido e, no futuro, a simples vibração pode ser o suficiente para trazê-lo de volta sem necessidade de gritos ou apitos que ecoam sem resposta.
Rastreadores GPS já existem — mas a conectividade era o calcanhar de Aquiles
Rastreamento GPS para animais não é novidade. Nos anos 1990, pesquisadores já colocavam dispositivos em animais selvagens — alces, renas, grandes mamíferos que precisavam ser monitorados em territórios vastos. Os aparelhos da época eram pesados, caros e, para um cão de estimação, simplesmente inviáveis. A tecnologia encolheu no início dos anos 2010, e os primeiros rastreadores para pets começaram a aparecer no mercado.
Hoje, segundo estimativas do setor, cerca de 11 milhões de cães no mundo são rastreados ou monitorados por GPS de alguma forma. A Fi Ultra, a nova aposta da empresa, resolve justamente a lacuna que esses dispositivos deixavam: a dependência de torres de celular. Com a conectividade via satélite, o rastreador oferece quase onipresença de sinal, mesmo em áreas onde o celular não pega. É a diferença entre ter um mapa sem bússola e ter um mapa que se atualiza a cada segundo, mesmo no meio do nada.
A bateria dura dias e o cão pode ser chamado de volta
Um detalhe prático que faz diferença: a bateria do dispositivo dura vários dias, segundo a Fi. Para quem está desesperado procurando o cachorro no mato, isso significa tempo — tempo para organizar uma busca, percorrer trilhas, esperar o animal voltar por conta própria. E enquanto isso, o recurso de vibração pode ser usado como isca sonora, um chamado que o cachorro aprende a reconhecer como retorno ao abrigo e à comida.
A proposta é clara: transformar o pânico de um cachorro perdido em um problema gerenciável, com dados em tempo real e um canal de comunicação que funciona mesmo onde a civilização não alcança. Não é uma garantia de resgate imediato, mas é uma ferramenta que coloca o dono no controle de uma situação que costumava ser pura angústia.
O mercado de pets e a fronteira da conectividade
A Fi não está sozinha no mercado de rastreadores para cães, mas a aposta no satélite a coloca em território inexplorado. Enquanto outras empresas brigam por bateria mais longa, telas melhores ou preços menores, a Fi resolveu o problema mais básico: funciona onde os outros não funcionam. É uma jogada que pode redefinir o que esperamos de um dispositivo vestível para animais.
A verdade é que a vida com cães em áreas rurais ou de difícil acesso sempre envolveu um risco calculado. O animal foge, o dono procura, a natureza faz o resto. Agora, pela primeira vez, há um fio tecnológico que não se rompe com a distância. É um começo.

