Fóssil brasileiro revela uma cobra escavadora, mas não resolve a origem das serpentes

Uma pequena serpente preservada em arenito brasileiro tinha um crânio feito para a vida subterrânea. Ossos compactos e sobrepostos, ouvido interno peculiar e sinais no encéfalo apontam para um animal escavador já especializado na época dos dinossauros.

O achado, porém, não identifica o ambiente em que surgiram as primeiras serpentes. A espécie Tametara mirim mostra que havia diversidade ecológica entre as linhagens antigas; não autoriza transformar uma especialista em retrato falado de todos os ancestrais. A pesquisa teve apoio da FAPESP, agência de fomento à pesquisa do estado de São Paulo.

Onde o fóssil foi encontrado?

O fóssil foi descoberto em 2020, por William Nava e Giovanna Paixão, em uma pedreira de Presidente Prudente, no oeste paulista. O espécime está associado ao Museu de Paleontologia de Marília, e a rocha pertence à Formação Adamantina, do Grupo Bauru, uma unidade conhecida por fósseis de dinossauros.

O registro brasileiro de serpentes cretáceas era bem mais modesto: principalmente vértebras isoladas. Tametara mirim é apresentada como a primeira serpente articulada encontrada no país, isto é, com os ossos ainda conectados. O animal preserva a parte posterior do crânio e cerca de 103 vértebras da região anterior do corpo.

A porção conservada mede 419 milímetros, aproximadamente 42 centímetros. Não é o comprimento total: a parte traseira desapareceu antes de virar pedra, como tantas vezes acontece no arquivo incompleto dos fósseis. O crânio preservado tem 17,8 milímetros, mas teria alcançado cerca de 33 milímetros. O desenvolvimento ósseo e as vértebras indicam um indivíduo adulto. O nome combina uma referência à crista destacada do crânio com “mirim”, palavra associada a pequeno.

Quais sinais indicam uma vida subterrânea?

Tametara mirim provavelmente era escavadora, porque diferentes linhas de evidência anatômica convergem para esse modo de vida. A conclusão não depende de uma única estrutura, e isso faz diferença quando o animal morreu há milhões de anos.

O teto do crânio apresenta ossos compactos, espessos e bastante sobrepostos. Essas características aparecem em répteis que escavam ou passam parte considerável do tempo sob o solo. Os pesquisadores compararam espessura, compactação, sobreposição e proporções cranianas com espécies viventes, em vez de confiar apenas numa semelhança visual.

O ouvido interno acrescenta outra pista. A região vestibular é ampliada, enquanto os canais semicirculares têm uma organização simplificada, combinação compatível com adaptações observadas em serpentes escavadoras. Sozinho, porém, o ouvido interno não encerra a discussão: estudos anteriores já chegaram a interpretações diferentes a partir dessa estrutura.

A tomografia microcomputadorizada de alta resolução permitiu examinar o crânio sem destruí-lo. Os pesquisadores separaram digitalmente ossos, nervos cranianos, ouvido interno e cavidade craniana, criando modelos tridimensionais. O chamado molde endocraniano não é um cérebro fossilizado; é uma reconstrução dos espaços que abrigavam tecidos neurais. Ainda assim, oferece pistas sobre anatomia e sentidos.

O telencéfalo, parte do prosencéfalo, recebeu atenção especial porque sua forma costuma corresponder melhor ao espaço interno do crânio. Os bulbos olfatórios eram curtos, os hemisférios cerebrais apenas modestamente expandidos e o teto óptico, ligado ao processamento visual, pouco definido. Em animais subterrâneos, a visão tende a perder protagonismo. Talvez. O fóssil não mede o comportamento, nem informa sozinho como a serpente percebia o mundo.

O que a comparação com outra serpente revela?

A comparação com Dinilysia patagonica, uma serpente cretácea argentina, mostra que as linhagens antigas não tinham todas o mesmo perfil ecológico. Tametara se agrupou com formas escavadoras, enquanto Dinilysia ocupou uma região anatômica associada a animais não escavadores.

Os pesquisadores analisaram o prosencéfalo de 58 espécies atuais de répteis e dos dois fósseis. Também compararam a microestrutura craniana de 106 espécies viventes com os exemplares antigos. Um modelo estatístico atribuiu a Tametara probabilidade de 99,2% de pertencer à categoria escavadora. A precisão geral do modelo, contudo, foi de 65%, e variou bastante conforme o habitat. Número impressionante, mas não é uma câmera instalada no Cretáceo.

Dinilysia tinha bulbos olfatórios excepcionalmente longos e curvos, além de hemisférios cerebrais estreitos. O resultado favoreceu uma vida não escavadora, possivelmente em superfície ou em outro ambiente, mas não separou com segurança essas alternativas. O contraste entre as duas espécies é mais importante que qualquer rótulo isolado: a diversidade já estava instalada.

O estudo evolutivo reuniu 166 espécies fósseis e atuais, 394 características anatômicas e dados genéticos de 11 regiões. As análises colocaram Tametara entre as serpentes-tronco, fora do grupo que reúne as espécies viventes. Em geral, ela apareceu como uma forma de divergência antiga, próxima da serpente argentina Najash.

Isso não faz dela uma ancestral direta das serpentes modernas. Também não prova que as primeiras serpentes tenham surgido no subsolo. O registro inclui formas marinhas, escavadoras e não escavadoras. A região próxima à cloaca não foi preservada, portanto não é possível saber se o animal ainda mantinha membros posteriores.

Há um problema maior, quase cartorial: existem menos de dez fósseis articulados de serpentes em todo o Mesozoico, e apenas três eram conhecidos anteriormente com preservação tridimensional. Fósseis mais antigos, sobretudo do Jurássico, serão necessários para localizar melhor o começo dessa história. Por enquanto, Tametara mirim não entrega a origem das serpentes. Entrega algo mais honesto: um passado que já era subterrâneo, aquático e terrestre ao mesmo tempo.

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