Quem inventou a pizza? Descubra como ela saiu de Nápoles para conquistar o mundo

A pizza moderna nasceu em Nápoles no século XVIII, mas sua linhagem é bem mais antiga e atravessa Egito, Grécia, Pérsia, Roma e outras culturas que assavam pães achatados com ingredientes por cima. Raffaele Esposito não inventou sozinho a pizza: ele ajudou a transformar o prato em símbolo nacional ao servir, em 1889, uma combinação que recebeu o nome de Margherita. A história verdadeira é menos limpa — e muito mais saborosa.

Onde surgiram os primeiros pães parecidos com pizza?

Os primeiros parentes da pizza apareceram em diferentes culturas, milhares de anos antes de Nápoles. Arqueólogos encontraram na Sardenha evidências de pão fermentado assado há cerca de 7.000 anos. Em algum momento, alguém teve a ideia bastante sensata de colocar óleo, vegetais, carne ou especiarias por cima. A massa deixou de ser somente acompanhamento. Virou prato.

Por volta do século VI a.C., soldados persas sob o comando do rei Dario I cobriam pães achatados com tâmaras e queijo, segundo a Science Trends. Na China, existia o bing, uma massa redonda e achatada; na Índia, o paratha levava gordura; no sul e no centro da Ásia, roti e naan cumpriam funções parecidas. Nenhum desses alimentos era pizza, claro. Mas a humanidade já havia descoberto a combinação decisiva: farinha, calor e alguma coisa interessante por cima.

Os exemplos mais próximos da pizza moderna talvez tenham surgido no Mediterrâneo antigo. Gregos e egípcios preparavam pães achatados com óleos, frutas e temperos. Em Roma, Cato, o Velho, escreveu no século III sobre um pão redondo coberto com ervas e azeitonas; no século V, Virgílio mencionou preparação semelhante. Utensílios encontrados em Pompeia também sugerem que pratos parecidos eram feitos antes da erupção do Vesúvio, em 79 d.C. A genealogia é extensa. O nome, porém, ainda demoraria a aparecer.

Quando a pizza ganhou esse nome e chegou a Nápoles?

A palavra “pizza” aparece documentada pela primeira vez em Gaeta, no ano de 997. Isso não significa que a pizza moderna tenha sido inventada ali, mas mostra que o termo já circulava na Itália medieval. O prato que reconhecemos hoje tomou forma muito depois, em Nápoles, quando uma refeição simples encontrou uma cidade populosa, pobre e sem paciência para cerimônia.

Nápoles começou como uma colônia grega por volta de 600 a.C. Nos séculos XVIII e XIX, era uma cidade próspera em certos aspectos, mas também concentrava muitos trabalhadores pobres. Segundo Carol Helstosky, professora de história da Universidade de Denver e autora de Pizza: A Global History, boa parte da população vivia em espaços apertados, às vezes em casas que mal passavam de um cômodo, e fazia muita coisa ao ar livre.

Para esse público, a pizza resolvia problemas concretos: era barata, rápida de preparar e podia ser comida na rua. Tomate, queijo, anchova, óleo e alho cobriam o pão. A elite napolitana olhava para aquilo com desdém, como costuma acontecer quando uma comida popular ameaça subir de classe. A massa não precisava de talheres, salão ou louça especial. Precisava de forno e de alguém com fome.

Raffaele Esposito inventou a pizza Margherita?

Raffaele Esposito não inventou a pizza, mas ficou associado à Margherita depois de servir três pizzas à rainha Margherita de Savoia, em 1889. A visita da rainha e do rei Umberto I a Nápoles criou a ocasião perfeita para transformar um alimento popular em história de corte.

Esposito era dono da Pizzeria Brandi, anteriormente chamada Di Pietro. Para a visita real, preparou três opções: uma pizza marinara, com alho; outra com anchovas; e uma terceira com tomate, muçarela e manjericão. A rainha teria gostado especialmente da última. Esposito então a batizou com o nome dela, e as cores dos ingredientes passaram a ser associadas à bandeira italiana. Bonito, patriótico e conveniente — a culinária também sabe trabalhar com relações públicas.

A visita ajudou a espalhar o nome de Esposito, mas a pizza não virou imediatamente uma obsessão em toda a Itália. O prato ainda estava ligado às ruas de Nápoles e às classes trabalhadoras. A unificação italiana só ocorreu em 1861, e a consagração nacional da pizza seria lenta. O mito do inventor único é sedutor porque cabe numa frase. A realidade, como uma massa bem aberta, ocupa mais espaço.

Como a pizza se tornou um fenômeno mundial?

A pizza ganhou escala internacional principalmente com a migração napolitana. Em 1905, Gennaro Lombardi abriu a G. Lombardi’s, na Spring Street, em Manhattan, considerada por muitos registros a primeira pizzaria licenciada dos Estados Unidos. Logo surgiram estabelecimentos em Nova York, Chicago, Boston, Nova Jersey e outras regiões onde imigrantes de Nápoles se estabeleceram.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a pizza deixou de ser vista nos Estados Unidos como comida exclusivamente étnica. Restaurantes passaram a criar versões próprias, e o prato entrou numa engrenagem industrial que Nápoles jamais teria imaginado. Nos anos 1950, Rose Totino popularizou a pizza congelada. Em 1958, abriu a primeira Pizza Hut, em Wichita, Kansas; em 1959, veio a primeira Little Caesars, em Garden City, Michigan; no ano seguinte, a Domino’s começou em Ypsilanti.

As mutações continuaram. Em 1962, Sam Panopoulos, um grego-canadense, ficou conhecido por criar a pizza havaiana. Em 2001, a Pizza Hut entregou uma pizza de salame de 15 centímetros à Estação Espacial Internacional. Pouco mais de uma década depois, cientistas financiados pela NASA construíram uma impressora 3D capaz de cozinhar uma pizza em um minuto e quinze segundos. O caminho entre o vendedor de rua napolitano e a órbita terrestre parece absurdo. Ainda assim, a massa chegou lá.

Por que a pizza continua tão popular?

A pizza continua popular porque combina baixo custo relativo, preparo adaptável e uma estrutura que aceita quase qualquer tradição culinária. Ela pode ser fina como a versão nova-iorquina, espessa como a de Chicago, congelada, artesanal, entregue em casa ou comida em pé. Sua forma básica permanece reconhecível mesmo quando os ingredientes mudam completamente.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Segundo a PMQ Pizza Magazine, o mercado mundial de pizza movimentou US$ 141,1 bilhões em 2022. Nos Estados Unidos, havia mais de 75 mil estabelecimentos especializados, e mais da metade era independente. O prato que um dia foi desprezado pelas classes altas napolitanas tornou-se uma indústria planetária, com franquias, cozinhas familiares e disputas intermináveis sobre abacaxi.

É impossível apontar uma única pessoa como inventora da pizza. O que existe é uma longa sucessão de pães achatados, coberturas, técnicas e necessidades econômicas, até que Nápoles deu ao conjunto uma forma reconhecível no século XVIII. Esposito acrescentou uma rainha à narrativa; os imigrantes acrescentaram distância; as grandes redes acrescentaram escala. No fim, a pizza não nasceu pronta. Foi sendo aberta, coberta e assada por séculos — e ainda há espaço naquela massa.

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