Entenda por que o México está desmilitarizando suas escolas

O México decidiu proibir escolas militarizadas depois de uma sequência de mortes, denúncias de abusos e dúvidas sobre a legalidade desse modelo. A ordem da Secretaria da Educação Pública atingiu entre 20 e 50 instituições, frequentadas por algo entre 10 mil e 20 mil estudantes. A mudança troca uniformes, patentes e instrutores militares por uma formação civil. No papel, é uma ruptura. No pátio, nem tanto.

No Colégio Moderno Alarid, na Cidade do México, os alunos ainda formam filas, mantêm os braços estendidos e fixam o olhar à frente. Só mudaram as palavras. “Meu comandante” virou “diretor”; “cadetes”, “discentes”; e o instrutor agora é chamado de “prefeito”. A escola tenta conservar disciplina, honra e espírito de serviço sem conservar a aparência militar. É uma operação delicada: retirar a farda sem deixar cair tudo o que ela simbolizava.

Por que o governo mexicano proibiu as escolas militarizadas?

O governo mexicano proibiu as escolas militarizadas porque elas não teriam respaldo legal e porque a educação militar é atribuição exclusiva das Forças Armadas. A decisão foi emitida em julho pela Secretaria da Educação Pública, com apoio da presidente Claudia Sheinbaum. O gatilho mais recente foi a morte de Dafne Zapata, de 13 anos, durante um acampamento de verão militar no Estado de Tamaulipas. Segundo a autópsia, a causa foi asfixia por submersão. A família denuncia tortura, a promotoria investiga o caso como possível feminicídio e três pessoas estão detidas.

Dafne não foi um caso isolado. Em 2023, Zamir Pinto, de 16 anos, morreu no Colégio Militarizado Aztlán, no Estado do México, depois de sofrer diversos golpes violentos no estômago, segundo a necropsia. Uma pessoa foi detida e a escola acabou fechada. Em 2025, Érick Terán Torbellín, de 13 anos, morreu durante um acampamento da Academia Ollin, em Morelos. Colegas disseram que uma instrutora o arrastou pelo chão e o agrediu. A instituição atribuiu a morte a uma onda de calor. Três pessoas estão detidas.

Não existe um registro oficial que reúna abusos e mortes em escolas militarizadas mexicanas. A falta de dados não prova que todos os estabelecimentos fossem violentos, mas revela o problema administrativo: durante décadas, essas instituições ficaram num limbo entre a supervisão civil e a militar. Eram escolas privadas ou públicas com estética, pedagogia e hierarquia de quartel, sem pertencer formalmente às Forças Armadas. Uma zona cinzenta é confortável até o dia em que alguém precisa responder por ela.

O que muda para alunos, famílias e escolas?

As escolas atingidas precisam substituir a estrutura militar por uma organização civil, preservando — quando possível — atividades que não dependam de patentes ou adestramento. No Alarid, o diretor Óscar Lira diz que a instituição está se reinventando e tentando manter o que considera aplicável à educação. Os uniformes perderam a aparência militar, os instrutores foram reclassificados e o vocabulário de comando começou a desaparecer. O ritual, porém, resiste. Filas continuam sendo filas, mesmo quando ninguém mais pode chamar os alunos de cadetes.

O impacto foi imediato nas matrículas. Em muitas escolas, incluindo o Alarid, o número de alunos caiu quase pela metade depois da ordem da secretaria. Algumas instituições precisaram fechar. Em Puebla, mais de 50 pais bloquearam avenidas em defesa da Academia Zaragoza, gritando que a escola não deveria ser encerrada. Eles afirmaram que o local oferecia disciplina e valores e que não havia denúncias de maus-tratos ali. Para essas famílias, a escola foi punida por acontecimentos de outras instituições.

Em Zacatecas, o Bacharelado Geral Militarizado, que é público, substituiu todos os instrutores militares por professores civis. Pais classificaram a mudança como uma imposição. Sem a formação militar, disseram, escolher aquela escola deixa de fazer sentido. Também questionaram a troca das matérias militares por educação financeira, esporte de alto rendimento e inteligência artificial. A reclamação tem algo de paradoxal: a inteligência artificial, que costuma ser vendida como símbolo do futuro, foi apresentada como intrusa por quem preferia uma escola organizada segundo o século passado.

Uma pesquisa da consultoria Dinamic, divulgada em julho, encontrou uma sociedade dividida. Um terço dos mexicanos rejeita o fechamento em massa das escolas militarizadas, mas defende auditorias. Outros 27% apoiam o fechamento definitivo, enquanto grande parte dos restantes se mostra ambivalente. Para muitas famílias, optar por uma escola militarizada pertence ao campo da livre expressão. Para o governo, a liberdade de escolha não elimina a obrigação de oferecer proteção, fiscalização e responsabilidade institucional.

Qual é a diferença entre escola militarizada e escola militar?

Escolas militarizadas são instituições civis que adotam símbolos, uniformes, métodos e hierarquias inspirados nas Forças Armadas; escolas militares pertencem formalmente às estruturas militares e têm supervisão própria. Essa diferença jurídica é central para a decisão mexicana. As primeiras não estavam devidamente amparadas pela legislação educacional, enquanto as segundas integram os ramos reconhecidos das Forças Armadas. O país possui cerca de 40 escolas militares, com especialidades diversas, e elas não são o alvo direto da proibição.

O Heroico Colégio Militar é uma das instituições mais prestigiadas — e mais criticadas — do país. Criado no século 19, ocupa desde 1976 um campus de quase 400 hectares no sul da Cidade do México. Sua arquitetura brutalista evoca centros cerimoniais pré-hispânicos da Mesoamérica. Ali estudam futuros comandantes do Exército mexicano, depois de passarem por testes de admissão complexos. O colégio forma uma elite militar num país em que as Forças Armadas ganharam peso político e econômico durante os governos recentes.

A reputação dessas instituições também foi atingida por denúncias de trotes e abusos. O filme Heroico, lançado em 2023 e disponível na Amazon Prime Video, retrata corrupção, violência e sequelas psicológicas associadas à formação militar. Santiago Sandoval, ex-aluno e protagonista da obra, afirma ter conhecido pessoas que saíram com fraturas, placas no corpo ou incapacidade permanente de caminhar. No caso dele, o efeito mais profundo foi psicológico: depois de conseguir deixar o colégio, ficou deprimido e tentou se suicidar porque não encontrava lugar na vida civil.

O ex-cadete Víctor Hernández Ojeda, hoje especialista em segurança, sustenta que essas práticas persistem porque são apresentadas como formas de construir caráter. As evidências psiquiátricas apontariam o contrário: estresse pós-traumático, hiper-reatividade e maior propensão à violência. A lógica é conhecida. Se a dor prepara alguém para a adversidade, mais dor prepararia melhor. Não, o contrário — quando a violência vira método, ela pode apenas ensinar a reproduzir violência.

Por que o militarismo continua presente na sociedade mexicana?

O militarismo continua presente porque faz parte da cultura nacional mexicana, da educação pública e dos rituais patrióticos, não apenas da rotina de escolas específicas. Às segundas-feiras, por lei, as escolas homenageiam os símbolos da pátria com cerimônias de inspiração militar. Seis alunos escoltam a bandeira ao som de uma banda de guerra. Durante o hino, o estudante põe a mão sobre o coração, com a palma voltada para baixo. O gesto é civil, mas sua rigidez vem do quartel.

O nacionalismo mexicano foi moldado pelas guerras da Independência, entre 1810 e 1811, e da Revolução Mexicana, entre 1910 e 1917. O hino nacional diz que o céu deu um soldado a cada filho do país. No dia 16 de setembro, data da Independência, municípios organizam desfiles cívico-militares que reúnem famílias, bandeiras, tanques e soldados. Não é apenas uma exibição de força. É também um programa de domingo, uma ocasião para tirar fotos. O uniforme, nesse contexto, não é somente uniforme; é memória nacional costurada.

O antropólogo Joel Trujillo afirma que não é possível compreender as escolas militarizadas sem observar o modelo educativo mexicano como um todo. Segundo ele, o Estado moderno do país nasceu de um processo revolucionário seguido por décadas de governos comandados por generais. Essa marca teria alcançado a escola pública e também a particular. Trujillo compara a reverência à bandeira às homenagens religiosas: em sua leitura, entre religião e militares não há tanta distância ritual. A comparação pode incomodar, mas explica por que o governo consegue retirar patentes sem retirar completamente a liturgia.

As Forças Armadas mexicanas reconhecem que os abusos cometidos em entidades privadas prejudicam a imagem do Exército, embora ressaltem que essas escolas não pertencem à instituição. Também defendem que a rigidez do treinamento corresponde às adversidades enfrentadas por quem escolhe a carreira militar. O problema começa quando uma filosofia criada para situações extremas é aplicada a adolescentes como se toda sala de aula fosse uma zona de combate. Talvez disciplina e obediência sejam úteis. A pergunta é quem define o limite — e quem fiscaliza quando ele é ultrapassado.

É possível preservar disciplina sem manter a formação militar?

É possível preservar disciplina, cooperação e serviço cívico sem manter uniformes, hierarquias e métodos militares, mas isso exige separar valores de violência. Óscar Lira, diretor do Alarid e ex-aluno da escola, quer conservar honra, disciplina, sacrifício e heroísmo. Ele diz que o objetivo não deve ser formar jovens dispostos a morrer pelo México, e sim pessoas dispostas a viver pelo México. A frase é bonita. Sua execução, porém, depende de professores civis, regras transparentes e fiscalização que não trate sofrimento como prova de mérito.

A transição não parece simples porque o modelo militarizado oferecia uma identidade pronta. Famílias sabiam o que estavam comprando: rotina rígida, símbolos nacionais, autoridade visível e promessa de caráter. Ao retirar essa moldura, a escola precisa explicar o que permanece. Educação financeira e inteligência artificial podem ser matérias úteis, mas não substituem automaticamente uma cultura institucional. O aluno não troca um batalhão por uma planilha apenas porque o decreto mandou. Precisa encontrar uma comunidade que faça sentido.

O filme de David Zonana enfrentou acusações de ser parte de uma campanha contra as Forças Armadas durante o governo de Andrés Manuel López Obrador, presidente entre 2018 e 2024. A obra teria sido ameaçada de censura, e alguns atores relataram perseguição. O diretor diz que, a cada seis meses, alguém volta a procurá-lo depois de uma nova morte durante um ritual de iniciação. A repetição desses relatos enfraquece a ideia de acidente isolado, embora não autorize transformar toda escola militar em sinônimo de abuso.

O México está desmilitarizando suas escolas, mas não está desmilitarizando a própria imaginação. A bandeira continuará sendo escoltada, o hino continuará pedindo soldados e os desfiles continuarão misturando festa familiar com demonstração de poder. No Alarid, os estudantes talvez deixem de responder “meu comandante”. Ainda formarão filas, olharão para frente e esperarão a próxima ordem. A mudança começa quando a palavra muda; só termina quando o aluno pode perguntar por quê.

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