Câmeras conectadas à internet deixaram de ser apenas ferramentas de segurança: em conflitos recentes, foram invadidas para vigiar tropas, localizar alvos, avaliar danos e fazer propaganda. O problema alcança webcams domésticas, câmeras de trânsito, campainhas digitais, monitores de bebê e sistemas corporativos. Um equipamento instalado para olhar galinhas pode terminar observando uma fronteira. A imagem parece absurda porque é cotidiana. Há cerca de 1,2 bilhão de câmeras conectadas no mundo, segundo a consultoria de cibersegurança S-RM, e muitas foram instaladas para funcionar, não para resistir a uma guerra digital.
Como câmeras comuns passaram a servir à espionagem militar?
Câmeras comuns passaram a servir à espionagem militar porque oferecem posições elevadas, visão contínua e acesso remoto sem expor um agente no terreno. O caso de um criador de aves no norte de Israel mostra a mudança com uma clareza quase doméstica. Durante bombardeios contra o Irã, ele abriu no celular o aplicativo da câmera instalada junto ao galinheiro e descobriu que o idioma havia sido alterado para o árabe.
O equipamento, fabricado na China, havia sido tomado por invasores. As galinhas não interessavam a ninguém. A orientação da câmera permitia observar a movimentação de forças israelenses perto da fronteira com o Líbano. O Diretório Nacional Cibernético de Israel ajudou o proprietário a reforçar a proteção e a mudar o ângulo de visão, interrompendo a captura de operações militares.
É uma pequena torção na ideia de vigilância. A câmera continua sendo civil, mas o enquadramento pode ter valor militar. Um estacionamento revela horários; uma estrada denuncia deslocamentos; um porto entrega a rotina de navios. O objeto não precisa enxergar um segredo para ser útil. Basta mostrar a repetição que antecede o segredo.
Alexander Leslie, especialista em segurança nacional da consultoria Recorded Future, descreveu esse conjunto de dispositivos como uma espécie de “ponto fraco” global formado por olhos digitais espalhados pela paisagem. A expressão é boa porque não depende de tecnologia exótica. O risco mora na banalidade: câmera de condomínio, babá eletrônica, leitor de placas e sistema de trânsito, todos conectados, todos potencialmente observáveis.
Que papel a inteligência artificial desempenha nos ataques?
A inteligência artificial amplia os ataques ao automatizar a descoberta, a triagem e a interpretação de imagens capturadas por câmeras invadidas. Agências de inteligência e grupos hackers podem testar milhões de senhas, localizar dispositivos expostos e filtrar horas de vídeo para encontrar movimentos, veículos ou padrões específicos.
Antes, alguém precisaria assistir às gravações. Agora, algoritmos podem procurar uma determinada silhueta, contar veículos, identificar mudanças numa área e apontar horários incomuns. A máquina não precisa compreender uma guerra inteira; basta separar o ruído do trecho que merece atenção humana. Em escala, essa diferença é enorme.
Kristopher Kortright, líder do grupo internacional Team OneFist, que apoia a Ucrânia no conflito contra a Rússia, resumiu o impacto com uma frase seca: “A IA mudou tudo”. Há entusiasmo demais nessa sentença, talvez, mas o mecanismo é concreto. Uma câmera que produz imagens continuamente já era um sensor. Com análise automatizada, torna-se um sensor que também sugere o que procurar.
O grupo ajudou forças ucranianas a explorar uma câmera em Sebastopol, cidade da Crimeia ocupada pela Rússia desde 2014. Instalada num prédio alto perto da costa, ela permitia girar e ampliar a imagem, cobrindo parte do mar Negro. Os hackers acompanharam um helicóptero russo até uma área próxima a um aeroporto e encontraram uma base aérea que não conheciam. A informação foi repassada às forças ucranianas, que depois atacaram o local e danificaram aeronaves e sistemas de defesa.
Como as imagens invadidas ajudam a encontrar alvos?
Imagens invadidas ajudam a encontrar alvos ao revelar rotas, horários, posições e efeitos de ataques com menos risco do que uma operação de espionagem presencial. A câmera no lugar certo pode funcionar como binóculo virtual — não, como um observador persistente, capaz de assistir ao mesmo ponto durante horas.
No começo da guerra na Ucrânia, integrantes do Team OneFist acessaram câmeras na ponte do estreito de Kerch, que liga a Rússia à Crimeia. As imagens ajudaram a refinar planos de ataque e revelaram até sensores de movimento instalados sob a ponte para impedir ações por água. Em abril de 2023, gravações mostraram trabalhadores ferroviários no local, meses depois de uma explosão atingir a estrutura em outubro de 2022.
A utilidade não está somente em descobrir algo. Também está em confirmar o que aconteceu depois. Uma câmera pode mostrar se um veículo saiu, se uma instalação continua operando ou se um dano foi realmente causado. Esse tipo de informação encurta o intervalo entre observar, decidir e atacar. Em linguagem militar, um ganho de tempo; em linguagem comum, uma câmera transformada em testemunha involuntária.
Na Ucrânia, o serviço de segurança informou que, desde a invasão russa de 2022, identificou, protegeu, redirecionou ou bloqueou aproximadamente 40 mil câmeras consideradas riscos potenciais. Em 2024, hackers russos assumiram o controle de webcams residenciais em Kiev, inclusive de uma câmera instalada por uma associação de moradores. Segundo os ucranianos, as imagens poderiam ser usadas para localizar alvos e ajustar ataques de mísseis.
As câmeras também são usadas para propaganda e guerra psicológica?
As câmeras também são usadas para propaganda e guerra psicológica, porque uma invasão visível humilha o adversário e produz material pronto para circular nas redes. O objetivo não é necessariamente obter uma coordenada. Às vezes, basta demonstrar que alguém entrou na sala.
Grupos ligados ao Irã invadiram câmeras de segurança israelenses, incluindo equipamentos próximos a locais estratégicos e áreas de concentração de soldados. O Diretório Nacional Cibernético de Israel informou que mais de 250 câmeras sensíveis foram comprometidas por grupos ligados ao Irã ao longo do ano. Entre os alvos estavam leitores de placas e sistemas instalados perto de postos militares no norte do país.
Um grupo associado ao Irã, chamado Moses Staff, acessou uma câmera em Jerusalém e acompanhou imagens relacionadas a um atentado numa parada de ônibus ocorrido em 2022, no qual duas pessoas morreram e mais de 20 ficaram feridas. Outro grupo, Handala, publicou mensagens provocando israelenses e sugerindo que qualquer câmera de trânsito poderia ser usada para falar com pessoas próximas.
O teatro digital pode ser mais eficaz do que parece. Em uma videoconferência de funcionários do Ministério da Indústria e Comércio da Rússia, uma voz intrusa entrou na chamada, fez uma pergunta técnica e rapidamente desviou para o obsceno. O responsável pela reunião mandou desligar o sistema. Dias depois, hackers ucranianos divulgaram imagens de uma transmissão de recrutamento militar para estudantes, interrompida por ameaças.
PalachPro, grupo hacktivista pró-Rússia, afirmou no Telegram ter invadido mais de 700 câmeras na Ucrânia e estar acompanhando ações de recrutamento militar. A alegação, por si só, já cumpre parte da função. Em guerras conectadas, a dúvida também é munição: o adversário precisa gastar tempo descobrindo o que foi visto, o que foi fabricado e o que ainda está aberto.
Por que câmeras conectadas continuam tão vulneráveis?
Câmeras conectadas continuam vulneráveis porque muitas são instaladas por equipes sem especialização em segurança, usam senhas padrão e passam longos períodos sem atualização ou monitoramento. A missão do instalador costuma ser simples: fixar o equipamento, ligá-lo e ir embora. O invasor agradece a eficiência.
Xu Zou, vice-presidente sênior de serviços de segurança em nuvem da Palo Alto Networks, afirmou que câmeras e gravadores digitais estão entre os dispositivos conectados mais frágeis encontrados pela empresa. Sistemas de videoconferência e transmissão, comuns em escritórios, também aparecem como alvos recorrentes. Muitas organizações nem sabem quantos equipamentos desse tipo estão ligados à própria rede.
O problema não se limita à câmera. Acessórios conectados podem virar a porta de entrada para outros sistemas. Um grupo de extorsão chamado Akira, segundo a S-RM, usou uma webcam desprotegida para contornar controles de segurança de uma organização. Depois de entrar na rede local, o invasor pode sondar arquivos, contas de e-mail, servidores e outros dispositivos.
É o que técnicos chamam de superfície de ataque: cada aparelho, aplicativo ou credencial acrescenta uma nova oportunidade de entrada. Paul Caron, responsável pela área cibernética da S-RM nas Américas, resumiu o problema dizendo que a internet das coisas transforma tudo em uma extensão dessa superfície, mesmo quando o proprietário não percebe.
O que usuários e organizações podem fazer para reduzir o risco?
Usuários e organizações podem reduzir o risco trocando senhas padrão, atualizando o firmware, removendo acessos remotos desnecessários e isolando câmeras em uma rede separada. Também é preciso verificar quais aplicativos têm permissão para acessar o equipamento e desativar serviços que não são usados.
Uma senha exclusiva e longa não resolve todos os problemas, mas elimina o caminho mais preguiçoso. A autenticação em dois fatores, quando disponível, acrescenta outra barreira. O roteador deve receber atualizações, e a administração da câmera não deveria ficar exposta diretamente à internet. Em condomínios e empresas, o inventário precisa existir: modelo, responsável, localização, versão do software e data da última revisão.
Fabricantes também carregam parte considerável da culpa. Equipamentos baratos, vendidos como se fossem eletrodomésticos, chegam ao mercado com credenciais previsíveis, suporte curto e interfaces difíceis de proteger. Alguns países ocidentais já proibiram determinadas marcas chinesas consideradas fáceis de invadir ou suspeitas de vínculos governamentais, mas trocar a marca não transforma automaticamente um sistema em fortaleza.
Ondrej Svoboda descobriu isso de modo íntimo. Em 2023, enquanto lia para os filhos, ouviu vozes e música saindo do monitor de bebê. Imaginou que a esposa tivesse ativado a função de comunicação, mas percebeu que hackers haviam entrado no sistema. Ele encarou silenciosamente a lente para mostrar que sabia e depois desligou o aparelho. Durante dias, teve pesadelos; mais tarde, lembrou que havia conectado as webcams a outro aplicativo, provavelmente inseguro.
A cena do monitor infantil é menor que uma operação militar, mas pertence à mesma família. De um lado, há um equipamento comprado para cuidar de uma criança. Do outro, uma câmera observando uma fronteira. O elo entre os dois é a confiança automática de que aquilo que transmite uma imagem também está sob controle de quem instalou. Talvez essa confiança tenha sido o componente mais vulnerável de todos.
Há cerca de 1,2 bilhão de câmeras conectadas espalhadas pelo planeta. Algumas vigiam portas. Outras acompanham trânsito, aviões, trabalhadores e quintais. Quando uma delas muda de idioma sozinha, não é apenas uma falha de configuração. É o momento em que a paisagem percebe que também pode ser observada.




