A Top Fuel é uma das categorias mais rápidas do automobilismo e também a que apresenta maior equilíbrio entre homens e mulheres. Em pistas retas de apenas 305 metros, carros movidos a nitrometano passam de zero a 160 km/h em menos de um segundo, ultrapassam 480 km/h e terminam a disputa em cerca de quatro segundos. Parece uma ideia saída de um laboratório com péssimo senso de autopreservação. Ainda assim, mulheres conquistaram sete dos últimos nove campeonatos europeus da categoria, enquanto Susanne Callin busca seu terceiro título consecutivo.
Por que a Top Fuel é tão rápida?
A Top Fuel é tão rápida porque combina motores extremamente potentes, combustível nitrometano e uma pista curta, desenhada para uma arrancada brutal. Normalmente, dois carros largam lado a lado e percorrem 305 metros antes de acionar paraquedas que ajudam a reduzir a velocidade. A marca oficial mais alta já registrada em uma corrida passou de 558 km/h, bem acima dos mais de 372 km/h alcançados em um Grande Prêmio de Fórmula 1. A comparação é útil, mas também meio injusta: na F1, o piloto precisa administrar uma prova longa; na Top Fuel, precisa sobreviver a uma explosão mecânica concentrada em quatro segundos.
O primeiro golpe chega logo na saída. Os carros saltam de zero a 160 km/h em menos de um segundo, submetendo piloto e máquina a uma força G intensa. Mais adiante, quando a embreagem é finalmente engatada, vem outro tranco, descrito por Susanne Callin como um soco no estômago. A freada também não é uma simples questão de pisar no pedal. Os freios sozinhos não bastam, e os paraquedas abertos depois da linha de chegada interrompem a corrida de maneira abrupta. É como se alguém chutasse o peito do piloto, segundo Callin. O ar some antes que dê tempo de reclamar.
As mulheres realmente vencem mais na Top Fuel?
Sim, as mulheres venceram a maioria dos campeonatos europeus recentes da Top Fuel e ocupam uma proporção acima da média entre os pilotos da categoria. Elas representam cerca de 20% dos competidores nas temporadas americana e europeia de Top Fuel, embora sejam aproximadamente 10% dos participantes do automobilismo em geral e apenas 4% dos pilotos de elite, segundo a organização More Than Equal. O dado não transforma a modalidade em paraíso, mas mostra uma anomalia importante num esporte em que a presença feminina costuma ser exceção estatística.
Callin venceu o Campeonato Europeu de Top Fuel em 2025 e 2026, garantindo dois títulos consecutivos. A sequência feminina chegou a quatro campeonatos seguidos, de acordo com os resultados citados na reportagem. Nos Estados Unidos, Brittany Force ganhou o campeonato da National Hot Rod Association, a NHRA, em 2017 e 2022, além de ter mantido por algum tempo o recorde mundial de velocidade da modalidade. Na Fórmula 1, a última mulher a disputar um Grande Prêmio foi a italiana Lella Lombardi, em 1976. Ela continua sendo a única mulher a pontuar na categoria. A diferença entre os dois ambientes não precisa de legenda.
O que explica a vantagem feminina?
A vantagem feminina na Top Fuel não é atribuída a uma característica física ou biológica específica. Pesquisas da More Than Equal, segundo Fran Longstaff, chefe de inovação da organização, ainda não encontraram um fator corporal que explique o desempenho. A explicação mais plausível está na estrutura da modalidade: há uma sequência contínua de mulheres visíveis, programas para jovens, boxes abertos e uma cultura mais colaborativa, próxima e familiar. Quando uma menina vê Shirley Muldowney, Brittany Force ou Callin largando, a possibilidade deixa de ser uma abstração. Não é pouca coisa. Às vezes, o caminho aparece porque alguém já deixou marcas de pneu nele.
As corridas de arrancada também têm uma porta de entrada menos distante do que a Fórmula 1. Chegar à categoria máxima dos monopostos exige milhões de dólares e níveis altos de patrocínio desde a base. Na arrancada, eventos conhecidos como dias de pista permitem que participantes conduzam carros comuns em competições acessíveis. A elite continua cara, naturalmente, mas o primeiro degrau não está reservado apenas a famílias com patrocinadores e sobrenomes gravados em troféus. Essa diferença de acesso pode alterar quem permanece no esporte tempo suficiente para alcançar o alto nível.
Como a cultura dos boxes favorece as pilotos?
A cultura dos boxes favorece as pilotos porque a competição não elimina a cooperação entre as equipes. Susanne Callin e Jndia Erbacher são rivais na largada, mas Erbacher já ofereceu peças de reposição depois que o carro de Callin foi danificado. A frase de Erbacher resume o arranjo com uma precisão quase diplomática: elas se odeiam na linha de partida, mas se amam na linha de chegada. Pode parecer contraditório. Não é. Em uma categoria capaz de transformar um componente quebrado em risco sério, ajudar a concorrente também preserva a própria comunidade.
Callin afirma nunca ter se sentido subestimada ou maltratada por ser mulher. A declaração contrasta com relatos de jovens pilotos que tentam chegar à Fórmula 1 e dizem ter sido empurradas para fora da pista no kart ou alvo de comentários sexistas, inclusive na internet. Isso não significa que a Top Fuel esteja livre de preconceito, nem que uma experiência individual resolva a conta inteira. Significa que regras informais importam. Se o ambiente recebe a novata como piloto antes de transformá-la em símbolo, o volante pesa menos do que o motor.
Quais mulheres construíram essa história?
Shirley Muldowney foi uma das pioneiras decisivas da Top Fuel nos Estados Unidos. Conhecida como a Primeira Dama das corridas de arrancada, ela foi a primeira mulher a obter licença para competir na categoria e venceu o campeonato da NHRA em 1977. Depois, ganhou novamente em 1980 e 1982, tornando-se a primeira piloto, entre homens e mulheres, a conquistar três títulos. Para chegar ali, enfrentou resistência de adversários e torcedores. A hostilidade que encontrou não desaparece porque hoje sua trajetória é celebrada; apenas mostra o preço cobrado de quem chega antes.
A tradição continua em famílias que tratam a pista quase como extensão da sala de casa. Callin cresceu acompanhando o pai e o tio, ambos pilotos profissionais. O pai de Erbacher, Urs, foi tricampeão europeu de Top Fuel. Brittany Force é filha de John Force, vencedor de 16 campeonatos de arrancada da NHRA. A herança familiar ajuda, mas não dirige o carro sozinha. É necessário reagir em frações de segundo, corrigir a trajetória continuamente e suportar forças que não respeitam árvore genealógica.
É possível competir depois de ter filhos?
Sim, pilotos da Top Fuel demonstram que a carreira pode continuar — ou florescer — depois da maternidade. Callin ficou mais de uma década afastada das pistas para criar a filha e as enteadas. Voltou aos 35 anos, idade em que muitas carreiras esportivas já são tratadas como assunto encerrado, e foi depois desse retorno que alcançou sua fase mais vitoriosa. Anita Mäkelä, da Finlândia, venceu quatro campeonatos europeus, três deles depois de uma pausa de seis anos dedicada aos filhos e à administração da granja da família. O cronômetro não é o único calendário possível.
A família de Callin também participa diretamente da operação. Seu pai continua na equipe, e o marido, Keith Bartlett, administra o autódromo Santa Pod, no Reino Unido. Duas das filhas competiram em categorias juniores, a mais de 120 km/h, até alcançarem a idade exigida para os testes. Jacqueline, a mais jovem, tem 19 anos e já disputa classes adultas. A cena não é exatamente uma reunião de domingo com sobremesa: há pneus, cheiro de borracha e um motor que pode sacudir o peito. Ainda assim, para aquela família, o automobilismo é uma atividade compartilhada.
Quais são os riscos da categoria?
Os riscos da Top Fuel são enormes, mas a segurança atual é muito mais rigorosa do que no passado. Pilotos usam macacões à prova de fogo, ocupam cockpits protegidos e contam com procedimentos específicos para reduzir as consequências de falhas e acidentes. Mortes ocorridas em carros movidos a nitrometano em 2004 e 2008 levaram à redução do comprimento das provas. A pista mais curta diminuiu a distância percorrida em alta velocidade, embora não tenha convertido a modalidade em passeio de parque. O carro continua sendo uma máquina de aceleração concentrada dentro de uma faixa estreita de asfalto.
Callin sofreu dois acidentes graves, com concussão e fratura da clavícula, mas não teve lesões permanentes. Ela considera os acidentes sérios uma parcela muito pequena do total, embora reconheça que o risco nunca sai completamente de cena. A piloto não sabe se se sentiria confortável caso a própria filha quisesse competir na Top Fuel. Essa hesitação é mais honesta do que qualquer propaganda de invulnerabilidade. Respeitar o carro não significa temê-lo o tempo inteiro; significa não esquecer que quatro segundos podem carregar uma vida inteira de consequências.
Onde outras pilotos estão quebrando barreiras?
Mulheres já conquistaram espaço em corridas de arrancada nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália, mas a modalidade ainda se desenvolve de forma desigual em outras regiões. No Brasil, Fabíola Dal Bo ganhou destaque ao quebrar o recorde da categoria DT-A Light. Na Índia, Uvashri Kannadasan Balajeyanthi venceu adversários homens em três categorias da Valley Run entre 2022 e 2024. Ela começou pilotando um Skoda Octavia modificado e ficou conhecida como Menina do Octy. Na África do Sul, uma equipe promove competições exclusivamente femininas, enquanto um reality show do Oriente Médio ampliou a visibilidade das pilotos da região.
Balajeyanthi diz ter sentimentos contraditórios quando suas vitórias são recebidas com surpresa. Ela questiona por que as pessoas ficam chocadas: qualquer pessoa pode dirigir, certo? Ao mesmo tempo, admite orgulho por romper barreiras em um esporte dominado por homens. A contradição é compreensível. O ideal é que uma vitória feminina seja tratada como resultado, não como milagre; enquanto isso não acontece, cada troféu carrega uma pequena nota de rodapé política. Talvez seja esse o ruído mais persistente da arrancada, menor que o motor, mas muito mais difícil de desligar.
O que Susanne Callin quer conquistar agora?
Callin quer ser a primeira pessoa, homem ou mulher, a conquistar o Campeonato Europeu de Top Fuel por três anos consecutivos. O objetivo é esportivo, não simbólico, embora os dois aspectos estejam grudados neste caso. Ela já venceu dois campeonatos seguidos e descreve o bicampeonato como uma conquista imensa. Na pista, porém, o título anterior não reduz a força G nem melhora o tempo de reação. Cada largada começa do zero, com chamas escapando do carro, o paraquedas dobrado atrás e uma reta curta demais para qualquer distração. A antiga comparação de Callin continua válida: é como ser lançado de um canhão. Só que, agora, ela pretende mirar o terceiro troféu.





