Conheça o teclado esteira da Google Japão — e monte o seu em casa

A Google Japão apresentou um teclado que parece ter escapado de uma oficina de invenções pouco interessada em ergonomia convencional. O Gboard Conveyor Belt Version tem quatro esteiras verticais, cada uma com 29 teclas, que se movem continuamente de cima para baixo. A proposta é atender quem precisa digitar com uma mão: em vez de deslocar os dedos até as teclas, o mecanismo desloca as teclas até os dedos. Parece prático no papel. Na mesa, parece uma esteira rolante para letras.

O projeto foi pensado como um teclado vertical, com fileiras móveis e funcionamento permanente. A equipe imaginou variações de cores, velocidades diferentes para as esteiras e até uma versão reduzida para celulares. A promessa de operação “intuitiva” talvez dependa de uma definição bastante generosa de intuição. Quem já se atrapalhou com uma tecla convencional pode não estar pronto para perseguir vogais em movimento.

Há, contudo, uma informação importante: o dispositivo não é um produto comercial. A Google construiu o teclado, demonstrou seu funcionamento e decidiu não colocá-lo à venda. Ele faz parte de uma tradição peculiar da filial japonesa, que costuma apresentar periféricos estranhos como exercício de criatividade — ou como uma maneira muito elaborada de lembrar que um teclado ainda pode ser mais esquisito.

Por que a Google Japão cria teclados tão incomuns?

A Google Japão cria esses teclados como parte de uma tradição anual de protótipos bem-humorados, iniciada em 2012 com um modelo inspirado em um telégrafo. A data, que originalmente era o 1º de abril, passou em 2021 para 1º de outubro. A escolha faz referência ao modo japonês de escrever datas: 10/1. Também remete ao layout de 101 teclas do IBM Model M, um dos teclados mais conhecidos da história da computação pessoal.

O teclado esteira é, portanto, menos uma tentativa de substituir modelos mecânicos e mais uma peça de engenharia experimental. Há uma diferença importante aí. Ele funciona, mas funcionar não basta para virar produto; é preciso ser fabricável, compreensível e tolerável durante uma sessão de trabalho. Não sei se alguém gostaria de redigir um relatório inteiro acompanhando teclas em trânsito — não, o contrário — talvez o relatório terminasse antes da primeira linha.

É possível construir o teclado esteira em casa?

Sim. A Google Japão publicou no GitHub os arquivos necessários para que interessados montem uma versão própria do teclado esteira. O material inclui esquemas feitos no KiCad, layouts da placa de circuito impresso, arquivos STL para impressão 3D e o código-fonte do firmware usado na comunicação com o computador.

Isso transforma a brincadeira em um projeto de hardware aberto, embora não exatamente em um passatempo de fim de semana. É preciso lidar com peças móveis, impressão 3D, eletrônica e programação; uma combinação capaz de converter “vou montar um teclado” em uma caixa cheia de componentes sobre a bancada. A pasta principal do repositório, chamada mozc-devices, também reúne os arquivos de modelos anteriores criados pela equipe japonesa.

O resultado é curioso porque junta uma necessidade real — digitar usando apenas uma mão — a uma solução que parece saída de uma história de ficção científica cômica. Em vez de adaptar o usuário ao teclado, o teclado tenta acompanhar o usuário, tecla por tecla, esteira por esteira. Não será vendido pela Google, mas pode acabar aparecendo na mesa de alguém que tenha uma impressora 3D, paciência e uma relação pouco saudável com periféricos. A pergunta é: você confiaria seus textos a teclas que nunca ficam paradas?

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