Aos 47 anos, a neozelandesa Shannon-Leigh Litt completou uma ultramaratona por dia durante 1.000 dias consecutivos. Cada percurso tinha pelo menos 51 km. O feito garantiu a ela o recorde do Guinness World Records de maior número de dias seguidos em uma ultramaratona percorridos por uma mulher. A meta inicial era bem menor: correr durante 250 dias e superar os 200 dias da americana Candice Burt. Shannon passou longe de parar ali. Ao todo, percorreu uma distância cerca de 30% maior que a circunferência equatorial da Terra, estimada em 40.075 km.
“Já usei provavelmente uns 100 pares de tênis”, estimou a atleta em entrevista ao Guinness, publicada em 29 de setembro. A conta parece exagerada até lembrarmos que ela correu diariamente por quase três anos, atravessando diferentes países, fusos horários e condições climáticas. A primeira corrida da tentativa foi registrada em 1º de janeiro de 2024. No início de abril, Shannon já havia superado o recorde masculino de 100 dias, que pertencia ao britânico David Jackson. A partir daí, o desafio deixou de ser apenas uma busca por marca e ganhou a escala meio absurda de uma rotina.
Seis semanas antes de começar o recorde, Shannon havia se classificado inesperadamente para o Campeonato Mundial de 100 km, com o tempo de 8 horas, 29 minutos e 5 segundos — um dos melhores resultados de uma mulher da Nova Zelândia. Ela treinara durante 14 anos para alcançar esse objetivo e, quando finalmente conseguiu, decidiu abrir mão da inscrição. Preferiu concentrar-se na tentativa das mil ultramaratonas. É uma escolha difícil de explicar em uma conversa de elevador. Mas recordes desse tipo raramente cabem em conversas de elevador.
Como Shannon conseguiu correr todos os dias?
Shannon conseguiu manter a sequência com uma rotina rígida, iniciando as corridas entre 1h e 4h da manhã e levando, no começo, de cinco horas e meia a seis horas e meia para completar cada percurso. Nas últimas provas, o tempo subiu para oito horas e meia. Conciliar isso com o trabalho foi um dos grandes problemas: “o trabalho sempre acaba surgindo”, contou. Durante os dois primeiros anos, ela acordava muito cedo para correr antes das obrigações. Não havia espaço para a fantasia de uma agenda perfeitamente controlada; havia relógio, cansaço e a próxima distância.
O sono virou um obstáculo tão concreto quanto a quilometragem. Nos fins de semana, Shannon geralmente dormia dez horas, tentando compensar noites em que descansava apenas três ou quatro horas durante a semana. A estratégia era acumular sono, como quem guarda água para uma travessia — só que o corpo não é exatamente um reservatório obediente. O abastecimento também exigia disciplina: a corredora consumia cerca de 5.500 calorias por dia para sustentar o esforço. Uma porção de massa tem aproximadamente 270 calorias. A matemática da aventura é pouco elegante, mas bastante objetiva.
Onde foi realizada a sequência de ultramaratonas?
A tentativa começou na Nova Zelândia e passou por países como Bali, Malásia, Singapura, Dubai e Austrália. As regras do Guinness exigiam que Shannon respeitasse o fuso horário local para concluir cada corrida. Em Bali, por exemplo, ela precisava terminar o percurso até as 20h. Viajar não interrompia a contagem; apenas trocava o relógio. Essa exigência transformou a sequência em uma operação internacional, na qual cada chegada precisava acontecer antes que o dia acabasse no lugar em que ela estivesse.
O clima tampouco colaborou. Na Áustria, Shannon chegou perto de desenvolver hipotermia. Em outros trechos, correu sob temperaturas próximas de 40 °C. O dia 999 quase trouxe um problema mais prosaico: ela saiu de casa às 5h40 para correr com uma amiga, percebeu que havia esquecido um dos relógios e voltou. Então descobriu que também estava sem as chaves. Foi necessário esperar um chaveiro, atrasando o início do percurso. Ainda assim, completou a distância prevista naquele dia. Na manhã seguinte, correu a última prova mais rapidamente do que havia planejado.
O que Shannon pretende fazer depois do recorde?
O desafio cobrou um preço também nas relações pessoais. Alguns familiares e amigos acreditavam que ela deveria parar ao alcançar 200 dias, e Shannon disse que nem sempre recebeu apoio. Para a atleta, isso não significava necessariamente negatividade: muitas vezes, a preocupação vinha de um lugar de amor e do desejo de que ela estivesse bem. A conclusão é menos cinematográfica e mais útil: nem todos compreenderão aquilo que parece importante para você. O corpo, enquanto isso, continuará apresentando a fatura.
Entre as melhores partes da jornada, Shannon destacou a convivência com outros corredores e o sentimento de pertencer a uma comunidade. Depois do recorde, contou ao 1 News que estava animada para uma “mudança completa no próximo ano”. Por algumas semanas, porém, pretende continuar correndo diariamente. Também não descarta tentar, no futuro, o recorde equivalente para maratonas. Mil dias terminaram; a estrada, aparentemente, ainda não recebeu o memorando.


