O campo magnético da Terra enfraqueceu cerca de 9% nos últimos 200 anos, e isso pode indicar que uma nova inversão dos polos está em algum ponto do futuro. Não há, porém, evidência de que esse processo explique o aquecimento global atual, nem uma previsão confiável de quando aconteceria. A questão relevante é outra: se o campo enfraquecer bastante, mais partículas energéticas poderão alcançar a atmosfera e talvez alterar processos ligados à formação de nuvens.
O que o campo magnético protege contra?
O campo magnético terrestre reduz a quantidade de partículas carregadas que chegam à atmosfera e à superfície, especialmente as de menor energia. Essas partículas vêm do Sol, em ejeções de massa coronal, ou de regiões distantes da galáxia, aceleradas por explosões de supernovas. Viajando quase à velocidade da luz, elas produzem cascatas de radiação ao colidir com a atmosfera. Parte dessa radiação alcança o solo. Em termos físicos, ocorre ionização: elétrons são arrancados dos átomos, o que pode danificar o DNA e interferir em processos atmosféricos.
A proteção não é igual em todo o planeta. O campo desvia mais partículas nas regiões equatoriais, enquanto suas linhas mergulham em direção à superfície perto dos polos. Por isso, voos de longa distância que passam sobre o Ártico, como a rota entre Dubai e San Francisco, combinam altitude elevada e menor blindagem magnética. Passageiros e tripulantes ficam expostos a níveis maiores de radiação ionizante. Nada disso transforma um voo comercial em uma missão espacial, claro; a diferença está na dose acumulada e nas condições da rota, não em algum clarão apocalíptico pela janela.
Uma inversão dos polos mudaria o clima?
Uma inversão dos polos poderia aumentar a ionização da atmosfera, mas a influência climática desse aumento ainda é uma hipótese, não uma conclusão estabelecida. A possível ligação passa pela condensação da água e pela formação de nuvens, processos capazes de alterar a quantidade de energia solar refletida ou retida na atmosfera. O mecanismo exato, contudo, permanece incerto. Há correlações sugeridas entre o fluxo de raios cósmicos e o clima, mas correlação, essa velha armadilha, não resolve sozinha a questão da causa.
Para investigar o problema, Jacob Svensmark, do departamento de física da Universidade de Oxford, modelou a ionização atmosférica associada à última grande inversão conhecida, a transição Brunhes–Matuyama, ocorrida há aproximadamente 780 mil anos. Ao enfraquecer virtualmente o campo magnético, o modelo encontrou efeitos muito diferentes conforme a altitude e a latitude. Na superfície do equador, a ionização aumentaria cerca de 25%; na alta atmosfera, o crescimento seria superior a seis vezes. Nas regiões polares, onde os raios cósmicos já penetram com facilidade, a mudança seria quase nula.
O que os modelos indicam sobre o próximo evento?
O modelo de Svensmark calculou um aumento global de aproximadamente 13% na ionização ao nível do mar e quase o dobro na parte superior da atmosfera durante uma reversão. Esses números descrevem uma simulação, não uma previsão do clima que virá. Também não indicam que a inversão esteja prestes a começar: o enfraquecimento observado pode ser compatível com mudanças no campo, mas não funciona como relógio. Talvez o efeito climático exista; talvez seja pequeno diante de outros fatores atmosféricos. O estudo ajuda a formular a pergunta e a medir o caminho, não a encerrá-la. Por enquanto, a bússola aponta para uma possibilidade física interessante, não para uma explicação conveniente do aquecimento atual.


