Relembre cinco debates que mudaram a política brasileira — da pergunta sobre Deus à cadeirada

Debates eleitorais já foram aulas públicas de política, mas também viraram matéria-prima para manchetes, cortes e memes. Em cinco episódios — de 1985 a 2024 — eles mostraram como o eleitor brasileiro passou a julgar religião, memória, televisão, provocação e até agressão física. A forma mudou. A pergunta central continua: o que, exatamente, chega ao eleitor depois que o programa termina?

Por que os debates perderam espaço nas eleições de 2026?

Os debates perderam parte da relevância porque passaram a disputar atenção com as redes sociais, onde uma fala de poucos segundos pode circular mais do que uma hora de confronto. A avaliação é do analista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Para ele, a televisão das décadas de 1980 e 1990 oferecia mais espaço para discursos longos e confronto de ideias; agora, candidatos também precisam falar com os algoritmos.

Essa mudança aparece no calendário de 2026. Até o momento citado, havia ocorrido apenas um debate, promovido pela Bandeirantes no início de setembro, sem a participação dos dois principais candidatos: o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Lula também confirmou que não participaria do debate da Globo marcado para 1º de outubro, quatro dias antes do primeiro turno.

Prando resume a transformação com uma frase pouco lisonjeira para a televisão eleitoral: os debates teriam se convertido em um conjunto de cortes, “lacração” e memes. A observação não significa que o confronto tenha desaparecido. Ele ainda pode revelar temperamento, preparo e contradições. O problema é que sua circulação deixou de depender apenas do programa inteiro. Um trecho isolado, editado ou compartilhado fora do contexto pode assumir o comando da narrativa.

Os cinco casos abaixo ajudam a enxergar esse caminho. Em 1985, uma pergunta sobre Deus colocou a religiosidade no centro da confiança política. Em 1989, duas cenas diferentes disputaram a memória da redemocratização e o poder da televisão. Em 2022, a candidatura sem viabilidade virou linha auxiliar e fábrica de memes. Em 2024, a agressão física pareceu levar a lógica do espetáculo até o seu limite — não, talvez tenha apenas revelado o limite que já estava no palco.

O que a pergunta sobre Deus revelou em 1985?

O debate de 1985 revelou que a religiosidade podia funcionar como critério de confiança política, mesmo quando a pergunta tratava de uma convicção íntima. Naquele ano, as capitais brasileiras voltaram a eleger diretamente seus prefeitos depois de duas décadas de restrições impostas pela ditadura militar. Em São Paulo, Fernando Henrique Cardoso liderava as pesquisas e chegou a ser fotografado sentado na cadeira de prefeito antes da votação.

O resultado foi outro: Jânio Quadros venceu por 39,33% a 35,80% dos votos. No debate realizado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, o jornalista Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus. O candidato não respondeu de maneira direta. Preferiu dizer que a pergunta levava uma questão íntima para o espaço público e poderia funcionar como armadilha para investigar sua convicção pessoal.

Na resposta, FHC afirmou respeitar o povo religioso e as diferentes religiões. Era uma saída cuidadosa, mas a pergunta não evaporou quando o programa acabou. Ela ganhou espaço nos últimos dias da campanha, assim como a imagem do candidato antecipando a posse. A Fundação Fernando Henrique Cardoso registra que a fotografia provocou reação negativa; Jânio, ao tomar posse, chegou a desinfetar a cadeira.

O episódio ficou maior que a troca de frases. Para Rodrigo Prando, ele mostra um traço duradouro da cultura política brasileira: a religiosidade como componente da confiança no candidato. FHC parece ter aprendido a lição. Durante a campanha presidencial de 1994, passou a demonstrar publicamente sua ligação com a religião. A cadeira, naquele momento, ensinava duas coisas diferentes: não bastava parecer vencedor; era preciso parecer familiar ao eleitor.

Por que Brizola chamou Maluf de “filhote da ditadura”?

O debate de 1989 transformou a memória da ditadura em arma eleitoral porque os candidatos ainda disputavam a interpretação do passado recente. Quatro anos depois do fim do regime militar, o Brasil realizou sua primeira eleição direta para presidente desde 1960. Havia 22 candidatos, regras mais flexíveis e possibilidade de apartes, segundo Prando. O primeiro debate presidencial televisivo foi realizado pela Bandeirantes em 17 de julho, com mediação de Marília Gabriela.

Meses depois, Leonel Brizola e Paulo Maluf protagonizaram uma cena que sobreviveu à campanha. No debate de 16 de outubro, Maluf chamou Brizola de “desequilibrado” e recusou um aparte pedido pelo adversário. Brizola respondeu chamando Maluf de “filhote da ditadura”. Quando parte da plateia aplaudiu Maluf, o candidato reagiu chamando os presentes de “malufistas” e dizendo que haviam “engordado na ditadura”. A mediadora interrompeu o programa para um intervalo.

Nenhum dos dois chegou ao segundo turno. Brizola terminou em terceiro, com 16,51% dos votos, apenas 0,68 ponto percentual atrás de Lula, que obteve 17,19%. O episódio, portanto, não pode ser tratado como uma demonstração simples de causa e efeito. Não há indicação de que aquela troca tenha decidido a eleição. Seu peso foi simbólico e vocabular: uma expressão passou a nomear quem teria se beneficiado do regime militar e se acomodado durante a redemocratização.

O debate expôs uma transição ainda incompleta. O futuro estava em disputa, claro, mas o passado ocupava o centro da sala. A política precisava dizer para onde o país iria e, antes disso, quem teria o direito de narrar de onde ele vinha. O insulto funcionou porque cabia numa frase e carregava um período histórico inteiro. Um rótulo curto. Uma memória comprida.

Como o debate entre Lula e Collor expôs o poder da televisão?

O confronto entre Lula e Fernando Collor, em dezembro de 1989, mostrou que a edição televisiva podia alterar a percepção pública de um debate. Os dois candidatos chegaram ao segundo turno da primeira eleição presidencial direta desde 1960 e se enfrentaram em 14 de dezembro, três dias antes da votação. O encontro foi transmitido por um grupo que reunia Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT.

No dia seguinte, a Globo exibiu resumos no Jornal Hoje e no Jornal Nacional. A segunda edição gerou controvérsia porque, segundo a avaliação citada de Prando, selecionou os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. O PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pedindo a exibição de novos trechos como direito de resposta. O pedido foi negado, mas o caso não terminou ali.

A própria Globo afirmou, em sua seção dedicada a erros históricos, que a edição provocou “um inequívoco dano à imagem da Globo”. Depois disso, a emissora passou a adotar como norma a transmissão de debates políticos na íntegra e ao vivo, sem edição. A justificativa publicada pela Memória Globo era direta: um debate não deveria ser tratado como partida de futebol, pois não existem elementos objetivos para apontar um vencedor.

A comparação permanece atual, embora o meio tenha mudado. Em 1989, a televisão escolhia o que o eleitor veria no dia seguinte. Hoje, redes sociais, perfis de campanha e usuários anônimos disputam essa seleção em velocidade maior. Collor venceu com 53,03% dos votos válidos, contra 46,97% de Lula. O resultado pertence à eleição. A pergunta sobre quem controla a narrativa pertence a todas as seguintes.

O que Padre Kelmon mudou nos debates de 2022?

Padre Kelmon mostrou, em 2022, que um candidato sem chance real de vitória ainda podia ter função estratégica no debate: provocar, atacar e produzir material para as redes sociais. Praticamente sem expressão nas pesquisas, Kelmon passou boa parte do confronto provocando Lula. Mas foi o embate com a senadora Soraya Thronicke que gerou um dos momentos mais compartilhados da campanha.

Thronicke perguntou se Kelmon havia realizado alguma extrema-unção durante a pandemia de covid-19. Ao retomar o assunto, chamou-o de “padre de festa junina”. A frase rapidamente virou meme. O episódio não determinou o resultado da eleição, segundo a análise apresentada, mas revelou uma alteração importante no papel de candidaturas sem viabilidade eleitoral. Elas podem servir como linha auxiliar de ataque, ocupando um espaço que partidos e candidatos mais competitivos talvez prefiram não assumir diretamente.

O resultado das urnas ajuda a dimensionar o contraste. Lula e Jair Bolsonaro avançaram ao segundo turno, enquanto Kelmon terminou a disputa com 0,07% dos votos válidos. A porcentagem foi pequena; o alcance do recorte foi bem maior. Esse descompasso é uma das marcas da política distribuída pelas redes: o desempenho eleitoral mede votos, enquanto a circulação digital mede repetição, reconhecimento e capacidade de reaparecer no feed.

Prando chamou esse fenômeno de “fábrica de memes”, em que o momento viral pode pesar mais do que a proposta. A frase engraçada, a provocação bem encaixada ou o gesto estranho tornam-se unidades políticas fáceis de recortar. O programa inteiro exigia atenção. O meme exige apenas alguns segundos — e talvez um dedo disposto a compartilhar.

Por que a cadeirada de Datena marcou a eleição de 2024?

A cadeirada de Datena marcou 2024 porque transformou a violência verbal dos debates em agressão física diante das câmeras. A cena ocorreu na disputa pela Prefeitura de São Paulo, que reunia entre os principais candidatos Ricardo Nunes, Guilherme Boulos e Pablo Marçal. Nas semanas anteriores, pesquisas chegaram a registrar empate triplo. Marçal se destacava por provocações, confrontos e forte presença nas redes sociais.

Durante um debate na TV Cultura, Marçal retomou uma denúncia de assédio sexual contra José Luiz Datena e chamou o apresentador de “arregão”. Datena pegou uma cadeira e atingiu o adversário. Foi expulso do programa; Marçal deixou o local para receber atendimento médico. A imagem não precisava de explicação adicional. A política como espetáculo tinha encontrado um objeto pesado, um palco e uma transmissão ao vivo.

Marçal terminou o primeiro turno em terceiro lugar, com 28,14% dos votos, apenas 0,93 ponto percentual atrás de Boulos. Esses números ajudam a situar a disputa, mas não explicam sozinhos a importância da cena. Para Prando, o episódio foi o ápice da política como espetáculo: um discurso duro, polarizado e violento saiu da linguagem e entrou no corpo.

A cadeirada também condensou a lógica que já aparecia em 2022. O objetivo não era apenas vencer o debate presente, mas criar uma cena capaz de sobreviver ao programa, ser recortada, compartilhada e reinterpretada. O debate deixou de ser somente uma arena de argumentos. Virou uma usina de imagens — e uma cadeira, em certas noites, vale mais que um plano de governo.

O que esses cinco episódios dizem sobre os debates atuais?

Os cinco episódios mostram que os debates continuam relevantes, mas sua função mudou: eles já não controlam sozinhos o sentido da disputa. A pergunta sobre Deus colocou a religiosidade no centro da confiança. Brizola e Maluf fizeram do passado um insulto de campanha. Lula e Collor expuseram o poder de uma emissora para selecionar a realidade. Padre Kelmon transformou a provocação em conteúdo viral. Datena levou a lógica do espetáculo à agressão.

Há um fio entre cenas tão diferentes. Todas ultrapassaram o programa e passaram a representar alguma coisa maior: a intimidade convertida em critério público, a memória usada como arma, a edição como poder, a candidatura auxiliar como ferramenta e o conflito como entretenimento. Não é que as propostas tenham deixado de existir. É que elas competem com acontecimentos mais fáceis de repetir.

O desafio atual, segundo Prando, é preservar a capacidade do confronto eleitoral de revelar ideias e projetos num ambiente em que cada frase pode virar um vídeo curto. Um debate feito para cortes talvez consiga grande audiência fragmentada, mas oferece menos condições para entender a visão de mundo de um político. A fala que rende compartilhamento nem sempre esclarece o programa que governará o país ou a cidade.

Em 1985, uma fotografia de FHC sentado numa cadeira pareceu antecipar a vitória e terminou produzindo desconforto. Em 2024, outra cadeira produziu o tipo de imagem que ninguém confundiria com posse. Entre uma e outra, a política aprendeu a caber em recortes cada vez menores. Resta ao eleitor decidir se ainda quer assistir ao debate inteiro antes de escolher o que vai circular.

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