Satélite espião da Guerra Fria se desfaz em órbita; entenda o risco para outros veículos

Um satélite espião americano lançado em 1988 se partiu sem aviso em 13 de setembro, a cerca de 775 quilômetros da superfície da Terra. A causa ainda é desconhecida, assim como o número de fragmentos produzidos. O episódio não atingiu, até agora, nenhuma estação espacial ou missão anunciada, mas espalhou uma dúvida pouco confortável: quanto lixo orbital cabe numa faixa já bastante congestionada antes que uma colisão deixe de ser exceção?

O que aconteceu com o satélite USA 32?

O USA 32, também chamado Farrah III, sofreu um evento repentino de fragmentação em 13 de setembro, segundo o Space-Track, braço de observação de satélites da Força Espacial dos Estados Unidos. A agência comunicou o caso quatro dias depois, sem informar a causa ou a quantidade de peças geradas. “Fragmentação” é o termo burocrático para algo menos burocrático: o veículo se desfez em órbita. Pode ter produzido dezenas, centenas ou até milhares de objetos, e essa diferença muda bastante o cálculo do perigo.

Lançado pelo foguete Titan II, o satélite entrou em serviço durante a Guerra Fria para interceptar sinais de radar e rádio soviéticos, conforme informações atribuídas à Futura. Sua missão só foi totalmente desclassificada neste ano. O formato cilíndrico rendeu uma comparação curiosa, quase de boteco: uma lata de atum gigante. O apelido Farrah III fazia referência à atriz Farrah Fawcett, seguindo uma antiga prática do National Reconnaissance Office, o NRO, de batizar satélites com nomes de figuras populares das décadas de 1970 e 1980.

Por que o USA 32 pode ter explodido?

A causa da ruptura continua sem confirmação, mas uma falha interna provocada pelo envelhecimento é uma das hipóteses mais plausíveis. O USA 32 provavelmente deixou de funcionar há décadas e não foi desenhado para passar quase quarenta anos exposto ao ambiente agressivo da órbita baixa. Aquecimento e resfriamento repetidos, radiação e desgaste podem comprometer componentes que pareciam inofensivos no lançamento. Baterias antigas e combustível remanescente também podem manter pressão suficiente para romper um tanque ou uma célula. Foi o que ocorreu, em circunstâncias diferentes, com o satélite NOAA-17, que se desintegrou em 2021.

Colisão com outro satélite ou com um fragmento menor também entra na lista, embora pareça menos provável. Nenhum outro veículo foi apontado como atingido, e colisões entre objetos rastreados costumam ser previstas com dias ou semanas de antecedência. Uma rocha espacial pequena e veloz, difícil de detectar, não está descartada. E há a hipótese mais cinematográfica: uma arma antissatélite. Não há evidência de que ela tenha sido usada aqui — não, o contrário seria afirmar justamente aquilo que os dados não permitem —, e o Spaceweather.com avaliou que talvez não exista nada de sinistro no caso.

Quantos fragmentos foram criados e para onde eles foram?

A quantidade de fragmentos ainda não foi determinada, e essa lacuna impede uma avaliação precisa do risco. A empresa privada s2a systems confirmou o evento e fotografou o maior pedaço remanescente identificado até o momento. O restante precisa ser detectado, catalogado e acompanhado. Em órbita, saber que algo se quebrou é apenas o começo; é preciso descobrir onde cada peça está, em que velocidade viaja e como sua trajetória mudará nos próximos meses.

Uma simulação divulgada pelo Spaceweather.com indica que os detritos podem ter se espalhado pelo caminho orbital do satélite em aproximadamente 24 horas, formando um anel ao redor da Terra. Isso não significa que todos os fragmentos tenham ficado imediatamente distribuídos por toda a órbita, nem que estejam descendo. Gravidade, arrasto atmosférico e velocidade orbital continuam alterando suas posições. A região da ruptura fica a quase o dobro da altitude da Estação Espacial Internacional, mas distância vertical não é sinônimo de segurança permanente.

O trabalho de investigação será parecido com uma perícia feita ao contrário. Pesquisadores precisam identificar os fragmentos e depois reconstruir suas trajetórias até o instante da separação. Esse processo pode levar meses ou anos, especialmente se as peças forem pequenas ou numerosas. O satélite Intelsat 33e, fabricado pela Boeing, também se despedaçou inesperadamente em 2024, e a análise daquele caso ainda serve de lembrete de que o espaço tem uma paciência geológica para explicar seus acidentes.

O lixo do USA 32 ameaça outros satélites?

Sim, o risco de colisão é real, sobretudo porque a área abriga pelo menos 200 satélites e já contém detritos de uma colisão ocorrida em 2009 entre veículos americano e russo. Essa avaliação foi destacada pelo Spaceweather.com. O perigo não depende apenas do tamanho do fragmento: um objeto pequeno, viajando a vários quilômetros por segundo, pode danificar ou destruir um satélite operacional. Na órbita baixa da Terra, energia cinética costuma ser a parte que não cabe na fotografia.

Até o momento, não foram registrados problemas derivados do episódio, e lançamentos continuaram normalmente. A Rússia realizou em 16 de setembro uma missão de abastecimento para a ISS, que orbita a cerca de 400 quilômetros de altitude. A SpaceX também lançou missões classificadas para a Força Espacial americana em 16 e 26 de setembro e realizou, em 28 de setembro, o primeiro teste orbital do Starship, segundo o relato. Isso não elimina o risco; apenas mostra que o campo de detritos não bloqueou imediatamente essas operações.

A ISS e a estação Tiangong estão em perigo?

A Estação Espacial Internacional e a estação chinesa Tiangong não estão atualmente no caminho conhecido da nuvem de detritos do USA 32. A ISS fica aproximadamente 375 quilômetros abaixo do satélite fragmentado, e a diferença de altitude oferece uma separação importante neste caso. Ainda assim, os fragmentos podem mudar de órbita com o tempo, sob influência da gravidade e do arrasto atmosférico. Se uma peça se aproximar demais, as estações poderão executar manobras de evasão, como já fizeram dezenas de vezes diante de outros objetos.

Manobrar uma estação espacial para evitar lixo orbital não é uma operação exótica, mas tampouco é trivial. Exige rastreamento confiável, cálculo de trajetória e uma janela segura para alterar a velocidade do complexo. Um fragmento não precisa atingir diretamente a ISS para complicar sua rotina: basta transformar uma aproximação em ameaça operacional. Talvez nada aconteça com as duas estações. O problema é que “talvez” é uma palavra ruim para colocar no painel de controle de um laboratório habitado.

Esse tipo de fragmentação pode acontecer novamente?

Sim, novas fragmentações são prováveis enquanto a órbita baixa continuar recebendo satélites e mantendo veículos antigos em circulação. Quanto mais objetos existem, maiores são as chances de colisões, falhas e encontros perigosos. Satélites desligados também podem se tornar obstáculos passivos, acumulando desgaste durante anos. Uma pane de software ou uma tempestade solar poderosa pode deixar veículos sem controle; pesquisas anteriores indicam que, em determinadas condições, eles poderiam começar a colidir em questão de dias.

Há ainda o risco de armas antissatélite, que preocupa pesquisadores e leitores, embora não explique automaticamente o caso do USA 32. No começo deste mês, o secretário da Força Aérea americana, Troy E. Meink, revelou pela primeira vez que os Estados Unidos haviam colocado armas não especificadas em órbita. China e Rússia também são suspeitas de possuir tecnologias semelhantes, e a Rússia já destruiu um satélite usando armamento baseado na Terra. Se o acúmulo de detritos continuar, o chamado efeito Kessler — uma reação em cadeia que tornaria lançamentos cada vez mais difíceis — deixará de parecer ficção distante. A velha lata de atum não caiu; apenas abriu, em silêncio, mais uma pergunta sobre quem ainda consegue circular ao redor dela.

spot_img