Veja o que a conexão entre Pix e Tips pode mudar nos pagamentos internacionais

Enviar dinheiro entre países ainda costuma ser uma operação cheia de desvios: bancos intermediários, tarifas pouco transparentes e dias de espera até a liquidação. O Banco Central Europeu (BCE) quer mexer nessa engrenagem ao avaliar a conexão entre o Target Instant Payment Settlement (Tips), sistema europeu de pagamentos instantâneos, e o Pix brasileiro. A proposta é tornar as transferências mais rápidas, mais baratas e mais transparentes. A palavra importante aqui é avaliar. A ligação ainda não existe, e há uma boa quantidade de detalhes técnicos, jurídicos e comerciais entre a intenção e o dinheiro chegando do outro lado.

Como funcionaria a conexão entre Pix e Tips?

A conexão funcionaria por meio da orquestração do pagamento de ponta a ponta, fazendo o Tips encaminhar a instrução ao Pix e, depois, ao banco ou provedor final no Brasil. O caminho descrito por Marco Massarenti, consultor de pagamentos do BCE, começa com um participante europeu — um banco ou provedor de serviços de pagamento — enviando a instrução ao Tips. A infraestrutura europeia transfere essa instrução para o Pix, que a encaminha à instituição responsável pela última etapa da operação. Parece uma seta simples. Por baixo dela, há mensagens, regras e processos que precisam conversar sem tropeçar.

A fase de avaliação da interligação foi iniciada pelo Banco Central do Brasil. Nela, as instituições analisam a interoperabilidade técnica, as especificações funcionais, os aspectos jurídicos e o modelo de negócios. Uma pergunta aparentemente prosaica resume o problema: as mensagens enviadas pelos dois sistemas são iguais? Também será necessário verificar os tipos de mensagem, os processos de pagamento e o caráter definitivo da liquidação. Não basta um sistema reconhecer que o outro existe. Ele precisa saber exatamente o que recebeu, o que deve fazer e em que momento a transação deixa de ser reversível — ou quase isso.

Quais objetivos o BCE espera alcançar?

O BCE espera reduzir custos, acelerar a liquidação e fortalecer a autonomia estratégica dos pagamentos europeus com a conexão do Tips a sistemas como o Pix. A iniciativa também acompanha o roteiro do G20 para tornar os pagamentos transfronteiriços mais eficientes e segue a inovação em infraestruturas de pagamento. Em remessas e transações envolvendo moedas pouco utilizadas, as tarifas podem chegar a 10% ou mais, segundo Massarenti. A meta citada pelo executivo é reduzir esse custo para menos de 3%. Menos pedágio para a mesma ponte, portanto — embora ainda falte construir a ponte.

O Brasil não está sozinho nessa avaliação. O BCE também analisa conexões com o Unified Payments Interface (UPI), da Índia, com o sistema suíço e com o Nexus Global Payments. A comparação ajuda a colocar o projeto em perspectiva: não se trata de uma adaptação improvisada apenas para o corredor Brasil-Europa, mas de uma tentativa de estabelecer conexões entre diferentes infraestruturas. Cada parceiro, porém, traz seus próprios padrões, moedas, exigências legais e arranjos comerciais. O desenho pode ser compartilhado; os parafusos, nem sempre.

O pagamento ficará mais barato e instantâneo?

A nova infraestrutura pretende ser mais econômica e reduzir o tempo de liquidação, mas não garante, sozinha, tarifas menores para todos os clientes. Os custos dos originadores continuarão existindo, e os acordos de preços serão definidos na relação comercial entre bancos, clientes e provedores de serviços de pagamento. Em outras palavras, o BCE e o Banco Central do Brasil podem melhorar o trilho; o preço da passagem continuará dependendo das instituições envolvidas.

Brasileiros já usam o Pix em alguns países europeus, mas isso ocorre por meio de arranjos privados, com parcerias entre bancos e intermediadoras. A infraestrutura pública entre os bancos centrais não elimina essa camada. Instituições financeiras e provedores dos dois lados continuarão necessários para levar a transação até a etapa final, inclusive para entregar o dinheiro ao beneficiário. E há uma diferença importante entre uma transferência tecnicamente instantânea e uma operação que termina instantaneamente para quem paga e para quem recebe.

Hoje, pagamentos internacionais podem ser fragmentados e levar alguns dias para chegar ao outro lado. A conexão projetada busca aproximar esse processo do funcionamento instantâneo do Pix e do Tips, mas a segurança e a confiabilidade terão de ser examinadas com cuidado. A dimensão jurídica inclui regras de proteção de dados na Europa, além das responsabilidades de cada participante. Questões cambiais, de identificação e de prevenção a problemas também fazem parte do terreno regulatório — embora o material disponível não detalhe como cada uma será resolvida.

Quanto ao prazo, ainda é cedo para cravar uma data de lançamento. A avaliação de viabilidade não encerra o trabalho: depois dela, será preciso implementar e desenvolver as mudanças tecnológicas necessárias. Massarenti afirma que, em outros corredores de pagamentos analisados pelo BCE, essa fase pode levar um ano ou até mais. A conexão entre Pix e Tips, portanto, está no estágio de perguntas bem formuladas, não no de promessa pronta para uso. O dinheiro poderá atravessar a fronteira em segundos; decidir como isso será feito talvez demore bastante mais.

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