A proibição das bets no Brasil levou apenas alguns dias para atravessar o Atlântico e aparecer nas bolsas estrangeiras. A Better Collective perdeu cerca de 24% em um pregão. A britânica Entain caiu mais de 4%. Flutter, Allwyn e outras companhias começaram a recalcular receitas e lucros. O recado do mercado é bastante simples: o apostador brasileiro havia se transformado em uma peça importante de uma indústria global bilionária. E agora descobrimos quanto ele valia.
Ou melhor: quanto seu dinheiro valia.
Por que a proibição das bets no Brasil derrubou ações no exterior?
A decisão brasileira atingiu empresas estrangeiras porque o país havia se tornado um dos mercados de crescimento mais cobiçados pela indústria mundial de apostas online. A Reuters informou nesta segunda-feira, 28 de setembro, que Flutter Entertainment e Entain já estimam impactos sobre seus resultados caso a proibição seja mantida.
A Flutter calcula redução de US$ 70 milhões na receita de 2026 e de aproximadamente US$ 20 milhões no lucro operacional ajustado. O Brasil representava apenas 1% de sua receita total no fim de 2025, mas era considerado mercado de expansão. A Entain tinha exposição maior: esperava obter no Brasil cerca de 5% de sua receita líquida de jogos online neste ano. Depois da decisão, reduziu sua previsão de crescimento e suas ações caíram 4,2% durante o pregão. A Allwyn abandonou sua projeção anual de margem.
Mas foi a dinamarquesa Better Collective que sentiu a pancada com gosto: suas ações despencaram aproximadamente 24%, chegando a níveis próximos aos observados em 2020. A empresa suspendeu seu programa de recompra de ações e retirou as metas financeiras para 2027 e 2028.
Não foi uma crise das bolsas internacionais. Foi algo mais específico: investidores reavaliando quanto valem empresas cujo crescimento dependia, em parte, do dinheiro apostado no Brasil.
Uma quantidade absurda de dinheiro, aliás.
Segundo o Ministério da Fazenda, citado pela Reuters, famílias brasileiras gastavam aproximadamente R$ 60 bilhões por ano em apostas online. A arrecadação tributária gerada pelo setor ficava perto de R$ 10 bilhões.
Quem estava colocando dinheiro nessa máquina?
Os dados mostram que as apostas alcançaram justamente famílias para as quais perder R$ 100 está muito longe de ser apenas perder R$ 100. Um levantamento do Banco Central publicado em 2024 estimou que 24 milhões de brasileiros haviam realizado pelo menos uma transferência via Pix para empresas de apostas no período analisado.
Em agosto daquele ano, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas por Pix. Quatro milhões eram chefes das famílias beneficiárias e responderam por R$ 2 bilhões dessas transferências. A mediana enviada pelos apostadores ligados ao programa foi de R$ 100.
Cem reais.
Para quem olha uma planilha de uma empresa europeia de apostas, é provavelmente uma célula perdida depois da vírgula. Para uma família que vive com o orçamento contado, pode ser gás, comida, remédio ou parte da conta de energia.
E existe uma característica tecnológica que tornou tudo isso diferente do velho jogo clandestino da esquina. O cassino foi colocado dentro do telefone. Não fecha às duas da manhã, não exige deslocamento e não precisa sequer esperar o próximo jogo do Brasileirão. Slots online como o popular “Tigrinho” transformaram a aposta em software: animações, recompensa variável, repetição instantânea, notificações e disponibilidade permanente.
A Fiocruz descreveu o fenômeno em 2025 com uma imagem especialmente feliz — ou infeliz: “um cassino em cada bolso”. Especialistas ouvidos pela instituição relataram endividamento, insônia, queda de rendimento, afastamento familiar e perda de emprego entre pessoas com comportamento problemático relacionado às apostas.
Regular as bets resolveu o problema?
A regulamentação iniciada pelo Brasil criou controles, tributação e obrigações para empresas que antes operavam num ambiente largamente desregulado, mas os dados posteriores mantiveram aberta a discussão sobre se esses mecanismos seriam suficientes para reduzir os danos sociais.
A história jurídica é curiosa. As apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018. Em 2023, uma nova legislação estabeleceu regras e autorizou explicitamente também jogos online. As operadoras licenciadas começaram a atuar plenamente sob o novo sistema em janeiro de 2025. Menos de dois anos depois, o governo editou a medida provisória proibindo apostas esportivas e jogos online; para permanecer válida, ela ainda depende do Congresso dentro do prazo constitucional.
Os números da saúde ajudam a explicar por que o assunto voltou à mesa. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado em 2023 e 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo de risco ou problemático. Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas no SUS cresceram cerca de 140%. O Ministério também cita estudo que estima em R$ 38,8 bilhões anuais o custo social associado aos jogos, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam ligados à saúde.
Há uma objeção relevante. A associação que representa o setor argumenta que uma proibição pode deslocar mais de 30 milhões de apostadores para sites ilegais, fora da fiscalização brasileira, além de desconsiderar investimentos realizados pelas empresas que obtiveram licenças.
É um problema que a proibição terá de enfrentar.
Mas há uma ironia difícil de ignorar no pregão desta segunda-feira. Quando uma empresa perde quase um quarto de seu valor porque brasileiros deixarão de poder apostar pelo celular, o gráfico da bolsa acaba revelando algo que nenhuma propaganda de bônus de boas-vindas costuma explicar.
Do outro lado daquela tela piscando havia um negócio extraordinariamente valioso.
O dinheiro precisava vir de algum lugar.
Fontes principais: Reuters — impacto da proibição sobre Flutter, Entain e Allwyn · Reuters — decisão brasileira e dimensão econômica do mercado · Banco Central — perfil dos apostadores brasileiros · Ministério da Saúde — dados sobre saúde e apostas · Fiocruz — epidemia das apostas online


