Durante a Segunda Guerra Mundial, um militar identificado como Magee foi lançado de um avião a cerca de 6 quilômetros de altitude, inconsciente e sem paraquedas. O bombardeiro havia sido atingido pela artilharia antiaérea, entrou em espiral e começou a se desintegrar antes que ele conseguisse deixar a aeronave. A queda parecia uma sentença. Mas Magee não atingiu diretamente o chão: atravessou o teto de vidro da estação ferroviária de Saint-Nazaire, na França, e ficou preso entre as estruturas metálicas do prédio. Soldados alemães o encontraram vivo. Às vezes, a diferença entre o impossível e o apenas improvável cabe numa cobertura de vidro.
Segundo o registro histórico mantido pela associação de veteranos do 303º Grupo de Bombardeio, Magee estava ferido na torre de artilharia ventral, uma cabine esférica usada para disparar metralhadoras contra aeronaves inimigas. Foi ali que ele percebeu, no equipamento de emergência, a existência de um grande buraco. Depois, conseguiu chegar ao compartimento de bombas e aguardava a saída de outro integrante da tripulação quando o avião explodiu. A explosão o lançou para fora. Não houve tempo para procurar um paraquedas, muito menos para escolher onde cair. O corpo seguiu sozinho, em queda livre, enquanto a aeronave se desfazia acima dele.
Como Magee sobreviveu à queda de 6 quilômetros?
Magee sobreviveu porque o teto de vidro da estação ferroviária absorveu parte do impacto e o corpo terminou apoiado nas estruturas metálicas do prédio. A explicação não torna o episódio menos brutal. O vidro não funcionou como uma almofada, e ele ficou gravemente ferido: o braço quase foi arrancado, enquanto pernas, joelhos e tornozelos sofreram lesões. Seus dentes também foram danificados. Havia ainda os ferimentos provocados pelo ataque que destruíra o avião. O detalhe decisivo foi o local da queda. O solo teria oferecido uma resposta muito mais curta.
Após ser retirado da estação, Magee foi levado a um posto de primeiros socorros e, depois, a um hospital. Um médico militar alemão cuidou de seus ferimentos. Décadas mais tarde, em relato publicado na newsletter Hell’s Angels, da associação de veteranos do grupo de bombardeio, Magee expressou gratidão pelo atendimento. Segundo seu depoimento, o médico disse que os dois eram inimigos, mas que, antes de tudo, ele era médico e faria o possível para salvar seu braço. O membro foi preservado. Magee continuou o tratamento sob custódia alemã e, posteriormente, foi enviado a um campo de prisioneiros de guerra.
Ele permaneceu preso até o fim do conflito. Décadas depois, voltou à estação ferroviária de Saint-Nazaire. Como estava inconsciente durante a queda, não tinha visto o prédio no momento do impacto. Ao observar o teto de vidro, comentou que imaginava que a estrutura fosse menor. A frase tem uma secura quase absurda: o lugar que ajudou a salvar sua vida parecia, à distância, menos imponente do que deveria. Magee morreu em 2003, aos 84 anos. No caminho entre seis quilômetros de céu e o chão, houve um avião destruído, um teto frágil e uma chance que ninguém teria escolhido — mas que, por alguma razão, estava ali.


