Durante algumas décadas, o Sistema Solar teve nove planetas nos livros escolares. Depois, Plutão foi rebaixado a planeta anão, e a conta ficou mais complicada: há uma população inteira de mundos pequenos orbitando o Sol. Agora, um estudo propõe uma hipótese ainda mais estranha. No começo de sua história, nossa estrela pode ter engolido uma super-Terra, um planeta que seria o nono membro legítimo do sistema.
O Sol realmente pode ter consumido uma super-Terra?
Sim, pelo menos de acordo com um modelo apresentado por Mutlu Yildiz, professor da Universidade Ege, na Turquia, e sua equipe. A pesquisa foi publicada no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e descreve um planeta hipotético formado quando o Sistema Solar ainda era jovem. Esse corpo teria entre cinco e dez vezes a massa da Terra, faixa que o colocaria na categoria das super-Terras.
A ideia não é a de um planeta simplesmente despencando no Sol como uma pedra num poço cósmico. A gravidade da estrela teria alterado sua trajetória até aproximá-lo das camadas externas do Sol. Ali, o planeta começaria a se desfazer; depois de atravessar as regiões mais superficiais, seria dissolvido por completo. Uma coisa inferida bilhões de anos depois. Não há fotografia do crime.
O possível vestígio estaria no próprio Sol. Corpos que atravessam suas camadas externas podem deixar marcas detectáveis, mesmo quando desaparecem. Yildiz afirma ter encontrado pistas em discrepâncias entre os modelos conhecidos de evolução solar e as observações atuais. As principais seriam mudanças sutis na estrutura interna da estrela e uma quantidade de lítio menor do que a esperada.
Que pistas sustentam a hipótese do planeta desaparecido?
A hipótese se apoia na falta de lítio observada na superfície solar e em simulações sobre o crescimento das camadas externas da estrela. Se o Sol tivesse incorporado uma super-Terra, o impacto poderia ter empurrado boa parte desse lítio para regiões mais profundas. Nesses locais, o elemento seria destruído mais rapidamente, deixando a superfície relativamente pobre em elementos pesados.
Modelos são a ferramenta habitual para estudar objetos que não podemos visitar. Não sabemos, por observação direta, cada detalhe sobre o tamanho e a massa de Júpiter; calculamos essas propriedades a partir de modelos e atualizamos as estimativas quando novos dados aparecem. Com o Sol acontece o mesmo. Quando a estrutura prevista não combina com a estrela observada, alguma hipótese precisa voltar à bancada — não necessariamente sair de lá correta.
A proposta também conversa com outro mistério. Astrônomos já encontraram super-Terras em diversos sistemas planetários, mas nenhuma sobreviveu ao redor do nosso Sol. Uma explicação possível é que ela tenha sido destruída no início da formação do sistema, antes que os planetas atuais encontrassem suas órbitas mais estáveis.
Convém reduzir o entusiasmo: o resultado é teórico e depende de um modelo, não de uma evidência direta preservada numa cápsula do tempo. Talvez o lítio conte essa história. Talvez esteja apenas apontando para uma peça ainda ausente na física solar. Sem uma máquina do tempo — ou uma observação futura capaz de separar as hipóteses — não saberemos se o Sol realmente comeu uma super-Terra. Por enquanto, o antigo nono planeta permanece onde a astronomia costuma guardar seus fantasmas: nos cálculos.


