A primeira onda de calor da primavera de 2026 deve chegar neste sábado (26/09) e atingir áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu aviso vermelho, válido até quarta-feira (30/09), para Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo, além de partes de Mato Grosso, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
As máximas podem alcançar 41°C em Cuiabá no domingo (27) e na segunda-feira (28), enquanto Campo Grande pode chegar a 40°C na segunda. Em São Paulo, a previsão indica até 32°C no domingo. A onda ocorre no início de uma primavera influenciada pelo El Niño, fenômeno capaz de reorganizar a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas.
Quais regiões devem enfrentar o maior calor?
A primeira onda de calor deve concentrar as temperaturas mais elevadas no Centro-Oeste, no interior do Sudeste e em áreas do Sul, com máximas de até 41°C. O aviso vermelho do Inmet mede o potencial de perigo associado à temperatura e representa o nível mais alto de uma escala que também inclui as cores amarela e laranja.
O alerta vale de sábado a quarta-feira e cobre todo o território de Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo. Também inclui partes de Mato Grosso, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A abrangência é extensa, mas a intensidade não será idêntica em todos os municípios; o relevo, a umidade e a presença de nuvens podem alterar o resultado observado em cada local.
Cuiabá aparece como um dos pontos mais quentes, com previsão de 41°C no domingo e na segunda. Campo Grande pode registrar 40°C na segunda-feira. Na capital paulista, a máxima projetada é menor, 32°C no domingo, mas o valor ainda pode produzir desconforto, sobretudo em ambientes urbanos, com pouca circulação de ar e superfícies que acumulam calor.
O aviso não é um convite para testar a resistência do corpo. Evitar exposição prolongada nos horários mais quentes, buscar ambientes ventilados e manter a hidratação são medidas práticas durante o período. A mangueira da fotografia resolve um minuto; o calor atmosférico, infelizmente, trabalha em escala maior.
O que está provocando o aumento das temperaturas?
O aumento das temperaturas é favorecido por uma área de baixa pressão entre o norte da Argentina e o oeste do Paraguai, combinada com uma área de alta pressão em altitude sobre partes do Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
A baixa pressão deve se intensificar nos próximos dias e transportar ar quente em direção ao sul do Brasil, ao Paraguai e à Argentina. Esse deslocamento eleva rapidamente os termômetros. Depois, enquanto o padrão atmosférico permanecer, o calor tende a continuar instalado, sem uma mudança brusca que devolva as temperaturas aos níveis anteriores.
A alta pressão atua alguns quilômetros acima da superfície. Ela força o ar a descer; durante a descida, esse ar é comprimido e se aquece. O processo reforça o aquecimento próximo ao solo, especialmente quando uma massa de ar quente já chegou às camadas mais baixas da atmosfera.
É a mecânica conhecida como “domo de calor”: uma espécie de tampa atmosférica que dificulta a dispersão do ar quente e a entrada de massas mais frescas. A imagem é doméstica, quase uma panela esquecida no fogão. A física, porém, não tem nada de caseira.
Talvez a parte mais incômoda seja justamente essa persistência. Um pico isolado passa; vários dias sob a mesma configuração pressionam a rotina, o consumo de energia e a saúde de quem trabalha ao ar livre. O calor não precisa bater recorde para ser perigoso.
Como deve ser a primavera de 2026?
A primavera deve alternar períodos secos e chuvosos, especialmente na região central do Brasil, com aumento gradual da umidade e retorno das precipitações em diferentes áreas. A estação começou oficialmente em 22 de setembro e termina em 21 de dezembro.
Durante esses meses, o fluxo de umidade vindo da Amazônia tende a se intensificar. Ele alimenta o período chuvoso no Centro-Oeste, no Sudeste e em parte do centro-sul da Região Norte. A transição, entretanto, não acontece como o acionamento de um interruptor: regiões próximas podem atravessar dias de calor seco e, pouco depois, enfrentar chuva forte.
Na Região Sul, o Inmet prevê risco de chuvas intensas, rajadas de vento, descargas atmosféricas e eventual granizo. No norte da Região Nordeste, principalmente no norte do Piauí e no noroeste do Ceará, a tendência é de um período mais seco. São dois comportamentos dentro da mesma estação, separados por centenas de quilômetros e por uma atmosfera que raramente respeita fronteiras administrativas.
As temperaturas médias devem superar 28°C no Norte e no Nordeste, além de pontos isolados do interior do país. O aquecimento progressivo pode intensificar ondas de calor, elevar o desconforto térmico, reduzir a umidade do solo e favorecer a formação rápida de tempestades severas. E uma tarde abafada pode terminar com vento, raio e granizo.
Qual será o efeito do El Niño no Brasil?
O El Niño deve manter temperaturas acima da média em quase todo o país e alterar a distribuição das chuvas durante a primavera, com precipitações acima do normal no Sul e condições mais secas no Norte, no Nordeste e em áreas do Centro-Oeste e Sudeste.
Previsões do CPC/NOAA divulgadas no início de agosto indicaram mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte entre setembro e novembro. A classificação “super El Niño” é usada quando a temperatura da superfície do mar ultrapassa 2°C acima da média histórica. Isso ocorreu apenas quatro vezes em cerca de 150 anos: em 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
Os modelos climáticos indicam que 2026 pode ser o quinto episódio dessa magnitude. Mas intensidade não significa, automaticamente, impacto mais severo em cada região — não, o contrário não é garantido. Eventos fortes aumentam a probabilidade de determinados efeitos, mas não transformam a previsão climática em roteiro imutável.
Um boletim conjunto do Inmet, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/Inpe) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) aponta chuva acima da média no Rio Grande do Sul, em partes de São Paulo e em Mato Grosso do Sul. Norte, Nordeste e áreas do Centro-Oeste e Sudeste podem ter precipitações abaixo do normal.
Na Amazônia Legal e no Pantanal, o fenômeno pode atrasar a chegada das chuvas da primavera e prolongar a estiagem. A combinação de calor e pouca chuva mantém o solo e a vegetação secos por mais tempo, elevando o risco de queimadas. A pesquisadora Ana Ávila, do Cepagri/Unicamp, resumiu a expectativa como um efeito forte do El Niño no Brasil.
O mapa da primavera, portanto, não será pintado com uma única cor. Haverá calor persistente, chuva pesada em alguns lugares, seca em outros e episódios de frio ainda possíveis em setembro. Quem olhar apenas para o termômetro talvez perca a parte essencial: a estação começa com uma atmosfera desequilibrada, e a mangueira na rua será apenas o primeiro improviso contra um verão que ainda nem chegou.



