Maria Madalena foi apóstola, testemunha da ressurreição, penitente, pecadora arrependida e, mais recentemente, símbolo de autonomia feminina. A Bíblia, porém, não diz que ela era prostituta. Essa imagem nasceu de uma fusão feita no século 6 e atravessou pinturas, sermões, romances e videoclipes. Ticiano, El Greco, Rembrandt, Max Beckmann e Lady Gaga encontraram nela personagens diferentes. A exposição “Maria Madalena: Sin. Pray. Love.”, no Museu Städel, em Frankfurt, reúne mais de 100 representações para mostrar justamente essa disputa: quem foi Madalena e quem a história decidiu que ela deveria ser.
O que a Bíblia realmente diz sobre Maria Madalena?
Os Evangelhos oferecem poucas informações, mas colocam Maria Madalena no centro da narrativa cristã. Jesus teria expulsado dela sete demônios, e ela passou a acompanhá-lo ao lado de outros discípulos. Madalena testemunhou a crucificação, viu onde Jesus foi sepultado e, na manhã de Páscoa, encontrou o túmulo vazio. Segundo os relatos, foi a primeira pessoa a testemunhar a ressurreição e levou a notícia aos demais discípulos. Por isso recebeu o título apostola apostolorum, “Apóstola dos Apóstolos”. Não é pouca coisa. Na história da salvação, seu papel começa com uma mensagem — não com uma confissão de culpa.
A associação com a prostituição apareceu muito depois. Por volta do ano 600, o papa Gregório Magno fundiu Maria Madalena com duas personagens distintas: a pecadora anônima do Evangelho de Lucas, que lava os pés de Jesus, e Maria de Betânia, que também realiza um gesto semelhante. Gregório interpretou os sete demônios como referência aos sete pecados capitais. A conta era teologicamente conveniente, mas não estava escrita na Bíblia. Assim se consolidou a figura da prostituta arrependida, quase sempre representada com cabelos soltos, pele exposta, um frasco de unguento e olhar voltado para o céu. A personagem bíblica ganhou uma biografia que não possuía.
Onde teria sido enterrada Maria Madalena?
Duas localidades francesas afirmam guardar os restos mortais de Maria Madalena: Vézelay, na Borgonha, e Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, na Provença. A tradição que sustenta essa disputa surgiu na Alta Idade Média, quando se espalhou a narrativa de que Madalena, Lázaro e outras pessoas teriam sido abandonados em um barco no Mediterrâneo. O grupo teria chegado ao sul da França com ajuda divina. Depois de evangelizar a região, ela teria vivido cerca de 30 anos em uma caverna, dedicada à penitência. História? Relíquia? Não há como resolver a questão apenas com devoção. Mas lugares sagrados também são arquivos de imaginação.
A Reforma Protestante e o Humanismo, no século 16, começaram a questionar a fusão das três mulheres. A crítica, contudo, demorou a alcançar a liturgia católica. Somente depois do Concílio Vaticano 2, realizado entre 1962 e 1965, a identificação de Maria Madalena com a pecadora anônima foi oficialmente revogada. Antes disso, pintores do Renascimento e do Barroco haviam transformado a penitente em uma das figuras mais recorrentes da arte europeia. Ticiano explorou a sensualidade do arrependimento em sua Maria Madalena Penitente, de cerca de 1555-1565. El Greco repetiu o motivo entre 1580 e 1585. A devoção veio acompanhada de uma dose bastante terrena de erotismo.
Como o Evangelho de Maria mudou sua imagem?
O Evangelho de Maria, redescoberto na era moderna, reabriu a discussão sobre o papel da personagem. O texto não foi incluído no cânone bíblico e apresenta Maria como uma confidente especialmente próxima de Jesus, capaz de transmitir ensinamentos e confrontar outros discípulos. Isso não prova, sozinho, cada interpretação contemporânea sobre sua relação com Cristo. Mas desloca o eixo da narrativa: em vez de uma mulher definida pelo pecado, surge uma líder espiritual lembrada por sua autoridade. O manuscrito não apaga séculos de tradição; ele funciona como uma janela estreita, mas incômoda, para outras formas de cristianismo primitivo.
É essa versão que interessa a muitas artistas contemporâneas e à teologia feminista. Maria Madalena passou a ser vista como uma mulher influente, autônoma e dona de si. Em 2011, Lady Gaga a interpretou no videoclipe de “Judas” e descreveu a experiência como o momento artístico mais emocionante de sua carreira. A cultura pop não inventou a multiplicidade da personagem; apenas a colocou sob luzes novas, com maquiagem e refrão. A antiga penitente continuava ali, mas já não precisava baixar os olhos para existir.
O que a exposição de Frankfurt revela?
A mostra do Museu Städel apresenta mais de 100 imagens de Maria Madalena, da arte religiosa histórica à produção contemporânea. Uma das obras mais recentes é La sfida, “O Desafio”, da espanhola Nieves González, concluída em 2025. A pintura desmonta quase todos os sinais tradicionais da penitência. Madalena olha diretamente para o espectador, com confiança. Os cabelos estão penteados ao redor do pescoço, como um xale, e o corpo aparece protegido por um casaco acolchoado vermelho. Nas mãos, ela segura um crânio da mesma cor. Durante séculos, o objeto simbolizou a mortalidade; aqui, também parece afirmar poder.
Max Beckmann havia pintado, em 1917, uma Maria Madalena pecadora dentro da estética da Nova Objetividade. Rembrandt preferiu destacá-la como testemunha da ressurreição. A diferença entre essas imagens não é apenas de estilo. Cada época escolheu uma Madalena capaz de dizer algo sobre seus próprios medos, desejos e limites. Em 2016, o papa Francisco concedeu ao dia 22 de julho, dedicado à personagem, o status de festa litúrgica, reconhecendo oficialmente sua importância na Igreja Católica. A exposição pode ser visitada em Frankfurt até 17 de janeiro de 2027. Talvez ainda falte uma última versão. Ou talvez seja justamente essa a história: Madalena continua escapando do retrato que tentam fixar.


