Do carro ao sorvete: veja como empresas chinesas estão mudando o consumo no Brasil

A presença chinesa no Brasil deixou de caber na imagem das compras baratas pela internet. Ela agora aparece em carros elétricos, trens, aplicativos de transporte, sorvetes, eletrodomésticos e marketplaces. BYD, Mixue, 99, Midea e AliExpress ocupam pontos diferentes da mesma paisagem: um mercado grande, ainda parcialmente digitalizado e cheio de gargalos. O movimento combina investimento local, adaptação de produtos e disputa por escala. A blusinha continua existindo, claro. Mas já divide espaço com o carregador rápido, o ar-condicionado e o milk tea.

Como a BYD passou dos ônibus elétricos para uma operação mais ampla?

A BYD ampliou sua atuação no Brasil de ônibus elétricos para veículos, energia, empilhadeiras, caminhões e mobilidade sobre trilhos. A empresa inaugurou em 2015 uma fábrica de chassis para ônibus elétricos em Campinas, no interior de São Paulo, e passou a produzir módulos fotovoltaicos dois anos depois. O catálogo local cresceu desde então, como costuma acontecer quando uma fabricante percebe que vender o produto é apenas a primeira camada do negócio.

Hoje, a companhia também trabalha com empilhadeiras, caminhões elétricos e o SkyRail da Linha 17-Ouro de São Paulo. O sistema usa uma única viga de concreto elevada e se movimenta com tração totalmente elétrica, alimentada por baterias de íon-lítio. É uma solução de engenharia pouco parecida com a imagem habitual de um trem, embora a cidade, no fim, ainda precise descobrir como encaixar tudo isso em sua rotina de obras, tarifas e atrasos.

A BYD afirma ter mais de 150 carregadores rápidos instalados no país e prepara a inauguração do primeiro sistema Flash Charging brasileiro. A tecnologia promete levar a bateria de 10% a 70% em cinco minutos e alcançar 97% em nove. A empresa também investe R$ 5,5 bilhões no complexo automotivo de Camaçari, na Bahia. Por enquanto, a unidade monta veículos que chegam semidesmontados da China. A fábrica existe; a nacionalização completa ainda está em construção.

Por que a Mixue aposta em mil lojas brasileiras?

A Mixue aposta no Brasil porque encontra um mercado amplo, jovem e receptivo a bebidas geladas, chá e sorvete, segundo a empresa. A primeira loja foi inaugurada em abril, na Avenida Paulista, em São Paulo, e marcou a estreia da companhia fora da região Ásia-Pacífico. O plano prevê investimento de R$ 3 bilhões até 2030, mil lojas próprias e franqueadas e uma fábrica no país.

A meta para este ano é abrir cem pontos de venda. No mundo, a Mixue, criada por dois irmãos em 1997, soma 64 mil lojas distribuídas por 17 países. Em 2025, faturou 33,6 bilhões de yuans, equivalentes a R$ 25,6 bilhões na conversão informada. A conta é de varejo em escala: uma marca reconhecível, operação repetível e preço capaz de transformar uma compra pequena em hábito cotidiano.

Mas o cardápio não pode simplesmente desembarcar pronto. Shu Mei, responsável pelo marketing da Mixue Brasil, afirma que consumidores chineses tendem a preferir bebidas à base de chá e milk tea, enquanto brasileiros procuram sabores frutados, refrescantes e ingredientes tropicais. A estratégia, diz ela, é preservar os clássicos da marca e ajustar produtos e experiências aos costumes locais. O império do copo plástico também precisa aprender o sotaque da fruta brasileira.

Como a 99 transforma mobilidade em um ecossistema de serviços?

A 99 transforma o aplicativo de transporte em uma plataforma de mobilidade, logística, comida, conveniência e serviços financeiros. Criada por brasileiros em 2012, a empresa foi comprada pela chinesa DiDi em 2018 e passou a representar o primeiro movimento internacional da companhia. Segundo Bruno Rossini, diretor de comunicação da 99, o Brasil se tornou o maior mercado da DiDi fora da China e um dos motores de sua expansão global.

Os números ajudam a explicar o interesse. A 99 informa ter 85 milhões de usuários ativos, presença em mais de 4,4 mil cidades e mais de 2,5 milhões de motoristas parceiros. A base de usuários teria crescido mais de 50% nos dois anos anteriores, enquanto mais de 10 milhões de pessoas acessariam o aplicativo diariamente. São cifras grandes demais para tratar o serviço como simples botão de chamar carro.

O próximo passo é aproximar o aplicativo do transporte público. Em Salvador, a empresa iniciou um projeto para vender bilhetes de metrô diretamente pela plataforma. No delivery, a 99Food recebeu mais de R$ 2 bilhões em investimentos no último ano e enfrenta a concorrência da conterrânea Keeta. A região metropolitana de São Paulo registra cerca de 600 mil pedidos por dia, contra 3 milhões em Xangai, segundo Rossini.

A diferença não está apenas no apetite do consumidor. Uma refeição entregue em Xangai custaria cerca de R$ 20, enquanto em São Paulo o valor varia de R$ 50 a R$ 70, reflexo de uma estrutura de custos ainda pouco otimizada. A logística brasileira é mais cara e fragmentada. E, sem preço final razoável, nenhuma inteligência artificial — não, o contrário — salva um jantar que chega custando três vezes mais.

O que Midea e AliExpress procuram no mercado brasileiro?

A Midea procura no Brasil uma base industrial capaz de produzir, adaptar e exportar soluções para a América Latina. A empresa criou em 2011 uma joint venture com a americana Carrier, da qual detém 51% de participação. No país, fabrica refrigeradores, máquinas de lavar e aparelhos de ar-condicionado residenciais e comerciais. O interesse chinês, nesse caso, não está só na venda direta, mas na combinação entre engenharia, fábrica e conhecimento das necessidades locais.

Os investimentos da Midea em Minas Gerais somam R$ 828 milhões, incluindo R$ 630 milhões destinados à fábrica de Pouso Alegre. A companhia afirma que o Brasil é seu segundo maior mercado fora da China. Produzir por aqui reduz dependências, encurta algumas rotas e permite testar produtos que podem chegar a outros países latino-americanos. É a velha fábrica, mas conectada a uma cadeia de decisões mais extensa.

O AliExpress, presente no Brasil há 15 anos, explora outra frente: a digitalização do varejo. Em 2024, fechou uma parceria com o Magazine Luiza para que cada plataforma vendesse produtos no endereço da outra. Eletrônicos, itens de beleza, ferramentas e material de escritório passaram a circular no Magalu; móveis, eletrodomésticos e eletroportáteis, no marketplace chinês.

Segundo Briza Bueno, diretora-geral do AliExpress no Brasil e na América Latina, apenas 15% do mercado brasileiro está digitalizado, contra cerca de metade nos Estados Unidos e na China. O comércio eletrônico chinês faturaria 80 vezes mais que o brasileiro, embora a população seja apenas 6,6 vezes maior. A diferença sugere espaço para crescer, mas também expõe a trava conhecida: a infraestrutura logística brasileira ainda está longe da integração chinesa.

Essa expansão chinesa muda apenas o que compramos?

Não: a expansão chinesa também reorganiza como produtos e serviços chegam ao consumidor brasileiro. A BYD instala infraestrutura para veículos elétricos; a 99 tenta juntar transporte individual, metrô e entrega; a Midea fabrica localmente; o AliExpress conecta vendedores e compradores; a Mixue transforma uma bebida gelada em franquia de massa. Cada empresa opera em um setor, mas todas dependem de escala, adaptação e capacidade de atravessar um país de dimensões continentais.

Há uma tensão nessa estratégia. Escala reduz custos, mas o Brasil tem cidades, hábitos, impostos e distâncias que não obedecem ao mesmo desenho da China. O produto precisa ser local; a operação, também. Talvez seja essa a parte menos fotogênica da expansão: antes de conquistar o consumidor, é preciso resolver fábrica, recarga, entrega, bilhete, franquia e margem. A China chegou ao balcão. Agora precisa aprender o caminho até a porta.

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