A crosta da Itália está se abrindo como um zíper — entenda o mecanismo

Os Apeninos, a “espinha” geológica da Itália, não estão apenas sendo comprimidos pela colisão de placas tectônicas. Em alguns trechos, a crosta se estende; em outros, é empurrada. Um novo estudo propõe que esse comportamento aparentemente contraditório resulta de um processo parecido com abrir um zíper: a parte inferior da crosta e da litosfera se separa da camada superior, enquanto a frente dessa ruptura migra pela cadeia montanhosa.

A Itália ocupa uma espécie de engarrafamento tectônico entre as placas Eurasiana e Adriática, ou Adria, uma microplaca associada à região. Essa colisão ajudou a formar os Apeninos ao longo de milhões de anos, mas não produziu uma montanha uniforme, crescendo como uma parede empurrada de baixo para cima. A cadeia tem setores sob compressão e outros sob extensão. Daí a comparação com um acordeão: a paisagem parece tocar duas notas geológicas ao mesmo tempo.

A situação também explica por que a Itália convive com risco sísmico elevado. O país está numa junção de placas em movimento e, segundo a European Facilities for Earthquake Hazard and Risk, permanece em um “regime de estresse constante”. Isso não significa que cada mudança na crosta provoque imediatamente um terremoto, mas indica uma região onde a deformação se acumula e se redistribui. O chão italiano tem uma agenda própria, e ela não costuma aceitar adiamentos.

 

Por que a teoria do recuo da placa não basta?

A teoria do recuo da placa explica parte da formação dos Apeninos, mas não descreve sozinha a deformação atual da cadeia. Nesse modelo, uma antiga placa oceânica afunda e recua em direção ao manto, abrindo espaço para a extensão da crosta e contribuindo para o surgimento do mar Tirreno, a oeste da Itália.

O problema apareceu quando os pesquisadores observaram que o ritmo dessa abertura diminuiu há aproximadamente 2 milhões de anos. A compressão na frente da cadeia também perdeu intensidade, mas a deformação continuou. Se o recuo da placa fosse o motor principal, a máquina deveria ter desacelerado junto. Não desacelerou completamente. O estudo, publicado na revista Communications Earth & Environment e liderado por cientistas da Universidade de Florença, sugere que outro mecanismo passou a dominar a paisagem.

Esse mecanismo é a delaminação. A palavra parece saída de uma gráfica, mas descreve algo bem físico: a crosta inferior e a parte profunda da litosfera se desprendem da crosta superior e afundam no manto. A superfície responde a essa perda de sustentação com movimentos diferentes em cada lado. Atrás da frente de separação, a crosta se estica; adiante dela, continua sendo comprimida — não, o contrário não acontece ao mesmo tempo no mesmo ponto —, e é justamente essa distribuição que dá aos Apeninos o seu desenho irregular.

Como funciona o “zíper” dos Apeninos?

O “zíper” geológico é uma frente de delaminação concentrada numa zona de dobradiça que migra em direção ao foreland Adriático. Essa frente controla a evolução atual dos Apeninos no espaço e no tempo, segundo a interpretação dos pesquisadores.

Para localizar o processo, a equipe combinou décadas de dados de terremotos e GPS com informações geológicas, geodésicas e sísmicas. Também analisou os limites da descontinuidade de Mohorovičić, ou Moho, a fronteira entre a crosta e o manto. Em uma faixa de cerca de 500 quilômetros, as estruturas da Moho dos lados Tirreno e Adriático se sobrepõem. Essa área forma a dobradiça onde o “zíper” avança.

Os números dão escala ao movimento. Atrás da dobradiça migratória, a crosta se estende aproximadamente 4 milímetros por ano. À frente dela, a compressão chega a 2 milímetros por ano. Parece pouco. Em uma vida humana, quase nada; em milhões de anos, suficiente para reorganizar uma cadeia de montanhas, abrir bacias e alterar a distribuição do estresse sísmico.

Os autores afirmam que a delaminação já ocorria pelo menos desde o Mioceno tardio, há cerca de 10 milhões de anos, e não começou de repente quando o recuo da placa perdeu força. O que mudou, por volta de 2 milhões de anos atrás, foi o equilíbrio entre os mecanismos. A antiga dinâmica continuou como parte da história, mas deixou de explicar o presente. Talvez seja essa a lição mais interessante: montanhas não precisam de um único motor, apenas de tempo suficiente para revelar qual deles assumiu o volante.

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