As bets estão chegando cada vez mais cedo à vida de crianças, adolescentes e jovens, e a facilidade de apostar pelo celular amplia o risco de dependência. Grupos de apoio já relatam a chegada de adolescentes de 14 anos, enquanto pesquisas associam as apostas a dívidas, abandono de cursos e agravamento de problemas de saúde mental. Não se trata apenas de perder dinheiro numa noite ruim. Quando a aposta começa a organizar o dia, o sono e as decisões, ela deixou de ser entretenimento.
Luiz Carlos*, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, afirma que hoje recebe pessoas de 14, 15, 16, 19 e 20 anos, além de adultos de até 35. Alguns chegam acompanhados por psiquiatras. A mudança chama atenção porque, durante muito tempo, o jogo problemático era associado a ambientes específicos, como cassinos clandestinos, máquinas e casas de bingo. Agora, basta um telefone conectado. O cassino cabe no bolso e não cobra deslocamento.
Por que os jovens são mais vulneráveis às bets?
Os jovens são mais vulneráveis porque o sistema cerebral ligado à recompensa amadurece antes das áreas responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos. A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o adolescente sente com intensidade o prazer de ganhar, mas ainda não dispõe do mesmo aparato para interromper a aposta seguinte. A promessa de dinheiro rápido encontra, portanto, uma capacidade de julgamento ainda em formação.
Dados do Unicef indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar on-line até os 11 anos. A partir dos 12 anos, o número chega a 78%, segundo dados de 2021 apresentados no levantamento. No Brasil, uma pesquisa divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação ouviu 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio e apontou que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos.
O celular torna a exposição contínua. A propaganda aparece no mesmo aparelho usado para estudar, conversar e assistir a vídeos, muitas vezes misturada a conteúdos de influenciadores ou canais voltados ao público infantil. Um estudo do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) identificou o uso da falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais. A criança não precisa procurar um balcão. O balcão já está na tela.
Como a compulsão por apostas destrói o controle financeiro?
A compulsão destrói o controle financeiro quando a aposta passa a disputar dinheiro com despesas básicas e planos de longo prazo. Tiago Braga, diretor do Ibict, resume a lógica de maneira pouco sedutora, mas necessária: aposta não é investimento; é gasto. Quanto mais recursos são destinados ao jogo, menos sobra para aluguel, comida, roupas e educação.
Gustavo Pereira começou a apostar on-line aos 18 anos e, em seis anos, perdeu R$ 500 mil. Ele conta que já transformou R$ 10 mil em R$ 300 mil, além de alcançar R$ 200 mil e R$ 240 mil em outras ocasiões. Depois, perdeu tudo. O dinheiro ganhou uma espécie de valor fictício dentro da plataforma, e a distância entre saldo e vida real desapareceu. A ganância, diz ele, passou a comandar as decisões.
Hoje, aos 24 anos, Gustavo afirma estar há cerca de dois meses sem apostar e tenta reconstruir a rotina vendendo café nas ruas de Lages, em Santa Catarina. No perfil Café do Guga, no Instagram, publica o trabalho e fala sobre recaídas e recuperação. Antes, dormia pensando em apostar e acordava pensando no mesmo assunto. No caminho, enfrentou depressão e síndrome do pânico. Recuperar-se, nesse caso, não é apenas fechar um aplicativo; é reaprender a medir o tamanho do dinheiro.
Quais são os sinais de que a aposta virou dependência?
A aposta pode ter virado dependência quando compromete contas, renda, sono, relacionamentos ou planos de estudo, e quando a pessoa tenta parar sem conseguir. Rogério*, frequentador dos Jogadores Anônimos, relata que no início tudo parecia inofensivo. A percepção mudou quando as apostas começaram a dificultar o pagamento das despesas e a consumir o orçamento. O sinal não está somente no valor perdido, mas no espaço que o jogo ocupa.
Carla Xavier*, de 41 anos, afirma que muitos integrantes procuram ajuda apenas depois de perder quase tudo, acumular dívidas e desacreditar da própria vida. Segundo ela, alguns chegam pensando em suicídio. A expansão das apostas on-line agravou esse quadro porque a possibilidade de jogar permanece disponível dia e noite. Uma máquina distante exigia sair de casa. A plataforma acompanha o usuário até a cama.
Luiz Carlos, hoje com 71 anos, conhece a repetição desse ciclo. Na década de 1980, jogava em máquinas de videopôquer e saía de madrugada prometendo não voltar. No dia seguinte, estava diante do painel novamente, às vezes machucado e chorando. Ele está há 15 anos sem jogar. Carla e Rogério estão há mais de um ano afastados das apostas, enquanto Rodrigo*, de 47 anos, soma seis meses. A abstinência veio com apoio coletivo, não com uma promessa solitária.
Como as bets interferem nos estudos e no futuro?
As bets já interferem na educação ao deslocar dinheiro de mensalidades, cursos, idiomas e atividades físicas. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) mostra que 34% dos entrevistados precisariam parar de gastar com apostas para iniciar uma graduação em 2026. Entre estudantes do ensino superior, 14% disseram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso por causa desses gastos.
O levantamento também aponta que 34% deixaram de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado, enquanto 33% abandonaram gastos com academia ou atividades físicas. Paulo Chanan, diretor-geral da entidade, afirma que não é possível generalizar o comportamento dos jovens. É possível, porém, reconhecer que uma parcela relevante já está escolhendo entre a aposta e a própria formação.
O Ibict estimou que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, e quase metade teria ficado endividada. Os números não transformam todo apostador em dependente, mas tornam difícil tratar o fenômeno como uma diversão sem consequência. Escolas e instituições de ensino podem informar, acolher e encaminhar estudantes para atendimento, sem assumir sozinhas uma tarefa que também envolve saúde, regulação, comportamento e políticas públicas.
Para quem percebe perda de controle, procurar ajuda cedo pode evitar que a dívida vire desespero. A irmandade Jogadores Anônimos reúne pessoas que compartilham experiências e estratégias de abstinência. Familiares também precisam observar mudanças bruscas no sono, no humor, no uso do dinheiro e no isolamento, sem transformar a conversa em julgamento. O jovem que pede auxílio não está confessando uma falha moral; está tentando recuperar uma vida que passou a caber dentro de uma aposta.
*Os sobrenomes de alguns entrevistados foram omitidos a pedido deles.



