Veja como 10 obras transformaram Maria Madalena em santa, pecadora e espelho do seu tempo

Poucas personagens bíblicas foram reinventadas tantas vezes quanto Maria Madalena. Nos Evangelhos, ela aparece como discípula de Jesus e testemunha da ressurreição; na tradição artística, ganhou cabelos dourados, vestido vermelho, caveira, sensualidade, sofrimento e, mais recentemente, autonomia. O problema é que essas imagens misturam pessoas diferentes. A exposição Maria Madalena: Pecado. Oração. Amor, em cartaz no Museu Städel, em Frankfurt, reúne dez obras para examinar justamente essa confusão — e mostrar como cada época inventou a mulher que precisava enxergar.

Por que Maria Madalena foi associada a tantas personagens?

Maria Madalena foi confundida, ao longo dos séculos, com a pecadora anônima que unge os pés de Jesus, com Maria de Betânia e com a mulher acusada de adultério. A Bíblia não afirma que essas figuras sejam a mesma pessoa. Ainda assim, a tradição ocidental juntou suas histórias até formar uma personagem única, mais extensa e dramática do que os relatos bíblicos permitem.

O historiador da arte Bastian Eclercy, um dos curadores da mostra, resume a operação dizendo que existem “três Marias Madalenas em uma”: a pecadora anônima, Maria de Betânia e a Madalena bíblica, estritamente falando. A exposição organiza essa herança em três palavras: “pecado”, para a penitente; “oração”, para a santa e discípula; e “amor”, para as noções de devoção e intimidade associadas a ela. O resultado é menos uma biografia do que um mapa das expectativas projetadas sobre as mulheres.

O Desafio, de Nieves González (2025)
O Desafio, de Nieves González (2025)

Como a arte medieval transformou Madalena em santa?

A arte medieval transformou Madalena em uma asceta sobrenatural, capaz de trocar a vida mundana pela penitência e pela proximidade com o céu. Essa versão aparece em A Elevação de Santa Maria Madalena, xilogravura de Albrecht Dürer produzida por volta de 1504-05.

Na obra, Madalena está nua e é erguida por seis anjos. A cena não vem diretamente dos Evangelhos, mas da Legenda Áurea, compilação do século 13 atribuída ao escritor e arcebispo italiano Jacobus de Voragine, que morreu por volta de 1298. Segundo essa narrativa popular, Madalena teria se retirado para o sul da França em busca de isolamento. Como não havia comida no deserto, anjos a levariam sete vezes por dia ao paraíso, onde ela ouviria música como alimento espiritual. É uma imagem estranha, mesmo para os padrões da santidade medieval: a fome desaparece, substituída por uma dieta de transcendência.

Em Maria Madalena no Sepulcro, pintada por Giovanni Girolamo Savoldo entre 1535 e 1540, a identificação é menos imediata. Um pequeno vaso no canto esquerdo e o vestido vermelho, parcialmente visível sob um manto prateado, funcionam como pistas. O vaso lembra o recipiente de alabastro ligado à mulher que ungiu os pés de Jesus; o vermelho, associado à sensualidade e ao perigo, reforça uma leitura que a tradição já esperava encontrar.

De onde veio a imagem de Madalena pecadora?

A imagem de Madalena como pecadora nasceu menos de uma declaração bíblica do que da repetição cultural de uma associação. Não existe nas Escrituras uma indicação direta de que a mulher pecadora tenha cometido uma transgressão sexual, muito menos de que fosse profissional do sexo.

Mesmo assim, essa interpretação dominou boa parte da arte ocidental. Em Madalena Penitente, de Guido Cagnacci, realizada entre 1626 e 1627, o corpo e a expressão da personagem carregam a tensão entre desejo e arrependimento. A caveira que ela segura é um símbolo tradicional da brevidade da vida e da necessidade de preparar a alma para a morte. O objeto é pequeno, mas faz um serviço pesado: transforma uma mulher em lição moral.

A pintura também revela uma permissão curiosa concedida aos artistas. Madalena podia ser representada como atraente ou levemente sexualizada porque sua imagem sagrada já vinha acompanhada de pecado. Outros santos não recebiam o mesmo tratamento com tanta facilidade. A penitente oferecia uma saída conveniente: era possível pintar o desejo e, ao mesmo tempo, alegar que se estava pintando a redenção.

Simon Vouet leva a mistura de personagens ainda mais longe em Marta Repreende sua Vaidosa Irmã Maria Madalena, de 1621. A cena mostra Madalena diante de um toucador, sendo repreendida por Marta por sua vaidade. O episódio não está na Bíblia. Ele funciona porque a tradição já havia colado Madalena a Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro. A historiadora da arte Marina Warner chamou esse processo de “confusão de Marias”: os artistas não precisavam separar as personagens, desde que a combinação produzisse a história desejada.

A penitência podia ser mais do que erotismo?

A penitência podia ser representada como introspecção, e não apenas como erotismo disfarçado de devoção. Madalena Penitente em Meditação, de Georges de La Tour, produzida entre 1635 e 1640, escolhe esse caminho mais silencioso.

Na pintura, espelhos, velas e outros sinais sugerem passagem do tempo, mortalidade e autorreflexão. A personagem não precisa posar como um objeto de desejo para ocupar o centro da cena. Há uma Madalena interior, concentrada num pensamento que não se entrega ao observador. A mudança parece discreta, mas não é pouca coisa: uma mulher religiosa deixa de ser somente exemplo de queda e passa a ser sujeito de consciência.

Lavinia Fontana havia pintado uma Madalena diferente algumas décadas antes, em Jesus Aparece a Maria Madalena, de 1581. A obra é uma das primeiras representações da santa feitas por uma artista mulher, embora não seja possível identificar nela, com segurança, um “olhar feminino”. Fontana se baseia na passagem em que Maria confunde Jesus ressuscitado com um jardineiro. Ele veste roupas de trabalhador italiano do século 16, com túnica e chapéu de abas largas. A ressurreição aparece, portanto, mediada por um equívoco cotidiano: antes de reconhecer o milagre, Madalena reconhece um homem no jardim.

Como as obras modernas mudaram o luto e o perdão?

As obras modernas deslocaram Madalena da posição de mulher subjugada para a de testemunha que sente, reage e ocupa espaço. Em A Dor de Madalena sobre o Corpo de Cristo, de Arnold Böcklin, pintada em 1867, ela aparece de pé ao lado do corpo morto de Jesus, tomada por um luto intenso.

Böcklin não a reduz à penitente sensual nem à figura silenciosa que espera uma instrução. Ela lamenta. Segundo Eclercy, Madalena assume de certa forma o papel tradicionalmente atribuído à Virgem Maria, expressando o máximo de dor diante da morte de alguém amado. A troca é significativa: a personagem antes usada para falar do pecado passa a carregar a força pública da perda.

Em Cristo e a Pecadora, também conhecida como Cristo e a Adúltera, Max Beckmann retoma, em 1917, a passagem da mulher ameaçada de apedrejamento por uma multidão. A Bíblia não identifica essa mulher como Maria Madalena, mas a tradição fez a associação. A pintura de Beckmann oferece uma leitura menos interessada em punição e mais próxima da tolerância. A diferença importa porque versões anteriores frequentemente usavam a personagem para representar aquilo que certos observadores imaginavam ser o pior destino possível para uma mulher: a sexualidade fora de controle.

O que essas imagens dizem sobre o presente?

As imagens contemporâneas usam Madalena para discutir reputação, beleza, raça e autonomia. Em Naomi Campbell como Maria Madalena, de Marlene Dumas, de 1996, a supermodelo aparece como a santa. A escolha não é uma simples atualização visual. Ela aproxima a personagem de questões de celebridade e reputação, justamente temas que acompanharam Madalena por séculos.

A Bíblia oferece poucas informações sobre sua aparência física. A arte ocidental, entretanto, preferiu apresentá-la repetidamente como uma mulher jovem e branca. Ao usar Naomi Campbell, Dumas interrompe essa imagem automática e obriga o público a perceber que até a aparência de uma personagem quase sem descrição foi transformada em norma. A obra também funciona como espelho: talvez revele menos quem Madalena foi do que aquilo que cada sociedade considera belo, culpado ou digno de devoção.

Para a professora de estudos cristãos Siobhan Jolley, muitas pessoas mantêm uma relação quase parassocial com Maria Madalena. Sentem que a conhecem por causa da cultura popular e das pinturas, embora saibam pouco sobre a personagem bíblica. É uma intimidade curiosa: familiaridade sem documento, afeto baseado numa coleção de imagens.

O Desafio, de Nieves González, realizada em 2025, encerra a seleção com uma Madalena que ainda conserva sinais tradicionais — cabelo loiro-avermelhado, roupas vermelhas e caveira —, mas veste um casaco acolchoado grande demais e encara o observador sem pedir licença. Para Eclercy, ela é jovem e autoconfiante; para Jolley, a obra trata de domínio e autonomia. O olhar parece devolver a pergunta: o que você quer dizer sobre mim?

A exposição Maria Madalena: Pecado. Oração. Amor fica no Museu Städel, em Frankfurt, de 17 de setembro de 2026 a 17 de janeiro de 2027. Dez obras não resolvem a identidade de uma personagem que a tradição passou séculos embaralhando. Talvez esse seja o ponto: diante de Madalena, o espelho continua dizendo mais sobre quem olha do que sobre quem está nele.

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