Veja o que o Projeto Mogul revelou sobre o caso Roswell

Durante 47 anos, o governo dos Estados Unidos manteve em segredo um programa que ajudaria a explicar o suposto disco voador de Roswell. O objeto encontrado no deserto do Novo México, em 1947, não era uma nave extraterrestre, segundo a explicação divulgada pela Força Aérea em 1994, mas parte do Projeto Mogul: uma operação de vigilância aérea criada no começo da Guerra Fria. O segredo era real. Os alienígenas, ao que tudo indica, entraram depois.

O contexto ajuda a entender por que um balão experimental ganhou uma vida tão comprida. A Segunda Guerra Mundial ainda fumegava quando Estados Unidos e União Soviética começaram a desenhar uma fronteira feita menos de trincheiras e mais de conferências, doutrinas e inteligência clandestina. Em 1947, Washington temia que Moscou desenvolvesse sua própria arma de fissão, algo que aconteceria em 1949. Era preciso observar o adversário sem mandar aviões para dentro do espaço aéreo soviético. Um balão, silencioso e alto, parecia uma solução bastante razoável.

O que era o Projeto Mogul?

O Projeto Mogul era um sistema de balões equipado para monitorar ondas sonoras na alta atmosfera e tentar detectar sinais associados a testes nucleares soviéticos. A resposta é essa, sem capa de ficção científica: não se tratava de uma missão para encontrar marcianos, mas de uma experiência de vigilância atmosférica.

Pesquisadores da Universidade de Nova York desenvolveram uma tecnologia de balões capazes de manter altitude constante, além de equipamentos de telemetria para transmitir os dados a estações em terra. O programa também se relacionava a propriedades geofísicas da atmosfera superior, propagação de ondas de rádio e radar, física da ionosfera, magnetismo terrestre e previsão do tempo. A lista parece excessiva porque era mesmo. Projetos secretos raramente cabem numa única gaveta.

Um relatório da Reserva da Força Aérea dos Estados Unidos descreveu o emprego de aviões bombardeiros e de transporte, além de dois navios oceânicos. Em determinado momento, mais de cem pessoas trabalhavam diretamente no projeto, sem contar contratados. A ciência fazia sentido, mas o custo e as dificuldades operacionais reduziram sua utilidade. Com o tempo, aeronaves de reconhecimento substituíram os balões. O sigilo, contudo, ficou pairando sobre o deserto.

O episódio de Roswell começou em 14 de junho de 1947, quando o fazendeiro W. W. Bazel e seu filho, Vernon, encontraram destroços a cerca de 80 milhas — aproximadamente 129 quilômetros — a noroeste de Roswell, no Novo México. Em 7 de julho, Bazel levou o material ao xerife George Wilcox, que também não soube explicar aquela sucata estranha. No dia seguinte, o Roswell Daily Record publicou que o campo aéreo do Exército havia capturado um “disco voador”.

Por que Roswell virou uma história de alienígenas?

Roswell virou um símbolo ufológico porque o material encontrado foi rapidamente associado a um disco voador, enquanto os militares afirmaram que se tratava de um balão meteorológico. A explicação oficial era curta, pouco transparente e incapaz de satisfazer quem havia visto os destroços.

O fazendeiro discordou da avaliação, conforme registrou o Roswell Morning Dispatch no dia seguinte. Depois disso, o caso perdeu força e praticamente desapareceu da memória pública. A história voltou em 1980, com a publicação do livro The Roswell Incident, que apresentou a versão do balão como uma cobertura para algo muito mais estranho. A engrenagem da conspiração estava pronta: um anúncio confuso, um programa secreto e três décadas de silêncio. Não precisava de muito mais combustível.

Em 1994, quase cinquenta anos depois da criação do Projeto Mogul, a Força Aérea publicou um relatório afirmando que o suposto disco era, na verdade, o NYU Flight 4, um balão espião lançado originalmente em 4 de junho de 1947 e posteriormente derrubado no deserto. A explicação conectava as datas e oferecia uma identidade ao objeto, mas chegava tarde. Quando o governo finalmente abriu a gaveta, a cultura popular já havia construído um hangar inteiro ao redor dela.

O caso, portanto, foi oficialmente encerrado como um episódio de espionagem atmosférica, mas não como mito. Roswell ainda se apresenta como a “Capital Mundial dos Alienígenas”, abriga um museu internacional de ufologia e usa um disco voador no logotipo de seu site turístico. Talvez o relatório explique os destroços; não explica por que tantas pessoas preferem uma nave a um balão. O coronel Albert C. Trakowski, veterano do Projeto Mogul, resumiu a dificuldade em 1994: “As pessoas acreditam no que querem acreditar”. E o deserto continua sem testemunhar nada.

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