A aposta de US$ 400 milhões que tenta devolver a visão com mitocôndrias

Quando a filha Lucy, de 26 anos, sofreu uma hemorragia cerebral e perdeu a capacidade de se mover, falar e enxergar, Bill Ackman reagiu como um homem acostumado a transformar problemas em projetos. O bilionário acionou hospitais, especialistas e contatos internacionais. Depois, apostou numa terapia experimental: transferir mitocôndrias do músculo da perna da filha para os olhos, numa tentativa inédita de recuperar parte da visão. O primeiro resultado foi modesto e temporário. Ainda assim, o caso expõe algo maior que uma emergência familiar: a entrada cada vez mais agressiva de fortunas privadas em tratamentos pouco testados, enquanto o financiamento público da ciência encolhe.

O que aconteceu com a filha de Bill Ackman?

A filha de Bill Ackman sofreu uma hemorragia cerebral em fevereiro e perdeu movimentos, fala e visão, segundo o relato divulgado pela família. Lucy estava em seu apartamento, no Brooklyn, quando desabou. Depois, foi encaminhada ao Mount Sinai Hospital, em Nova York, onde recebeu atendimento especializado. O pai mobilizou uma rede internacional de médicos e pesquisadores, movido por uma disposição quase mecânica para encontrar soluções. A expressão “Mr. Fix-It”, usada por pessoas próximas para descrevê-lo, resume a postura: diante de uma catástrofe, ele não se limita a esperar. Organiza equipes, procura alternativas e tenta acelerar o calendário da medicina, que costuma ser menos obediente que uma planilha de investimentos.

A gravidade do quadro levou os médicos a considerar uma intervenção sem histórico anterior em olhos humanos. David Putrino, neurocientista do Mount Sinai responsável pelo atendimento, Chris Kellner e outros pesquisadores já estudavam transplantes de mitocôndrias havia cerca de um ano. Um estudo publicado na revista Nature mostrou que o procedimento ajudara um camundongo a se recuperar de uma lesão que havia esmagado seu nervo óptico. Para a equipe, aquele resultado criou uma janela estreita para tentar algo semelhante em uma pessoa sem alternativa convencional disponível. A autorização foi solicitada em caráter emergencial, e a Food and Drug Administration, a FDA, liberou o uso compassivo da terapia em maio, de acordo com Ackman.

Como funciona o transplante de mitocôndrias?

O transplante retira mitocôndrias do músculo da perna e as injeta nos olhos, buscando apoiar nervos ópticos danificados. Mitocôndrias são estruturas celulares conhecidas por produzir adenosina trifosfato, ou ATP, a molécula que armazena e fornece energia para as células. Durante muito tempo, a explicação terminava aí, como se elas fossem apenas pequenas usinas elétricas biológicas. Pesquisas recentes, porém, associaram as mitocôndrias a processos de limpeza celular, resposta a danos e regeneração. A hipótese do tratamento é que novas mitocôndrias possam ajudar tecidos lesionados a recuperar atividade. É uma hipótese biologicamente interessante, mas continua sendo uma hipótese, não uma tecnologia pronta para uso amplo.

Daria Mochly-Rosen, professora de biologia química e de sistemas da Stanford University School of Medicine, considera promissora a atenção dedicada à saúde mitocondrial. Outros cientistas, contudo, questionam se uma quantidade pequena de mitocôndrias consegue produzir efeito num organismo que depende de trilhões delas. Também existe dúvida sobre a sobrevivência dessas estruturas depois da implantação. A primeira transferência de mitocôndrias entre partes do corpo humano foi relatada em 2017, do músculo abdominal para o coração. Depois ocorreram dezenas de procedimentos, incluindo um transplante para o cérebro em 2024. Até o caso de Lucy, não havia registro de aplicação em olhos humanos.

A terapia recuperou a visão de Lucy?

A terapia permitiu que Lucy percebesse luz por algumas semanas, mas o benefício pareceu desaparecer depois de aproximadamente um mês. O resultado inicial foi descrito em um artigo submetido à Nature pela equipe de Putrino, ainda sem revisão por pares. O estudo também registrou que a injeção não causou dano aos olhos, uma medida especialmente relevante porque se tratava da primeira aplicação humana conhecida nessa região. Perceber luz está muito distante de recuperar a visão funcional, e a diferença não é detalhe semântico. É o limite entre um sinal fisiológico encorajador e uma promessa clínica que ainda não foi demonstrada.

Bill Ackman afirmou que os médicos trabalham numa maneira de repetir as injeções com maior frequência e declarou que as mitocôndrias têm “potencial incrível”. Putrino classificou a autorização emergencial como um primeiro passo para avaliar segurança e tolerabilidade, além de expressar esperança de que a abordagem possa alcançar outras condições neurológicas. O procedimento, porém, não estabeleceu eficácia, duração do efeito ou dose ideal. Também não mostrou que a visão de Lucy retornará ao estado anterior. O próprio Ackman reconheceu que a recuperação será difícil, embora diga estar otimista quanto à possibilidade de a filha voltar um dia ao funcionamento normal. A visão, afirmou, será a função mais difícil de recuperar.

Por que bilionários estão financiando longevidade?

Bilionários estão financiando terapias de longevidade porque têm capital, acesso e interesse direto em acelerar pesquisas sobre envelhecimento e reparo celular. Sam Altman, CEO da OpenAI, apoia a Retro Biosciences, empresa que pretende acrescentar dez anos saudáveis à vida humana por meio de reprogramação celular. Jeff Bezos é apontado como financiador da Altos Labs, dedicada a rejuvenescimento e resiliência celular. Peter Thiel, Sergey Brin e Larry Ellison também investem em estratégias de extensão da vida. Elon Musk cofundou a Neuralink, enquanto Max Hodak, cofundador da empresa, criou a Science, que captou centenas de milhões de dólares para desenvolver um implante retinal voltado a pessoas com degeneração macular relacionada à idade.

Esses investimentos não formam uma escola científica única. Reúnem empresas, laboratórios e apostas que variam de reprogramação celular a interfaces neurais e terapias mitocondriais. O elo é a ambição de tratar o envelhecimento como um problema técnico, algo que dinheiro, engenharia e tempo suficiente poderiam destravar. A influência política reforça esse movimento nos Estados Unidos. Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde, já disse usar protocolos experimentais de longevidade. Jim O’Neill, investidor do setor e ex-colega de Thiel, deixou uma posição no Departamento de Saúde e Serviços Humanos e foi indicado para dirigir a National Science Foundation. Defensores da longevidade também pressionam a FDA a classificar o envelhecimento como doença.

O dinheiro privado está ocupando o espaço da ciência pública?

O dinheiro privado ganha espaço na ciência porque o governo dos Estados Unidos reduziu projetos, comitês consultivos e equipes regulatórias, segundo os números divulgados. Uma análise citada no relato apontou pelo menos 2.700 projetos a menos apoiados pelo National Institutes of Health no ano fiscal de 2025, queda aproximada de 15% nos subsídios competitivos em relação ao período anterior. Mais de cem comitês consultivos de agências científicas teriam sido encerrados, conforme relatório publicado em abril pela revista Nature. A FDA também sofreu saída de funcionários. Nesse vácuo, bilionários entram com preferências pessoais, prazos próprios e uma tolerância a risco que a pesquisa pública, em tese, precisa administrar com mais cuidado.

Bill Ackman anunciou que pretende investir mais de US$ 400 milhões num instituto dedicado à pesquisa cerebral, reabilitação, recuperação, otimização humana e longevidade. O Ackman Oxman Institute, ainda chamado por ele de AOI “por falta de nome melhor”, deverá priorizar pacientes e não a produção de muitos artigos acadêmicos. Ackman disse ter recrutado um laureado do Nobel, um neurocientista de destaque e o CEO da Regeneron para o conselho. A iniciativa nasceu também de uma frustração com universidades, que ele considera menos atraentes por razões políticas, protestos, antissemitismo e queda de financiamento. A pergunta incômoda é quem define a agenda quando a filantropia começa a substituir instituições públicas: a comunidade científica ou o patrocinador?

O caso mostra avanço médico ou aposta de alto risco?

O caso combina um avanço experimental real com um risco alto, porque houve sinal inicial de benefício, mas ainda faltam evidências clínicas independentes. A autorização de uso compassivo não equivale à aprovação de um tratamento. Ela permite acesso imediato a uma terapia investigacional quando não há alternativa padrão para uma situação grave. Isso torna possível tentar o improvável, mas não transforma o improvável em comprovado. A equipe do Mount Sinai descreveu o processo regulatório como rigoroso, rápido e compassivo. Cientistas continuam divididos sobre a capacidade das mitocôndrias transplantadas de sobreviver e funcionar no tecido ocular. A primeira aplicação em olhos humanos responde a uma pergunta de segurança imediata; deixa muitas outras em aberto.

O episódio também revela como a tecnologia médica é apresentada quando encontra uma fortuna impaciente. Ackman publicou no X relatos longos, planos ambiciosos e a promessa de construir uma instituição capaz de reunir pesquisa, recuperação e otimização humana. A linguagem tem força mobilizadora, mas não substitui ensaios clínicos, acompanhamento prolongado e revisão por pares. Lucy recebeu uma tentativa extraordinária porque sua família tinha recursos para alcançar especialistas e abrir uma rota regulatória inédita. O próximo teste será menos cinematográfico e mais trabalhoso: descobrir se o efeito pode ser repetido, por quanto tempo, em quais pacientes e com quais riscos. A ciência, como sempre, cobra a conta em dados.

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