O Brasil ainda não sabe quantos entregadores se acidentam trabalhando porque os registros de trânsito e saúde não identificam a atividade por aplicativo, enquanto as plataformas não divulgam seus próprios dados. A lacuna transforma uma rotina visível nas ruas em estatística quase invisível. O caso de Silvio Luiz Pinheiro, ferido após o freio de uma bicicleta elétrica travar em São Paulo, mostra o problema no tamanho de uma clavícula machucada: há acidente, atendimento e afastamento, mas falta um sistema capaz de juntar essas peças.
Por que os acidentes de entregadores não entram nas estatísticas?
Os acidentes de entregadores não entram claramente nas estatísticas porque os sistemas públicos registram a ocorrência, mas não o vínculo com o trabalho por aplicativo. Sem essa informação, uma queda na ciclovia aparece apenas como acidente envolvendo ciclista. A base não informa se a pessoa estava passeando, indo para casa ou cumprindo uma entrega. Parece detalhe burocrático, mas é justamente o detalhe que define o problema de saúde e segurança do trabalho. O Brasil conta corpos, veículos e atendimentos; ainda não consegue contar a jornada que existia no instante do impacto.
Em São Paulo, dados do Detran mostram que as mortes em acidentes envolvendo ciclistas subiram de 320, em 2021, para 409, em 2025: aumento de 27,8%. O número é expressivo, mas não responde quantas vítimas eram entregadores. Os registros estaduais contabilizam ciclistas em geral, enquanto o Ministério da Saúde reúne notificações de atendimento hospitalar. Nenhuma dessas bases, historicamente, separava de modo confiável quem estava trabalhando por aplicativo. A estatística chega ao balcão, devolve a bicicleta e encerra o atendimento. O trabalho, como costuma acontecer quando há pressa, fica do lado de fora.
O que mudou nos registros de saúde desde 2025?
Desde abril de 2025, uma nota técnica do Ministério da Saúde orienta profissionais a registrar se a vítima trabalhava para aplicativos e estava em jornada no momento do acidente. A medida foi publicada após um projeto estratégico do Ministério Público do Trabalho, conduzido para enfrentar a subnotificação entre trabalhadores plataformizados. Ela corrige uma falha objetiva: antes, o formulário podia registrar o agravo, mas não a circunstância profissional que o produziu. Saber que houve uma queda é uma coisa; saber que centenas de quedas ocorrem durante entregas é outra, com consequências administrativas e políticas muito diferentes.
Um ano depois, porém, ainda não havia estatísticas consolidadas para medir se a orientação estava sendo aplicada pelas unidades de saúde. Rodrigo Castilho, procurador do trabalho e coordenador nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do MPT, afirmou que o próximo passo seria verificar a aplicação efetiva da recomendação. O instrumento existe; a série histórica, não. É o tipo de modernização que produz uma nota técnica antes de produzir uma planilha confiável. Sem compilação, o país continua dependente de relatos individuais e da impressão — plausível, mas insuficiente — de que os acidentes estão aumentando.
Quantos entregadores trabalham por aplicativos no Brasil?
Em 2024, 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por aplicativos no Brasil, alta de 25,4% em dois anos, segundo o IBGE. Esse contingente equivalia a 1,9% dos ocupados no setor privado e incluía motoristas e entregadores. O transporte de passageiros reunia 58,3%, ou 964 mil trabalhadores; as entregas representavam 29,3%, cerca de 485 mil pessoas. A dimensão do grupo torna a ausência de dados sobre acidentes ainda mais estranha. Não se trata de uma ocupação marginal, escondida num canto da economia. É uma população numerosa trabalhando em ruas onde cada cruzamento funciona como uma pequena roleta sem croupier.
A renda média dos trabalhadores plataformizados era de R$ 2.996, em jornadas superiores a 40 horas semanais, enquanto o rendimento médio da população brasileira chegou a R$ 3.367 em 2025. Esses números ajudam a explicar por que o acidente não é apenas um episódio físico: ele também ameaça a renda, a continuidade do trabalho e a capacidade de pagar despesas. Silvio abandonou temporariamente as entregas e voltou a um emprego com carteira assinada para ter acesso a convênio médico. Depois, retornou ao aplicativo, em parte porque pedalar ajudava a controlar o peso e recuperava um prazer antigo. A necessidade econômica e o prazer podem ocupar a mesma bicicleta.
Como o acidente mudou a rotina de Silvio Pinheiro?
O acidente levou Silvio Pinheiro a interromper as entregas porque uma queda provocada pelo travamento do freio lesionou sua clavícula e seu cotovelo. Na Avenida Sumaré, em São Paulo, ele desviou de pedestres na ciclovia, perdeu estabilidade sobre areia e caiu. Para proteger o rosto, apoiou o braço esquerdo, num reflexo automático. Ao devolver a bicicleta alugada, ainda machucado, esperava alguma reação da central de locação. Segundo ele, os funcionários apenas confirmaram a devolução e concluíram os procedimentos. A preocupação parecia concentrada no equipamento que voltara ao balcão, não no trabalhador que chegara ferido.
Silvio descreveu o atendimento como frio e disse que quase desistiu da profissão. Hoje, considera-se 99,9% recuperado, mas o acidente alterou seu cálculo diário de risco. Ele prefere trabalhar depois das 20h, quando há menos carros e calor, e costuma pedalar até meia-noite; em dias bons, chega a uma ou duas da manhã pelos bairros da República, Santa Cecília e Barra Funda. Durante a jornada, divide a atenção entre trânsito, pedestres e notificações do aplicativo. A meta é faturar R$ 200, com R$ 100 como mínimo. Segurança entra na conta, mas nunca recebe uma linha separada na tela.
Que proteção as plataformas oferecem aos entregadores?
As plataformas afirmam oferecer medidas de segurança e seguros, mas ainda falta transparência para verificar quantos entregadores recebem assistência após um acidente. O iFood declarou que não incentiva comportamentos de risco, permite recusar pedidos sem prejuízo e oferece seguro contra acidentes pessoais, auxílio financeiro durante afastamentos e canal para comunicar ocorrências. A 99Food informou que calcula tempos de entrega com tecnologia, orienta o respeito às leis de trânsito e mantém seguro durante o período conectado. A Keeta afirmou adotar prazos que não estimulam excesso de velocidade, políticas de prevenção e cobertura securitária.
Para Castilho, declarações empresariais não substituem dados verificáveis. O MPT não sabe quantos entregadores estão ativos, quantos trabalham oito, dez ou mais de doze horas por dia, nem quantos foram efetivamente beneficiados pelos seguros e auxílios. A diferença entre cobertura anunciada e proteção recebida mora nessa contagem. Um seguro restrito à morte também não equivale à rede previdenciária de um emprego formal, que inclui afastamento por doença, acidente ou invalidez temporária. Em março de 2024, o governo federal apresentou proposta para regulamentar motoristas de aplicativo, mas os entregadores ficaram de fora. A bicicleta continua rodando; a regra continua parada.



