Margery Booth foi uma cantora lírica inglesa celebrada na Alemanha nazista que transformou o acesso aos círculos de poder em uma operação de espionagem para a Grã-Bretanha. Admirada por Adolf Hitler, Hermann Göring e Joseph Goebbels, ela reuniu informações militares, protegeu perseguidos e quase pagou com a vida por isso. No pós-guerra, porém, sua reputação artística foi destruída pela suspeita de ter colaborado com os alemães. A história tem a ironia precisa de um libreto: a mulher que cantava para o regime escondia, nos bastidores, informações capazes de prejudicá-lo.
Como Margery Booth se tornou próxima de Hitler?
Margery Booth se aproximou da elite nazista porque sua carreira de mezzo-soprano alcançou o Festival de Bayreuth, centro simbólico do culto a Wagner e ao nacional-socialismo. Em 1933, ela foi convidada a cantar em Parsifal e recebeu a honra de carregar o Santo Graal durante a ópera. Depois da apresentação, encontrou no camarim um buquê de rosas vermelhas, preso por uma faixa com uma suástica.
Hitler, que assumira o cargo de chanceler naquele mesmo ano, frequentava o festival e tratava Wagner como compositor compatível com os ideais do partido. Booth logo entrou para sua lista de intérpretes prediletas. Quando foi hospitalizada após cantar Parsifal e Götterdämmerung no festival seguinte, Hitler ordenou que funcionários vigiassem seu estado, enquanto Göring e Goebbels enviaram mensagens de solidariedade. Em 1936, ela assinou contrato com a Ópera de Berlim e se casou com o acadêmico alemão Egon Strohm.
Como a cantora usou o prestígio para espionar?
Booth usou sua fama, seus contatos e a aparência inofensiva de uma artista para transmitir informações militares aos britânicos durante a guerra. Mensagens sensíveis eram escondidas em sua roupa íntima, estratégia que lhe rendeu o apelido de “Knicker Spy”, uma alcunha prosaica para uma atividade nada prosaica.
Depois de voltar de uma temporada na Inglaterra, em 1938, Booth encontrou uma Alemanha inteiramente submetida ao fascismo. Seu marido passou a trabalhar como comentarista de uma rede de rádio nazista comandada por Goebbels, e ela se tornou cidadã alemã por naturalização. Ainda assim, cantou para prisioneiros de guerra aliados mantidos em Stalags e Oflags. Em um desses campos, apareceu com um vestido coberto de papoulas e interpretou canções patrióticas britânicas. O oficial britânico John Brown reconheceu nela uma possível agente e, depois, os dois organizaram reuniões disfarçadas de jantares no apartamento da cantora. Militares revelavam planos alemães; Booth ajudava a fazê-los atravessar a fronteira invisível entre conversa e inteligência.
Quais informações Booth entregou aos Aliados?
Booth entregou aos britânicos dados sobre movimentos do Eixo, documentos militares e as especificações do tanque Tiger, observadas durante uma celebração de aniversário de Hitler. Ela memorizou os detalhes transformando características técnicas em música, método que lhe permitiu transportar uma ficha inteira sem carregar papel.
Em outra operação, depois da tentativa de assassinato contra Hitler em 20 de julho de 1944, a vigilância se apertou. Mesmo assim, Booth caminhou à noite até os jardins do palácio de Cecilienhof e enterrou uma pilha de documentos de Brown. Também escondeu uma mulher judia em seus aposentos e usou o espaço para auxiliar outras fugas. A espionagem, nesse caso, não foi apenas uma coleção de segredos militares: foi uma sequência de decisões físicas, perigosas e irreversíveis, tomadas dentro de uma casa que o regime imaginava controlar.
Por que Margery Booth não foi reconhecida depois da guerra?
Margery Booth não recebeu o reconhecimento esperado porque sua proximidade pública com o nazismo alimentou suspeitas, enquanto suas atividades clandestinas permaneceram pouco conhecidas. No início de 1945, a Gestapo a prendeu e interrogou por suspeita de colaboração com os britânicos, mas a libertou por falta de provas.
Depois, ela precisou comparecer duas vezes por mês à sede da Gestapo, sob ameaça de deportação para um campo de concentração. Sobreviveu, testemunhou contra desertores que acabaram condenados por alta traição e voltou à Grã-Bretanha após a guerra. Ainda assim, a carreira artística não se recuperou: muitos concluíram que ela havia confraternizado com os alemães, justamente quando trabalhava contra eles. Booth viajou a Nova York em busca de uma nova oportunidade de cantar, mas morreu de câncer terminal em 1952. Pedidos de honrarias póstumas surgiram apenas depois de sua morte. A artista que transitava pelos palcos mais protegidos do Reich terminou esquecida na coxia.




