Veja como um inseto de 324 milhões de anos ajuda a explicar as seis patas

Os insetos modernos carregam no próprio nome a regra que parece definitiva: são hexápodes, animais com seis patas. Um fóssil encontrado no Texas, nos Estados Unidos, complica essa fotografia familiar. Com 324 milhões de anos e cerca de 49 milímetros de comprimento, Chosha praecursor tinha seis membros no tórax, aparentemente usados para caminhar, além de apêndices em nove segmentos do abdômen. O animal não era um inseto moderno com peças extras, mas um retrato raro de uma etapa anterior da evolução. O estudo que descreve a espécie foi publicado em 26 de agosto na revista Nature.

O que o fóssil revela sobre o inseto de 24 patas?

O fóssil revela que a configuração com seis patas locomotoras provavelmente surgiu depois de uma fase em que os ancestrais dos insetos tinham apêndices distribuídos por mais segmentos do corpo. No caso de C. praecursor, as estruturas do abdômen não se parecem exatamente com pernas. Suas extremidades modificadas lembram remos, uma anatomia compatível com um modo de vida semiaquático. O bicho talvez circulasse em ambientes de transição entre terra e água, onde um conjunto extra de apêndices ajudava mais a nadar ou manobrar do que a desfilar sobre o solo. A natureza, aqui, não está apresentando um monstro de filme B; está mostrando uma solução provisória.

A equipe analisou três fósseis associados a um grupo ancestral de insetos primitivos. Juntos, eles preenchem uma lacuna no registro evolutivo inicial desses animais. Todos os insetos atuais possuem seis patas ligadas ao tórax e não têm membros no abdômen. Essa uniformidade costuma fazer parecer que o projeto hexápode nasceu pronto, como um aparelho saído da caixa com o manual já traduzido. O material do Carbonífero sugere o contrário: a anatomia conhecida hoje foi montada por modificações sucessivas, com estruturas que mudaram de função, foram reduzidas e, em determinadas linhagens, desapareceram.

Por que os ancestrais perderam as patas do abdômen?

A perda dos apêndices abdominais pode ter favorecido a adaptação dos primeiros insetos à vida terrestre, embora o fóssil registre apenas uma etapa desse processo. As estruturas extras aparecem em um animal que ainda parece ligado a ambientes úmidos, enquanto os insetos modernos concentram seus membros locomotores no tórax. Essa mudança reorganizou o corpo: seis patas passaram a sustentar a locomoção, e o abdômen ficou livre para outras funções. O fóssil não entrega uma linha do tempo completa, nem permite afirmar que C. praecursor seja o ancestral direto dos insetos atuais. Ele oferece algo mais útil: uma peça concreta para testar como o plano corporal do grupo se transformou.

O nome da espécie também carrega uma camada de tempo profundo. Chosha deriva de ch’osh, palavra navajo para “inseto”, e os autores relacionam a escolha a um mito de criação navajo sobre antigas criaturas semelhantes a insetos. A referência não substitui a evidência fóssil, mas dá nome a uma criatura que viveu muito antes de qualquer narrativa humana registrada. Há uma ironia discreta nisso: chamamos esses animais de seis patas porque os descendentes venceram a disputa evolutiva com um corpo mais enxuto. Os primeiros, ao que tudo indica, chegaram à festa com vinte e quatro membros. Deu certo.

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