SpaceX incinerou 260 satélites Starlink em seis meses. E o problema não é o lixo, é o rastro

Duzentos e sessenta satélites em seis meses. Não caíram no oceano. Não foram recolhidos por braço robótico. Foram vaporizados — incinerados por atrito na reentrada atmosférica, entre dezembro de 2024 e maio de 2025. A SpaceX comunicou ao FCC. O número está em relatório semestral. 176 da primeira geração, 84 da segunda. Mais 349 esperam na fila, descomissionados, aguardando a mesma cremação orbital.

Cada satélite Starlink pesa entre 260 quilos e 1.250 quilos, dependendo da versão. Não são lixo espacial no sentido clássico — destroço de foguete à deriva. O processamento de dados destes satélites equivalem a um pequeno data center queimando na atmosfera. A SpaceX projetou vida útil de cinco anos para cada um, de propósito: troca-se por versão mais nova como quem troca iPhone, mas a 550 quilômetros de altura e a 28 mil km/h. O satélite velho gasta o combustível que resta para descer de altitude controladamente, entra na atmosfera, e desaparece. 100% incinerado, segundo a empresa. Nenhum pedaço volta ao chão.

Quer dizer: nenhum pedaço sólido volta ao chão. O que volta são partículas — óxidos metálicos, compostos de alumínio, fragmentos de liga vaporizados. O satélite não some. Ele se transforma. Vira aerossol na alta atmosfera. Vira rastro químico entre 60 e 90 quilômetros de altitude. E ninguém sabe exatamente o que isso faz, porque o estudo sistemático começou tarde e ainda é insuficiente. Três mil satélites desorbitados desde 2019. E a pegada só cresce.

O número total de satélites Starlink em órbita já passou de dez mil. A meta declarada da SpaceX é 42 mil. O FCC aprovou mais 7.500 satélites Gen2 em janeiro. A empresa está construindo uma fábrica de 11 milhões de pés quadrados — a Gigasat — para produzir satélites de data center orbital com 120 kW de carga computacional cada. O céu vai ficar cheio. E, com ele, o rastro de reentradas.

Pesquisadores têm pedido estudos e regulamentação sobre o impacto ambiental. O FCC, por enquanto, exclui satélites de avaliações ambientais sob o National Environmental Protection Act — NEPA. A justificativa oficial é que o efeito é “extraterritorial”, ocorrendo fora da jurisdição dos Estados Unidos. O receio não declarado, mas óbvio, é que regulamentar desacelere a corrida espacial. A proposta está na mesa: que satélites sejam excluídos do NEPA porque “atividades extraterritoriais com efeitos localizados inteiramente fora da jurisdição americana”. É uma tese criativa. E perigosa.

De satélites a lixo (simulação por IA)
De satélites a lixo (simulação por IA)

Duzentos e sessenta satélites vaporizados em seis meses, cada um com centenas de quilos de metal e eletrônicos transformados em partículas na atmosfera. A SpaceX descarta múltiplos satélites por dia, todos os dias, como parte do ciclo normal de operação. Não é acidente. É projeto. A obsolescência programada chegou ao espaço — e a reciclagem é queimar.

Não há alternativa viável, diz a SpaceX. Recuperar satélites desativados é tecnicamente impraticável e financeiramente inviável. Pode ser verdade. Pode ser também que ninguém tenha sido forçado a pensar no custo ambiental da incineração porque as regras não exigem. Se o satélite queima completamente, não há detrito para cair na cabeça de ninguém. O problema some do radar. Sobe para a estratosfera.

O que está em jogo aqui não é a SpaceX fazer algo ilegal — ela não faz. O que está em jogo é a lenta percepção de que o céu não é um sumidouro infinito. Queimamos satélites na atmosfera como queimamos lixo em aterro. A diferença é que o aterro fica no quintal de alguém, e a atmosfera é de todos. E que a escala vai piorar. Se o plano de 42 mil satélites se concretizar, e se cada um vive cinco anos, estamos falando de oito mil reentradas por ano. Todos os dias, 22 satélites virando aerossol metálico na alta atmosfera.

A FCC está considerando se a atmosfera — que sustenta todo ser vivo deste planeta — pode ser legalmente tratada como “extraterritorial”. Se aprovada, a regra cria um precedente: qualquer atividade que polua o ar acima de certo ponto está fora da jurisdição ambiental. O problema não é o lixo espacial. O problema é o rastro que o lixo deixa quando desaparece. E que, ao contrário dos satélites, não queima. Fica.

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