Em ultramaratonas de centenas de quilômetros, mulheres já venceram provas e quebraram recordes gerais, enquanto a diferença média de desempenho diminui com a distância. O motivo não é uma superioridade feminina simples, mas a combinação entre resistência fisiológica, estratégia, tolerância à privação de sono e capacidade de tomar decisões quando o corpo já protesta em vários idiomas.
O que Sophie Grant conquistou na Via Alpina?
Sophie Grant estabeleceu o melhor tempo geral da Via Alpina ao percorrer cerca de 2.000 quilômetros em 29 dias, atravessando oito países europeus.
A rota ligou Trieste, na Itália, a Mônaco, cruzando os Alpes e acumulando mais de 100 mil metros de desnível. Grant dormiu, em média, três ou quatro horas por noite e terminou com um tempo mais de sete dias inferior ao antigo recorde masculino. Também superou a melhor marca feminina anterior. O caso chama atenção porque não se trata de uma vitória dentro da categoria feminina, mas da liderança absoluta de uma prova de resistência prolongada. Há, contudo, uma inconsistência que precisa ser verificada antes da publicação: o texto identifica a atleta como Sophie Grant, enquanto a legenda de uma imagem usa o nome Sophie Woods.
Quais mulheres já superaram recordes masculinos?
Outras ultramaratonistas venceram provas abertas a homens e mulheres, incluindo Cocodona 250, Long Trail, Transcontinental Race e Spine Race.
O relato cita Rachel Entrekin, dos Estados Unidos, como vencedora da Cocodona 250 em 2026, com novo recorde geral — data que também merece verificação. Em 2025, Tara Dower teria concluído o Long Trail, em Vermont, em três dias, 18 horas e 29 minutos, 2 horas e 40 minutos à frente do antigo recorde masculino. Antes disso, em 2019, Fiona Kolbinger venceu a Transcontinental Race, pedalando quase 4.000 quilômetros pela Europa e chegando cerca de oito horas antes do segundo colocado. No mesmo ano, Jasmin Paris venceu a Spine Race, de 430 quilômetros, e baixou o recorde em mais de 12 horas.
Por que a diferença entre homens e mulheres diminui com a distância?
Estudos sobre ultramaratonas indicam que a vantagem masculina média encolhe à medida que a prova exige mais horas ou dias de esforço contínuo.
Uma análise da RunRepeat em parceria com a Associação Internacional de Ultramaratonistas examinou mais de cinco milhões de resultados de mais de 15 mil ultramaratonas. Nas maratonas, homens foram, em média, 11,1% mais rápidos. Em provas de 100 milhas, aproximadamente 160 quilômetros, a diferença caiu para 0,25%. Acima de 195 milhas, ou cerca de 314 quilômetros, as mulheres foram 0,6% mais rápidas na média analisada. A estatística não transforma uma tendência em lei da natureza, mas revela que velocidade máxima pesa menos quando a competição vira uma longa negociação com sono, fome, dor, calor e terreno ruim.
Quais características físicas favorecem a resistência feminina?
Maior proporção de fibras musculares resistentes à fadiga e uso mais eficiente de gordura podem favorecer mulheres em esforços extremamente longos.
Mulheres apresentam, em média, maior proporção de fibras musculares do tipo I, associadas à resistência, e tendem a utilizar mais gordura como fonte de energia durante atividades prolongadas. Homens, por outro lado, conservam vantagens médias em massa muscular e consumo máximo de oxigênio, atributos decisivos em distâncias menores ou esforços mais intensos. Em uma prova que dura semanas, porém, essas vantagens iniciais perdem parte do valor. O resultado passa a depender de preservar energia, administrar lesões, comer antes que a fome vire problema e aceitar ritmos menos heroicos. A montanha não se impressiona com currículo fisiológico.
Como sono, alimentação e estratégia decidem uma ultramaratona?
Em provas extremas, vencer depende tanto de decisões logísticas quanto de correr rápido, porque sono, alimentação e recuperação determinam a continuidade do esforço.
Durante a travessia da Via Alpina, Grant dormiu três ou quatro horas por noite e, nos últimos dias, chegou a descansar somente 90 minutos. Quando o cansaço se tornou insuportável, deitou por alguns minutos junto à trilha. Sua equipe estimou uma ingestão diária entre 6.000 e 7.000 calorias, distribuídas em bebidas esportivas, refrigerante de cola, eletrólitos, burritos, wraps de falafel, sanduíches, massas e produtos do McDonald’s. Parte dessa alimentação ocorreu enquanto ela continuava correndo. Nas Dolomitas, calor, inchaço e dores fizeram a atleta chorar e duvidar da conclusão. Ainda assim, seguiu avançando com decisões delegadas à equipe de apoio.
O esporte pesquisa mulheres o suficiente?
A sub-representação feminina em estudos esportivos limita o conhecimento sobre desempenho, recuperação e efeitos hormonais em provas de resistência.
Grant questiona quantas conclusões foram construídas a partir de pesquisas com grupos pequenos formados apenas por homens. Segundo ela, mulheres foram tratadas durante décadas como participantes mais complexas por causa das variações hormonais associadas ao ciclo menstrual. O problema não é uma nota de rodapé metodológica: sem dados adequados, treinadoras, médicas e atletas trabalham com referências incompletas. Casos individuais também não provam que mulheres sejam, em geral, superiores aos homens; eles continuam dominando muitos recordes, sobretudo em distâncias menores. O ponto mais sólido é outro: quanto mais longa e estratégica a prova, menor tende a ser a distância entre os desempenhos médios. Para o fisiologista Nicholas Tiller, ouvido pela BBC, a resistência funciona como “o grande nivelador”.
A frase serve porque desloca a discussão da velha tabela de vantagens biológicas para o terreno onde essas provas realmente acontecem. Depois de centenas de quilômetros, a competição inclui gerenciamento de energia, leitura do próprio corpo, cooperação com a equipe e disposição para abandonar o ego antes que ele abandone você na trilha. A coragem, nesse contexto, não está em fingir que o sofrimento não existe, mas em continuar tomando boas decisões dentro dele. Grant resume essa ideia de modo menos científico e mais útil: o ato decisivo é tentar, sem transformar o resultado em condição para reconhecer o valor da tentativa.



