A maldição das múmias pertence mais ao imaginário colonial do que à microbiologia, mas restos humanos e animais antigos oferecem riscos concretos. Um estudo sobre anúncios de venda encontrou sinais de deterioração biológica, transporte sem orientação de segurança e vendedores aparentemente indiferentes às consequências. O problema não é uma vingança sobrenatural; é a combinação bastante mundana de fungos, contaminantes químicos e manuseio amador.
Por que comprar restos mumificados pode ser perigoso?
Comprar restos mumificados pode expor pessoas a fungos, microrganismos e resíduos tóxicos presentes no material antigo. A bioarqueóloga Kirsty Squires, da University of Staffordshire, no Reino Unido, e seus colegas analisaram quase 130 anúncios de leilões e publicações online que ofereciam restos humanos e animais mumificados.
Mãos e pés humanos apareciam com frequência, enquanto mais da metade dos lotes examinados incluía cabeças, em diferentes estados de conservação e integridade. O detalhe menos exótico era também o mais preocupante: os vendedores raramente informavam como manusear, armazenar ou transportar os objetos. Algumas imagens mostravam pessoas tocando restos humanos mumificados sem luvas, como se aquilo fosse apenas uma peça decorativa ou um souvenir de mau gosto.
Que riscos biológicos existem em uma múmia?
Uma múmia pode carregar esporos de fungos e outros contaminantes mesmo quando parece seca, intacta e bem preservada. A deterioração biológica, conhecida como biodeterioração, aumenta a possibilidade de contaminação microbiana durante o toque, a movimentação ou a abertura de recipientes.
O transporte acrescenta outra camada de imprudência. Segundo Squires, restos mumificados são enviados a compradores dentro e fora do país com pouca consideração pelas implicações de saúde e segurança. A aparência estável do material não funciona como certificado de esterilidade; conservação visual e segurança biológica são assuntos diferentes, embora o comércio online costume tratá-los como sinônimos. Uma caixa fechada não neutraliza fungos, e uma fotografia bem iluminada não substitui avaliação técnica. O passado, nesse caso, viaja pelo correio sem a menor cerimônia.
O que chumbo, mercúrio e arsênio têm a ver com o perigo?
Além de agentes biológicos, restos mumificados podem conter resíduos tóxicos de substâncias usadas no embalsamamento, como chumbo, mercúrio e arsênio. Esses compostos introduzem risco químico mesmo quando nenhum mofo é visível.
A combinação torna especialmente inadequado o tratamento dessas peças como objetos comuns de coleção. Quem compra pode abrir embalagens, remover fragmentos, limpar superfícies ou exibir restos em ambientes domésticos sem saber que tipo de contaminante está liberando. O estudo publicado no International Journal of Cultural Property descreve um mercado sem orientação consistente, no qual a informação essencial fica ausente justamente no momento em que o objeto troca de mãos. A relíquia pode ter milhares de anos; o anúncio, às vezes, não oferece nem instruções básicas para uma luva.
A maldição de Tutancâmon pode ter sido um fungo?
A morte de Lord Carnarvon, em 1923, é frequentemente associada à maldição de Tutancâmon, mas uma infecção por Aspergillus oferece uma explicação mais plausível. O episódio mais famoso da arqueologia popular ajudou a transformar risco sanitário em folclore.
Há também um caso histórico ainda mais direto: na década de 1970, dez dos doze conservadores que abriram a tumba do rei Casimiro IV Jagelão, morto em 1492, morreram após inalar esporos de mofo Aspergillus, segundo o material analisado. Esses episódios não provam que todo resto mumificado esteja contaminado, mas desmontam a ideia de que o perigo seja apenas uma invenção de filmes. O fungo não precisa de sacerdotes, hieróglifos ou trovões. Basta encontrar uma via de exposição.
Como lidar com anúncios de restos mumificados?
Anúncios de restos mumificados devem ser tratados como possíveis riscos biológicos e químicos, não como compras comuns de antiguidades. Squires recomenda vigilância e o encaminhamento de ofertas suspeitas às autoridades competentes.
Também é preciso olhar para a origem cultural e legal dos objetos, não apenas para o preço ou para a promessa de autenticidade. O comércio desregulado pode transformar restos humanos em mercadoria e, simultaneamente, esconder riscos de saúde de compradores, transportadores e funcionários de serviços postais. Sem documentação, orientação especializada e procedimentos de conservação, tocar ou abrir o material é uma aposta ruim. A suposta maldição perde o encanto quando o inimigo real tem nome técnico, esporos microscópicos e nenhuma vocação para o espetáculo.


