Como um Concorde perseguiu a sombra da Lua por 74 minutos

Em 30 de junho de 1973, oito cientistas embarcaram no protótipo Concorde 001 para acompanhar um eclipse solar total sobre a África. A aeronave voou a mais de duas vezes a velocidade do som (aproximadamente 2500km/h) e manteve-se dentro da sombra lunar por 74 minutos, quase dez vezes o limite observado do solo. O feito não foi apenas uma façanha da aviação: foi um laboratório supersônico improvisado, com quatro janelas abertas no teto e instrumentos voltados para a coroa solar. O avião hoje está exposto em Le Bourget, na França, ainda carregando na fuselagem o mapa daquela perseguição celeste.

Por que o Concorde conseguiu prolongar o eclipse?

O Concorde prolongou a observação porque sua velocidade supersônica permitiu acompanhar a sombra lunar enquanto ela atravessava a superfície terrestre.

Durante um eclipse total, a Lua encobre completamente o Sol apenas dentro de uma faixa estreita e móvel. No solo, a totalidade costuma durar poucos minutos; em regiões equatoriais, o máximo fica em torno de 7,5 minutos. No eclipse de 12 de agosto mencionado no relato, observadores em partes da Europa teriam pouco mais de dois minutos de totalidade. A sombra, porém, deslocava-se sobre a Terra a mais de Mach 2,2. O Concorde era uma das raras máquinas capazes de aproximar-se dessa velocidade e permanecer dentro da escuridão por tempo muito maior.

O protótipo tem fuselagem o mapa da África, com a rota percorrida traçada nele./caption]

Como nasceu a ideia de usar um avião supersônico?

Pierre Léna idealizou a missão em 1972, depois de perceber que o protótipo Concorde 001 poderia acompanhar o eclipse de junho de 1973.
Léna, ligado ao Observatório de Paris, já havia realizado observações astronômicas a partir de aeronaves em grande altitude. A ideia amadureceu quando o Concorde ocupava as manchetes por seus voos de teste: em 1970, o protótipo havia voado pela primeira vez em velocidade supersônica. Em 1972, o cientista procurou André Turcat, chefe dos voos de teste da Aérospatiale em Toulouse, e perguntou se o 001 poderia ser empregado na perseguição da sombra. Turcat demonstrou interesse, e a proposta deixou de ser uma bela especulação para ganhar asas, combustível e uma agenda operacional.

Que experimentos foram realizados durante o voo?

Os cientistas usaram a longa totalidade para estudar a coroa solar em diferentes comprimentos de onda, incluindo poeira, gás quente e cromosfera.
A coroa é a atmosfera externa do Sol e se torna plenamente visível durante um eclipse total. Léna havia planejado investigar, no infravermelho, partículas de poeira presentes nessa região. Usar um avião tão grande para um único experimento, contudo, pareceria um desperdício até para os padrões generosos da ciência espacial. O grupo convidou equipes da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Participaram pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Científica francês, do Queen Mary College, do Observatório de Kitt Peak, do Laboratório Nacional de Los Alamos e da Universidade de Aberdeen. Cada equipe levou uma pergunta e, presumivelmente, uma quantidade respeitável de instrumentos.

O avião ganhou 8 pequenas janelas(vigias) no teto, para que os cientitstas pudesse ver o eclipse.

Como o protótipo foi modificado para observar o Sol?

O Concorde 001 recebeu quatro vigias no teto, cada uma destinada a um experimento científico específico durante a observação do eclipse.

Voar a quase 17 quilômetros de altitude oferecia uma vantagem decisiva: a aeronave estava acima de grande parte da umidade atmosférica. Segundo Léna, isso proporcionava excelente transmissão infravermelha da luz solar. Para acomodar os instrumentos, o interior do protótipo foi profundamente adaptado. As quatro aberturas no teto ainda podem ser vistas pelos visitantes que percorrem o corredor do avião no museu. O interior hoje está vazio, mas as marcas da operação permanecem como uma espécie de cicatriz elegante: a prova de que, por algumas horas, aquele avião deixou de ser apenas uma promessa comercial e virou observatório aéreo.

Como a equipe encontrou a sombra sem GPS?

A equipe encontrou a sombra sobre a Mauritânia com navegação inercial, alcançando o ponto previsto com erro de apenas um segundo.

Antes da missão principal, foram realizados dois voos de ensaio. A operação partiu de Las Palmas, nas Ilhas Canárias, e tinha como destino um encontro calculado com a sombra sobre a Mauritânia. As exigências eram severas: o avião deveria chegar a até uma milha náutica do ponto planejado e dentro de uma janela de 15 segundos. A tripulação acertou o encontro com diferença de apenas um segundo. Hoje, a precisão parece um detalhe de infraestrutura; em 1973, sem GPS e contando somente com navegação inercial, era o tipo de detalhe que separava uma observação histórica de uma aeronave muito rápida chegando ao lugar errado.

O que os cientistas viram dentro da escuridão?

Dentro da sombra, os cientistas observaram um céu escuro, a curvatura do horizonte e um círculo de escuridão sobre o Saara.

Durante a maior parte do voo, Léna e os demais pesquisadores permaneceram ocupados com os instrumentos. Poucos minutos antes do fim, quando as medições estavam concluídas, ele conseguiu olhar pela janela. O céu estava completamente escuro, e a curvatura do horizonte aparecia com nitidez. No solo, um círculo escuro de aproximadamente 300 quilômetros de raio cobria o deserto do Saara. No horizonte, além da sombra, ainda havia luz. A cena juntava duas escalas que normalmente não conversam: o laboratório estreito de um avião e a geometria monumental do planeta. Era uma observação astronômica com a Terra inteira funcionando como tela.

Por que o recorde ficou em 74 minutos?

O recorde ficou em 74 minutos porque ventos contrários reduziram os 80 minutos previstos de permanência do Concorde dentro da sombra lunar.

A sombra avançava para leste ligeiramente mais rápido que o avião, que voava a Mach 2,2. Os cálculos indicavam até 80 minutos de totalidade, mas os ventos contrários diminuíram esse tempo para 74 minutos. Ainda assim, a duração foi extraordinária: o limite terrestre em condições favoráveis fica perto de 7,5 minutos. Segundo Léna, ninguém havia alcançado sequer metade desse tempo nas cinco décadas seguintes ao voo. A comparação não transforma o recorde em relíquia. Ela mostra o tamanho do problema: para repetir a façanha, seria necessário combinar uma rota eclipse, uma aeronave suficientemente veloz, instrumentos compatíveis, clima favorável e uma tripulação capaz de encaixar tudo em segundos.

[caption id="attachment_1958" align="alignnone" width="920"] O museu tem também outras coisas curiosas, como uma sonda Soyuz, russa, que esteve no espaço.

Onde está o Concorde que perseguiu o eclipse?

O Concorde 001 está exposto no Museu do Ar e do Espaço da França, no aeroporto de Paris-Le Bourget, ao lado de uma aeronave de produção.

O protótipo F-WTSS 001 permanece no pátio do museu entre aeronaves civis e militares de diferentes épocas. Atrás do nariz comprido, uma pintura registra o trajeto realizado sobre a África em 30 de junho de 1973. O mapa é mais eloquente que uma placa comemorativa: desenha a rota de uma máquina tentando acompanhar uma sombra produzida por outro corpo celeste. Depois da observação, o avião pousou em N’Djamena, então chamada Fort-Lamy, capital do Chade. Léna recordou que um eclipse parcial continuou por cerca de uma hora e meia após o pouso, enquanto pessoas celebravam nas ruas com música. A perseguição terminou no chão, mas a imagem ficou suspensa entre engenharia e astronomia.

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