Christopher Kercher está montando uma banca jurídica baseada em inteligência artificial para fazer trabalho de alto risco com uma equipe humana muito menor. Depois de 17 anos na Quinn Emanuel, ele decidiu testar um desenho que se parece menos com uma pirâmide corporativa e mais com um obelisco: largo o bastante para sustentar decisões complexas, mas sem os vários andares de advogados juniores entre o cliente e o profissional responsável.
A proposta não é apenas reduzir a conta. Kercher quer diminuir o tempo gasto em repasses, atualizações e coordenação, usando ferramentas como Claude e ChatGPT para organizar documentos, reconstruir cronologias e desafiar argumentos. A experiência ainda está começando, mas já aponta para uma pergunta incômoda: quantas camadas de trabalho jurídico existem porque são indispensáveis, e quantas existem porque sempre estiveram ali?
Como funciona uma banca jurídica em formato de obelisco?
Uma banca em formato de obelisco concentra advogados experientes perto do cliente e usa inteligência artificial para reduzir etapas intermediárias de pesquisa e redação.
Durante gerações, grandes escritórios funcionaram como pirâmides. Advogados juniores vasculham documentos, pesquisam precedentes e preparam os primeiros rascunhos. O material sobe por camadas progressivamente menores de associados seniores até chegar ao sócio responsável, que toma as decisões mais importantes. Cada passagem acrescenta uma revisão — e também tempo, contexto perdido e uma nova linha na fatura.
Na Kercher Law, o fundador pretende trabalhar com no máximo “poucas dezenas” de advogados. No lançamento, ele é o único litigante da banca, apoiado por uma equipe pequena dedicada a tecnologia e operações. A imagem do obelisco resume a ambição: a estrutura permanece enxuta da base ao topo, com profissionais experientes trabalhando diretamente com sistemas que coletam fatos e produzem rascunhos.
Por que advogados estão criando bancas nativas em IA?
Advogados estão criando bancas nativas em IA porque equipes pequenas conseguem adotar ferramentas novas sem atravessar a burocracia dos grandes escritórios.
Kercher faz parte de um grupo pequeno, mas crescente, de profissionais que deixam a chamada Big Law para fundar operações construídas ao redor desses sistemas. Em escritórios grandes, uma nova aplicação pode passar meses em avaliações de segurança, compras, tecnologia da informação e conformidade antes de chegar à mesa de quem trabalha no caso. A cautela tem motivos legítimos, mas também cria uma espécie de inércia institucional.
O modelo menor oferece outra vantagem: menos coordenação. Kercher chama esse custo de “imposto de coordenação”, o tempo consumido para atualizar colegas e alinhar equipes. Quando um caso passa por muitas mãos, nuances desaparecem com a mesma facilidade com que uma frase perde sentido depois de sucessivas traduções. Uma banca compacta tenta preservar a conversa entre o advogado e o cliente, não apenas o documento final.
Como a inteligência artificial é usada no trabalho jurídico?
Kercher usa inteligência artificial para transformar grandes volumes de registros em cronologias, organizar fatos e testar argumentos antes de uma disputa.
Em vez de depender exclusivamente de software jurídico especializado, ele recorre a ferramentas de uso geral, como ChatGPT e Claude. Os sistemas ajudam a examinar conjuntos extensos de e-mails, contratos e outros registros, convertendo uma massa documental em linhas do tempo e agrupamentos que facilitam a análise. A decisão jurídica continua sendo humana; o ganho pretendido está em chegar mais depressa ao ponto em que essa decisão pode ser tomada.
Kercher também criou uma habilidade no Claude para simular o advogado da parte contrária. O “oponente digital” procura falhas na argumentação, testa premissas e levanta objeções antes que o outro lado faça isso em uma audiência ou petição. É uma versão contemporânea do ensaio com um adversário imaginário — só que o interlocutor não precisa dormir, não pede café e raramente se cansa de apontar uma inconsistência.
O que muda para os clientes de uma banca menor?
Para os clientes, a banca menor promete acesso mais direto ao advogado, decisões mais rápidas e modelos de cobrança que não dependem apenas das horas faturadas.
Kercher começou a realizar reuniões mensais recorrentes por uma tarifa fixa. O objetivo é conhecer o negócio antes que surja uma crise, acompanhando suas operações, riscos e decisões. Quando uma disputa aparece, esse contexto permite avaliar com mais rapidez se vale a pena brigar, negociar um acordo ou impedir que o conflito cresça. A prevenção, aqui, deixa de ser uma palavra decorativa em apresentação comercial e vira parte do serviço.
O experimento, contudo, não elimina as obrigações profissionais. Uma banca que usa máquinas para fazer mais precisa demonstrar que não está usando máquinas para fazer pior. Supervisão, confidencialidade, precisão e responsabilidade continuam sendo exigências, mesmo quando o organograma parece um monumento de Washington. Kercher não levou sócios da Quinn Emanuel para a nova empreitada de propósito: primeiro quer descobrir até onde sua tecnologia amplia seu alcance e, só depois, onde outro advogado se torna indispensável.


