A Fifa abandonou a proposta de criar uma empresa comercial para administrar seus principais torneios depois de cinco dias de oposição crescente. O plano previa investidores privados na Fifa Forward Enterprise (FFE), pagamentos de até US$ 40 milhões por associação-membro e uma arrecadação estimada em US$ 10 bilhões. A reação veio de três confederações, de dirigentes internos e de aliados políticos. O projeto nasceu com a promessa de fortalecer o futebol e terminou como uma demonstração de que governança também perde jogo por goleada.
Por que a Fifa abandonou o plano de investimento privado?
A Fifa abandonou o plano porque não conseguiu reunir o apoio mínimo de 106 das 211 associações-membro com direito a voto. A aritmética era particularmente ingrata: a Uefa reúne 55 votos, a Concacaf, 35, e a Confederação Asiática de Futebol (AFC), 46. Se seus integrantes acompanhassem a posição das confederações, 136 associações votariam contra a proposta. A África e a Oceania ainda discutiriam o assunto, enquanto a Conmebol pediu esclarecimentos sobre alcance, estrutura, governança e efeitos possíveis.
Gianni Infantino reconheceu que o projeto havia criado divisões e disse que já não atendia ao interesse original. Antes, porém, a Fifa afirmara que “ninguém está vendendo o futebol”. A mudança rápida de discurso expôs o problema central: não bastava chamar de investimento minoritário uma operação que oferecia dinheiro imediato em troca de apoio político. Em 31 de julho de 2026, o presidente anunciou que a proposta não seguiria adiante, após a Concacaf informar que seus membros a haviam rejeitado e a AFC declarar solidariedade à Uefa e à entidade norte-americana.
O que a Fifa Forward Enterprise pretendia fazer?
A Fifa Forward Enterprise seria uma subsidiária comercial para administrar eventos como as Copas do Mundo masculina e feminina, permitindo participações minoritárias de investidores externos sem controle acionário. Um documento de 25 páginas elaborado pelo banco de investimentos JP Morgan estimava que a expansão dos torneios elevaria os repasses para até 24 milhões de euros por associação no ciclo de 2035 a 2039.
Infantino ofereceu US$ 40 milhões a cada uma das 211 associações que apoiassem a proposta, com uma primeira parcela de US$ 20 milhões para quem aderisse até 19 de setembro. O documento descrevia a Fifa como uma organização “submonetizada” e defendia novas iniciativas de negócio e remuneração baseada em incentivos. Mas não mencionava o futebol feminino. O grupo de investidores seria liderado pela Thrive Eternal, empresa de capital de risco fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro de Donald Trump. Para uma entidade que administra o esporte mais assistido do planeta, a embalagem financeira veio antes da conversa sobre confiança.
O que a crise revela sobre a liderança de Infantino?
A crise atingiu Infantino durante a preparação para disputar um quarto mandato como presidente da Fifa, no Congresso marcado para março de 2027, no Marrocos. Até aquela semana, a expectativa era de uma reeleição sem oposição. A proposta, contudo, revelou fissuras que não cabem numa fotografia de cerimônia: Carlos Cordeiro renunciou ao cargo de assessor estratégico e classificou o plano como “um mau negócio para o futebol”, enquanto Kevin Lamour disse que a administração da entidade havia sido “enganada”.
Cordeiro afirmou que não aceitava a ideia de investidores externos serem necessários para “desbloquear maior valor” e disse não ter participado da elaboração. Lamour chamou a iniciativa de “projeto de uma única pessoa”. A cronologia explica o colapso: em 28 de julho, The Times e Financial Times revelaram o plano; no dia seguinte, a oferta de US$ 40 milhões veio a público; em 30 de julho, a Uefa ameaçou boicotar as Copas; em 31 de julho, a Fifa recuou. Cinco dias bastaram para transformar uma promessa de crescimento numa crise de autoridade. O futebol não foi vendido, mas a confiança ficou com a etiqueta de preço.


