Como o ouro soviético saiu de um submarino afundado após 40 anos

Em 1942, o HMS Edinburgh afundou no Mar de Barents com 465 barras de ouro soviético e 58 tripulantes. Quase quatro décadas depois, uma operação autorizada pelo governo britânico encontrou o navio a 800 pés de profundidade e recuperou 431 barras, numa combinação de pesquisa histórica, mergulho em saturação e persistência pouco recomendável para quem prefere voltar inteiro para casa.

Por que o HMS Edinburgh afundou com ouro soviético?

O HMS Edinburgh afundou porque dois torpedos alemães o incapacitaram durante uma travessia de guerra, levando consigo 465 barras de ouro destinadas ao pagamento de equipamentos americanos.

O cruzador britânico partiu da Rússia em 28 de abril de 1942, transportando uma remessa soviética para os Estados Unidos. O ouro pagaria bens necessários ao esforço de guerra, num arranjo financeiro protegido pelo contrato de seguro contra riscos de guerra assinado pela Delegação Comercial Soviética em Londres. Poucos dias depois, aviões alemães localizaram o comboio no Mar de Barents. Submarinos e três destróieres da Kriegsmarine participaram do ataque. Dois torpedos atingiram o Edinburgh, matando 58 marinheiros. Cerca de 750 pessoas foram resgatadas, mas o navio ficou tão danificado que outras embarcações tentaram rebocá-lo até um porto.

Uma nova ofensiva alemã encerrou a discussão. O comboio decidiu afundar o Edinburgh, que desceu a aproximadamente 800 pés, levando a tripulação morta e a carga preciosa. O ouro virou uma baixa esquecida da Segunda Guerra Mundial. Não por falta de valor, mas porque, durante anos, recuperá-lo parecia envolver problemas políticos, técnicos e morais demais para um cofre molhado.

Por que a recuperação do ouro demorou quase 40 anos?

A recuperação demorou porque a União Soviética resistiu ao projeto, havia preocupação com o túmulo dos marinheiros e ninguém sabia se o salvamento era tecnicamente viável.

O contrato de seguro cobria o ouro, portanto a carga não desapareceu juridicamente no instante em que tocou o fundo do mar. Ainda assim, a prioridade imediata era outra: vencer uma guerra. Um primeiro contrato de salvamento foi redigido em 1954, mas acabou suspenso diante da resistência soviética, dos apelos para que o naufrágio não fosse perturbado e das dúvidas sobre uma operação em águas profundas e geladas. A história permaneceu quieta até o fim dos anos 1970, quando o mergulhador Keith Jessop decidiu tratá-la como um problema de engenharia, logística e apetite por risco.

Jessop formou um consórcio com a empresa britânica de mergulho Wharton & Williams, a alemã Offshore Services Association e a companhia britânica de levantamentos marítimos Racal-Decca. O acordo com o governo britânico seguia a lógica “no cure, no gain”: se nada fosse encontrado, ninguém receberia; se o ouro aparecesse, o consórcio ficaria com 45% do valor recuperado. Era uma forma elegante de transformar incerteza em incentivo. Também era uma forma elegante de assumir uma conta monumental caso o fundo do mar tivesse decidido guardar seu segredo.

Como os mergulhadores localizaram o navio?

Os mergulhadores localizaram o Edinburgh combinando relatos de sobreviventes, registros históricos, informações de pescadores noruegueses, ecobatímetro, sonar e um veículo operado remotamente.

A equipe delimitou a área de busca a partir de depoimentos e documentos da época. Havia ainda uma pista prática: redes de pescadores noruegueses ficavam presas em uma região específica. Em abril de 1981, o grupo iniciou a busca com ecobatímetro e sonar e encontrou destroços compatíveis com um navio. Em 14 de maio, um veículo operado remotamente permitiu inspecionar o local. A conclusão foi que se tratava do Edinburgh, deitado sobre o lado esquerdo e, apesar do impacto e de quase 40 anos submerso, em condições relativamente boas.

Para entender o interior do naufrágio, a equipe consultou o Imperial War Museum, em Londres, e usou o HMS Belfast, navio-irmão do Edinburgh, como referência para reconstruir sua disposição. O detalhe parece burocrático, mas era decisivo: no fundo do mar, um mapa errado não produz apenas um passeio inútil. Ele manda pessoas para dentro de aço escuro, sob pressão extrema, cercadas por destroços e munição que ainda podia estar ativa.

Como foi o mergulho no ouro soviético?

O mergulho exigiu saturação, uma rota aberta no casco e trabalho prolongado em um compartimento que ainda continha munição viva.

No fim de agosto de 1981, mergulhadores e equipe de apoio embarcaram no Stephaniturm, acompanhados por representantes dos governos britânico e soviético. Os profissionais trabalhavam em um ambiente pressurizado, técnica que permitia permanecer no local por até 30 dias e reduzir o risco da doença descompressiva. A mistura de hélio e oxigênio ajudava a evitar a narcose por nitrogênio, um estado que não combina muito bem com decisões milimétricas dentro de um navio afundado.

O plano original previa a entrada pelo rombo aberto pelos torpedos. O caminho, porém, estava bloqueado por destroços. Foi necessário cortar o casco e passar uma semana removendo obstáculos até alcançar a sala das bombas, onde ainda havia munição viva. Em 16 de setembro, depois de semanas de trabalho, o mergulhador Jon Rossier, então com 27 anos, transmitiu pelo rádio: “Encontrei o ouro! Encontrei o ouro!”. A carga subia em gaiolas metálicas com 40 barras por vez, cada uma pesando 23 libras.

Quanto ouro foi recuperado do HMS Edinburgh?

A operação recuperou 431 das 465 barras em 1981, e uma expedição posterior encontrou mais 29, deixando apenas cinco sem explicação.

O mau tempo interrompeu a primeira campanha antes que toda a carga pudesse ser retirada. Das barras recuperadas, 161 foram destinadas ao consórcio; o restante foi dividido entre a União Soviética e o Departamento de Comércio britânico. A parte britânica seguiu para o Banco da Inglaterra, e a maior parte acabou derretida na Royal Mint para produzir moedas de ouro. Em 1986, o consórcio voltou ao local e salvou outras 29 barras. Ao final, cinco das 465 continuavam desaparecidas.

O episódio ganhou o apelido de “salvamento do século” porque reunia uma carga estratégica, um naufrágio de guerra e uma operação que parecia roteiro de ficção científica, embora dependesse menos de naves e mais de sonar, mapas, hélio e ferramentas pesadas. O tesouro não estava esperando heroísmo. Estava preso em um casco inclinado, sob água gelada, e só saiu porque alguém transformou um mistério histórico em uma sequência de tarefas concretas.

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