A Amazon encerrou 2025 com uma notícia indigesta para quem acompanha promessas corporativas de clima: sua pegada de carbono subiu 16% em relação ao ano anterior, alcançando 80,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. O número, divulgado no relatório de sustentabilidade mais abrangente da empresa até agora, é maior do que as emissões anuais da Nova Zelândia. O motor do aumento não é mistério — a expansão de data centers para suprir a demanda de inteligência artificial consumiu energia em escala industrial e testou, como poucas vezes, a meta de zerar as emissões líquidas até 2040.
Por que a pegada de carbono da Amazon deu um salto de 16%?
O relatório de sustentabilidade de 2025 da Amazon aponta a expansão acelerada dos data centers como o principal fator do aumento de emissões, a primeira alta significativa desde 2019. A empresa precisou de mais eletricidade para treinar e rodar modelos de IA, e esse consumo extra se refletiu diretamente no balanço de carbono. Pela primeira vez em anos, a “intensidade de carbono” — métrica que a Amazon usava para mostrar que conseguia crescer sem aumentar o impacto climático proporcionalmente — também subiu, sinalizando que o descolamento entre receita e emissões está temporariamente fora de sintonia. O CEO Andy Jassy confirmou que a empresa planeja investir US$ 200 bilhões em despesas de capital este ano, incluindo “IA, chips, robótica e satélites de órbita baixa”.
A meta de carbono zero até 2040 ainda é viável?
Apesar do retrocesso, a Amazon reafirma o compromisso. Kara Hurst, diretora de sustentabilidade, escreveu no prefácio do relatório que se mantém “confiante e otimista na visão abrangente e no progresso de longo prazo”. A empresa lista uma série de avanços que, segundo ela, mostram que a direção está correta: os data centers são 9% mais eficientes no uso de energia do que a média da nuvem pública e 30% mais eficientes do que centros corporativos locais, direcionando mais watts para computação e menos para refrigeração. O uso de água também é destacado: a Amazon afirma ser sete vezes mais eficiente que a média do setor graças à refrigeração a ar na maior parte do ano. Pelo terceiro ano consecutivo, a companhia igualou seu consumo global de eletricidade com a compra de energia limpa equivalente, embora ainda dependa de combustíveis fósseis em algumas regiões.
O que mais a empresa está fazendo para compensar o aumento?
Além da eficiência energética, a Amazon ostenta a maior frota corporativa de veículos elétricos da América do Norte, com mais de 52.700 vans de entrega no mundo — metade da meta de 100 mil veículos até 2030. O relatório também cita melhorias na redução de embalagens e plásticos nas entregas, uso de materiais de construção de baixo carbono nos data centers e progresso rumo à “positividade hídrica”, que significa devolver mais água às comunidades do que a consumida. O Climate Pledge, pacto criado pela empresa para levar outras organizações ao carbono zero em 2040, ganhou 107 novos signatários e chegou a 656 participantes, num momento em que muitas companhias estão recuando de metas climáticas.
A IA é inimiga do clima ou pode virar aliada?
A própria Amazon reconhece o dilema. Hurst admite que os avanços impulsionados pela IA podem tanto catalisar soluções de sustentabilidade quanto retardar o progresso, mas encerra a dúvida com uma pergunta: “Que alternativa temos, senão continuar investindo, aprendendo e seguindo em frente para tentar resolver um dos problemas mais desafiadores do mundo?”. O que soa pragmático na voz da executiva ganha contornos de divergência interna quando se olha para os funcionários. Mais de mil empregados assinaram uma carta aberta criticando a “abordagem em velocidade de dobra” da empresa no desenvolvimento de IA. O grupo Amazon Employees for Climate Justice também testemunhou na Câmara Municipal de Seattle a favor de exigências de energia renovável e proteções trabalhistas para data centers, e acusou a companhia de pressionar órgãos de contabilidade de carbono a adotar regras mais brandas.
O salto de 16% na pegada de carbono não é um acidente de percurso, é a fatura de uma aposta que a Amazon decidiu pagar agora. Em 2040 — ano que, nos romances de Asimov, já nos encontraria colonizando outros mundos — a empresa pretende ter zerado as emissões líquidas. Até lá, a conta segue em aberto, e a inteligência artificial, que promete resolver problemas complexos, é ao mesmo tempo o cliente mais voraz da rede elétrica.


