E os murmurinhos continuam. Textos sobre a obra de Gil Vicente, exposta na Bienal, apareceram mais que chuchu na cerca. Recebi uma mensagem do artista, que comentava a respeito do que eu havia publicado sobre o assunto. Gil Vicente entende que a dimensão polêmica da obra exposta na Bienal de São Paulo está vinculada a questões institucionais: por um lado, uma respeitada instituição do circuito de arte resolve expor as obras e, por outro lado, o presidente de uma entidade representativa (OAB-SP) resolveu expor sua opinião. Nesse sentido, sem mais especulações sociológicas, a polêmica sobre essas obras de Gil Vicente nos serve para revelar relações institucionais que, com doses de provincianismos, são resultados de relações de poder.

Câmera – Luz – Ação

Humor em dose certa e um enredo filosoficamente “triturante”. A experiência de assistir Reflexões de um liquidificado foi como pensar sobre uma meta-consciência em uma viagem fabulosa.

Fazer um objeto “ter” consciência não deve ser trabalho fácil, mas ao que parece André Klotzel chegou ao ponto exato. Para quem não lembra, André é o mesmo diretor do formidável “Memórias póstumas”. A voz em off de Selton Melo (como liquidificador), a sonoplastia e a música foram ótimos acertos. Tudo isso com um enquadramento que colocava os objetos em primeiro plano: o filme já demonstrava logo para quê veio. Além disso, as cenas de Ana Lúcia Torre e o liquidificador são impressionantes, fantástico ter colocado aquelas subjetividades em diálogo (ser humano – máquina [ou reflexões projetadas do ser humano]): o espectador fica realmente envolvido com aquela “anima duplicada”.


Daí por diante a fotografia fala por si. Qualquer objeto do cotidiano doméstico poderia revelar uma anima a qualquer momento. Narrar com a fotografia é permitir que o olhar perceba os elementos da composição e compreenda sua história. O roteiro e a atuação do elenco são dignos de um BRAVO. A proposta de envolver a exibição de um curta e de uma apresentação de stand up comedy, antes do filme, foi uma sacada bem legal. E, sem sombra de dúvidas, foi maravilhoso rever outro lado de Sampa no filme.

Só uma coisa deixou a desejar. Na fala do comediante Marcelo Mansfield (stand up comedy anterior ao filme) rolou uma piada extremamente desnecessária, que falava explicitamente que o presidente Lula é um “filho da puta” (sic.) e sua candidata à sucessão “uma puta” (sic.). Em tempos de eleição essa exposição pública precisa ser repensada. Censura? Não acredito nesse recurso. No entanto, eu penso que uma piada desse nível está abaixo da qualidade do filme que ela precedia, assim como está aquém da capacidade e potencial humorístico daquele comediante. Nesse aspecto, ARTE como forma PENSAMENTO, eu prefiro criações inteligentes como as de Gil Vicente.


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