Meus passos fogem do chão
enquanto sigo minhas pegadas
me torno andarilho descalço
de nuvens calçando uma estrada
Assim, iniciam os versos de outrora grande saga, uma saga, aventura, épico ou epopéia, e no mais, quiçá uma odisséia que nem um deus sem nome ousou nome por, só para não poluir tão desgraçada aventura com alguma sorte, já que ela, não era merecedora de nada. Não havia nada especial na aventura na terra de um espírito malfazejo e criador de discórdia, tumulto e balbúrdia que senão sua reeduação. Afinal, até mesmo os mais díspares dos anjos tem direito à sua redenção, e todos não tem a sua, senão, por que um só não pode ter.
Aqui fala um analfabeto das vogais, consoantes, boas palavras e de sua sucintez. Não que tenha vindo de lá longe, onde as nuvens chocam-se com as colinas e as colinas nem mais verdes são senão são azuis de tão distante e esquecida é tal terra, que nem a grama lá ousou nascer, porque não chegou lá tal coisa ou artimanha da Mãe Terra. São curiosidades à respeito dos homens que puxam suas carroças porque ainda não conheceram o cavalo e dormem sobre o chão cru de barro porque ainda não inventaram o teto para suas casas. Mas que casas, não há casas em Taloreio, porquê em Taloreio, terra do Santo Enganado das Doze Cruzes, nasceu o orador de tão prodigiosa estória de um santo, que sem romaria ou procissão, foi feito em barro e posto por nós em forma de gente à caminhar entre os vadios e os desolados de fé nenhuma. Ai, que nenhum padre ilusionado, metido a cabidó de dar-em-chão nos diga que São Lázaro de Taloreio era um espírito leviano. Porque nem o orador, que de santo não tem nada e gosta da sua bebidinha branca de cana nenhuma que ainda nasceu pode afirmar que é verdade o que ele bem sabe que é: Anjo que nasceu desvirado, sofre o diabo em terra de cão e vira santo para curar toda a gente da Terra de Pele Seca.
A história começa realmente quando nasceu Lázaro. Na pequena vila de Timbodó das Doze Cruzes, nasceu Lázaro, que foi o quarto filho varão de Raymond de Vila- Sol e Franscisca Capelinha. Antes de Lázaro, havia Rivalino, João e Joílson e depois vieram Ana Madalena e Madalena Maria, e logo depois ainda veio, depois que Franscisca nasceu, Linamina Maria e Maria Capricó. Sem contar o pequeno Tarilata, o vira-lata que nasceu de uma cria de cachorros selvagem que era mais bonito que todos os filhos de Raymond juntos, postos num saco e amarrado como se amarra perna de leitão. Raymond tinha esse nome, porque todos os nomes de pessoas importantes, com algum título de nobreza deveria ser na língua do Imperador, que nem sequer falava direito essa língua tal de estrangeira quando a proclamou oficial. O povo, por direito de copiação, como se diz, resolveu adotar essa política nos filhos primogênitos, para dar sorte. Que sorte! Raymond era o único loiro de uma família de morenos, e o único de olho azul em uma cidade de gente de olho negro. Não se sabe o que aconteceu com Raymond, mas sua mãe comeu terra e acordou com a boca cheia de formiga depois daquilo. Seu pai, Lairson, era um homem justo. Palavra de Padre Timóteo, sacerdote da Igreja num lugar como aqueles. Ele mesmo me disse e brindamos isso no dia do nascimento de Lázaro.
Lázaro tinha esse nome porque a terra precisava mesmo era ser ressucitada. Fazia um século, umas três ou quatro gerações completa que nem ali, chuchu dava. Os fazendeiros e seus barões, todos eles, ficaram tão magros, mais tão magros, que nem puderam tintilar os ossos dos quadris em suas danças copiadas. Era tudo uma fraqueza só, e ainda tinha a tal da prensa, que havia inventado o tal do cordel escrito de Jericó, que levaram para lá. Era uma tal de invencioniçe de doido só. Diziam que nos estrangeiro, o homem já havia chegado numa terra de paraíso viajando só de jangada grande no mar de deus, e ainda sim, teria voltado reclamando que não havia lugar melhor que aqui. Aqui, onde, eu digo, numa terra de chão rachado e boi magro dessas ainda preferem ficar aqui. Falo isso, porquê Lázaro recebeu esse nome quando não mais havia fé, fé nem mesmo em Deus. Ai de um que falasse isso, iria receber um raio, na cabeça, e essa ficaria pretinha feito as cabeças do povo de Ifé, no país dos negros de Jazé. Mas eu preferiria água. Água de chuva que não é salgada, e que não tem dono não.
Lázaro forte da semente forte
em sua sorte sem sorte nasceu augusto
e na miséria de seu país sem rei
se viu lançado fora do ventre de sua mãe
com a lágrima pendurada nos olhos
e o resto em susto pior que assombração
Lázaro era um bom menino. Tinha a mania de quando criança e muito criança bater a cabeça no chão de barro quando algo dava errado. Seus irmãos, esquálidos, já ajudavam na roça e com ele formavam uma audiência toda a vez que viam uma criança nascer. Foi assim com Ana e Madalena, Franscisca e Linamina. E toda vez que nascia uma menina, Lázaro batia a cabeça no chão, de raiva, porque era mais um para dividir o prato que onde não se via o que comer. Dizem que é por causa disso que Lázaro era meio tantan quando era criança, mas só se sabia que ele tinha a cabecinha chata mesmo. Mas Lázaro era um menino feinho, como todos os outros, e todos judiavam do Lazarinho, que chamavam de Cadrió, pássaro de uma perna só, de um olho só, de uma meia-ltura só. Lázaro, era o menor dos oito, nove ou dez irmãos, mesmo quando as meninas cresceram ele ainda era o menor. Tinha o temperamento difícil o tal Cadrió e tinha a mania de ensinar a todo mundo. Assisitu o relato unânime do ancião Mestre Dalfonso em praça pública defendendo que a Terra era chata e quando o pegaram e usaram de sua cabeça para explicar tal teoria. Todos riram do tal Cadrió, e todos chamaram Lázaro das Sete Cruzes de Cadrió de Cabeça de Terra Seca, e todos viram Cadrió então com doze anos chorar feito um menino em prantos de lágrimas de água invejada gritando aos sete ventos quentes sob o céu laranja que não teria fim aquela terra enquanto não se santificasse um só homem bom em Cadrió. Que menino foi Lázaro das Doze Cruzes, Santo das Causas de Deus, Mártir dos Corajosos e Rei dos Pebleus! Outro brinde!
Santo que nasce torto
da terra rachada de dar nó
sabe que dor intensa lhe pare
o ódio em cada sol
que na cabeça inteira lhe arde
lhe dando o nome de Cadrió!
enquanto sigo minhas pegadas
me torno andarilho descalço
de nuvens calçando uma estrada
Assim, iniciam os versos de outrora grande saga, uma saga, aventura, épico ou epopéia, e no mais, quiçá uma odisséia que nem um deus sem nome ousou nome por, só para não poluir tão desgraçada aventura com alguma sorte, já que ela, não era merecedora de nada. Não havia nada especial na aventura na terra de um espírito malfazejo e criador de discórdia, tumulto e balbúrdia que senão sua reeduação. Afinal, até mesmo os mais díspares dos anjos tem direito à sua redenção, e todos não tem a sua, senão, por que um só não pode ter.
Aqui fala um analfabeto das vogais, consoantes, boas palavras e de sua sucintez. Não que tenha vindo de lá longe, onde as nuvens chocam-se com as colinas e as colinas nem mais verdes são senão são azuis de tão distante e esquecida é tal terra, que nem a grama lá ousou nascer, porque não chegou lá tal coisa ou artimanha da Mãe Terra. São curiosidades à respeito dos homens que puxam suas carroças porque ainda não conheceram o cavalo e dormem sobre o chão cru de barro porque ainda não inventaram o teto para suas casas. Mas que casas, não há casas em Taloreio, porquê em Taloreio, terra do Santo Enganado das Doze Cruzes, nasceu o orador de tão prodigiosa estória de um santo, que sem romaria ou procissão, foi feito em barro e posto por nós em forma de gente à caminhar entre os vadios e os desolados de fé nenhuma. Ai, que nenhum padre ilusionado, metido a cabidó de dar-em-chão nos diga que São Lázaro de Taloreio era um espírito leviano. Porque nem o orador, que de santo não tem nada e gosta da sua bebidinha branca de cana nenhuma que ainda nasceu pode afirmar que é verdade o que ele bem sabe que é: Anjo que nasceu desvirado, sofre o diabo em terra de cão e vira santo para curar toda a gente da Terra de Pele Seca.
A história começa realmente quando nasceu Lázaro. Na pequena vila de Timbodó das Doze Cruzes, nasceu Lázaro, que foi o quarto filho varão de Raymond de Vila- Sol e Franscisca Capelinha. Antes de Lázaro, havia Rivalino, João e Joílson e depois vieram Ana Madalena e Madalena Maria, e logo depois ainda veio, depois que Franscisca nasceu, Linamina Maria e Maria Capricó. Sem contar o pequeno Tarilata, o vira-lata que nasceu de uma cria de cachorros selvagem que era mais bonito que todos os filhos de Raymond juntos, postos num saco e amarrado como se amarra perna de leitão. Raymond tinha esse nome, porque todos os nomes de pessoas importantes, com algum título de nobreza deveria ser na língua do Imperador, que nem sequer falava direito essa língua tal de estrangeira quando a proclamou oficial. O povo, por direito de copiação, como se diz, resolveu adotar essa política nos filhos primogênitos, para dar sorte. Que sorte! Raymond era o único loiro de uma família de morenos, e o único de olho azul em uma cidade de gente de olho negro. Não se sabe o que aconteceu com Raymond, mas sua mãe comeu terra e acordou com a boca cheia de formiga depois daquilo. Seu pai, Lairson, era um homem justo. Palavra de Padre Timóteo, sacerdote da Igreja num lugar como aqueles. Ele mesmo me disse e brindamos isso no dia do nascimento de Lázaro.
Lázaro tinha esse nome porque a terra precisava mesmo era ser ressucitada. Fazia um século, umas três ou quatro gerações completa que nem ali, chuchu dava. Os fazendeiros e seus barões, todos eles, ficaram tão magros, mais tão magros, que nem puderam tintilar os ossos dos quadris em suas danças copiadas. Era tudo uma fraqueza só, e ainda tinha a tal da prensa, que havia inventado o tal do cordel escrito de Jericó, que levaram para lá. Era uma tal de invencioniçe de doido só. Diziam que nos estrangeiro, o homem já havia chegado numa terra de paraíso viajando só de jangada grande no mar de deus, e ainda sim, teria voltado reclamando que não havia lugar melhor que aqui. Aqui, onde, eu digo, numa terra de chão rachado e boi magro dessas ainda preferem ficar aqui. Falo isso, porquê Lázaro recebeu esse nome quando não mais havia fé, fé nem mesmo em Deus. Ai de um que falasse isso, iria receber um raio, na cabeça, e essa ficaria pretinha feito as cabeças do povo de Ifé, no país dos negros de Jazé. Mas eu preferiria água. Água de chuva que não é salgada, e que não tem dono não.
Lázaro forte da semente forte
em sua sorte sem sorte nasceu augusto
e na miséria de seu país sem rei
se viu lançado fora do ventre de sua mãe
com a lágrima pendurada nos olhos
e o resto em susto pior que assombração
Lázaro era um bom menino. Tinha a mania de quando criança e muito criança bater a cabeça no chão de barro quando algo dava errado. Seus irmãos, esquálidos, já ajudavam na roça e com ele formavam uma audiência toda a vez que viam uma criança nascer. Foi assim com Ana e Madalena, Franscisca e Linamina. E toda vez que nascia uma menina, Lázaro batia a cabeça no chão, de raiva, porque era mais um para dividir o prato que onde não se via o que comer. Dizem que é por causa disso que Lázaro era meio tantan quando era criança, mas só se sabia que ele tinha a cabecinha chata mesmo. Mas Lázaro era um menino feinho, como todos os outros, e todos judiavam do Lazarinho, que chamavam de Cadrió, pássaro de uma perna só, de um olho só, de uma meia-ltura só. Lázaro, era o menor dos oito, nove ou dez irmãos, mesmo quando as meninas cresceram ele ainda era o menor. Tinha o temperamento difícil o tal Cadrió e tinha a mania de ensinar a todo mundo. Assisitu o relato unânime do ancião Mestre Dalfonso em praça pública defendendo que a Terra era chata e quando o pegaram e usaram de sua cabeça para explicar tal teoria. Todos riram do tal Cadrió, e todos chamaram Lázaro das Sete Cruzes de Cadrió de Cabeça de Terra Seca, e todos viram Cadrió então com doze anos chorar feito um menino em prantos de lágrimas de água invejada gritando aos sete ventos quentes sob o céu laranja que não teria fim aquela terra enquanto não se santificasse um só homem bom em Cadrió. Que menino foi Lázaro das Doze Cruzes, Santo das Causas de Deus, Mártir dos Corajosos e Rei dos Pebleus! Outro brinde!
Santo que nasce torto
da terra rachada de dar nó
sabe que dor intensa lhe pare
o ódio em cada sol
que na cabeça inteira lhe arde
lhe dando o nome de Cadrió!