4º texto (Parte III) da trilogia 'OS MORROS, OS RIOS, OS MARES' - Inéditos - Final




Dormi o sono dos justos, penso. Naveguei todo o espaço molhado pelo delicioso mar que começa a poucos metros do meu quarto. Viajei por onde não lembro mais e um sonho que não pretendo esquecer. O café matinal repôs meu corpo no mundo dos vivos e minha mente a correr. Salivo pelo dia que chega. Piso a areia branca, fina, quente e o sol acaricia minha pele marrom. A brisa é leve, mas densa e firme, num movimento único que pretende levar consigo meus cabelos e os cheiros da noite passada. Essa leveza permite-me escutar o quebrar das pequenas ondas sequenciais que borbulham brancas espumas, lá adiante, pois, é seca a maré. Ando compassadamente, sem rumo definido, apenas seguindo as curvas da praia que o mar lambeu, durante a noite inteira.

Lá, onde alcança minha visão, mar a dentro, navega mais um enorme navio cargueiro em direção ao porto – vem de longe. A praia está repleta de cores e de gente. Barracas coloridas recheadas de famílias e grupos de amigos - parecem colônias de cogumelos. Muitos mariscos, buracos na areia para construir castelos, pontes e túneis. Crianças deliciosamente meladas de salgada areia, que esconde coloridas pedrinhas de coral e pequenos mariscos rajados, quadriculados, listrados, conchas... “Olhe o picolé! Coco, amendoim, tangerina, abacate, morango, chocolate, graviola...!” “Amendoim torrado e cozinhado, olha aí!” “Ostra!” “Olhe o coco!” – São as vozes da praia. Vai e vem a bolinha laranja do frescobol, dança a bola branca da pelada de times sem padrão definido – todos sem camisa -, defendendo barrinhas pequenas e a lateral do campo é na água. Passa agulha frita, camarãozinho na água e sal, sururu, cocada com leite condensado, peixe frito, caranguejo, moqueca de siri, balãozinho de gás para criança, mané-gostoso, reco-reco, pipas de várias cores, aviõezinhos de isopor, apito e língua de sogra. Vendem redes, toalhas de mesa em renda, tapetes, aquarelas, talhas, jangadas em miniatura, chapéus, bonés, bisnagas de mel e óleo bronzeador, shampoo, pente e pilhas para rádio. Também, promoções de cartões postais, camisetas estampadas, miçangas, óculos de sol, chaveiros, sandálias de dedo, muamba variada, cigarros, bombons e chicletes. Pede-se auxílio, emprego, remédio, orientação...

Cruzam pessoas de todas as idades: brancos e negros, de mãos dadas, namorando, ou, brincando de pega-pega, desenhando o chão, protegendo os pequeninos, mostrando seus corpos dourados pelo sol que esquenta. Uns refrescam-se na água, mergulhando, amando, nadando, brincando de fazer espuma, enfrentando as ondas ainda pequenas, pegando jacaré, boiando sem pressa... Sobem na jangada e no barco do pescador que reclama o dia inteiro, até trazerem-lhe a garrafa de pinga. Anda-se para um lado até enjoar e, depois, retorna-se pelo mesmo caminho, que já está diferente, as peles mais queimadas, olhares tendenciosos, vidas modificadas, compromissos assumidos, outros, desfeitos. A praia está lotada agora e a maré começa a encher. O cheiro é de gente, de amor, de liberdade e de sal, que vem com a brisa morna. O mar é incomensurável, de diferentes tons de verde e azul, recheado por corais enormes que pisamos se quisermos e nos banhamos em suas piscinas naturais. Ali, estão mariscos, ouriços negros, sargaço, peixinhos de cores e nomes variados, cavalos-marinhos, siris de pedra, guajás, estrelas-do-mar, tinteiros, locas, búzios..., mundo escondido...

Foi um dia, quando criança. É agora também e não é preciso definir a idade dos momentos felizes junto ao mar parceiro e amigo, pulsante, incansável, que compartilho junto à lagartixa que me cumprimenta, do tronco do coqueiro perto do terraço.

Acho que esse, como vários outros dias felizes, foram domingos de um claro dia de sol...