[
i]1º texto (Parte II) da trilogia 'OS MORROS, OS RIOS, OS MARES' - Inéditos[/i]




Ouço apenas as batidas das pequenas marolas na quilha da canoa que desliza as águas escuras do velho rio. Na popa, o rapaz maneja a vara que, ao tocar o leito, impulsiona o pequeno barco, para apenas duas pessoas. A água está muito próxima de mim e é cortada com dois diferentes compassos de velocidade. De um lado, seu tom ocre, do outro, se espelha com o reflexo do sol – ainda guarda algum brilho. Distraio-me vendo as margens sendo refletidas e, logo, o casario, até o céu e as nuvens, redesenhando uma realidade estranha que se apresenta furtivamente, ritimadamente, ganhando nitidez quando diminui o vento sobre a superfície. A cidade é exuberante emergindo de cada margem. Arranha-céus, pontes, árvores e arbustos que dividem espaço com os manguezais, em certos trechos. Navegando pelo rio, nota-se um silêncio renovador. Eventualmente, ouve-se o bater de asas de garças, ou, eternos bandos de andorinhas. Talvez, o estalido dos crustáceos nas margens, a queda dos jererés que despencam das pontes, o cantarolar de algum pescador venha quebrar tal harmonia. Não interessa o quanto a cidade se agita, sofre e agoniza, talvez, tentando espremer o velho rio sinuoso e perene. Rio cantado por tantos poetas, navegado por tantos sofredores que o habitam, verdadeiramente. Importante é ainda estar ali e, mais adiante, após curvas infinitas, lambendo a cidade, suas entranhas e as dos que nela vivem. Recebe o lixo que vem guardando há décadas, armazenando em escuros recantos, por baixo dos remansos, nas grutas profundas do leito mãe. Enquanto navego, meu peito abre-se em perfeita comunhão com o que a natureza, ali, me presenteia: cheiro de rio, de lodo, do visgo da lama que chega a borbulhar. Agora, vejo exuberante, o manguezal que traz a sombra, alto e verde, galhos retorcidos, avermelhados, parecem esticar a margem com suas raízes soberbas. Por entre o emaranhado de galhos, vagueiam silenciosos os aratus de olhares vigilantes, no escuro espaço formado pela copa do mangue.

Viramos um pouco em direção à outra margem, sem pressa, como deve ser a vida no rio..., sem urgências, correrias, atropelos. É lugar de descanso, a água, é fresca todo tempo e vai sendo deixada para trás aos borbotões, formando redemoinhos que avisam o leito arenoso que, por cima, viaja o amor. Chegamos embaixo de outra ponte, enorme, colorida. O eco faz reverberar o estalido da água no concreto das colunas e o som das ostras e mariscos que, ali, se alojaram, bebendo e sendo banhados pela água vivificante. Entra e sai do ninho um passarinho que desconheço o nome, bem na concavidade da parede escurecida pelo tempo. Logo, a canoa passa e uma claridade imensa se apresenta, e agora, olhamos o sol de frente, querendo se pôr, escondendo sua aura escarlate, detrás do morro.

Mergulho a mão na água, agora, de um tom violáceo e trago um pouco até meu rosto em brasa. Unto minhas faces e meus olhos lacrimejantes e a água tem um forte cheiro de noite e de vazante. Muda, assim, sua razão de ser, seu destino e dos que dele vivem e sobrevivem. O rio que precisa dormir um descanso profundo, em verdade, não pode e não quer parar. Vai permanecer indo e vindo, pulsando, recolhendo nas altas fontes a pura água e fazendo-a escorrer por um longo caminho, até sua iminente comunhão com o mar maior e extremamente compreensivo.

A noite chega e percebo o cansaço do jovem condutor que não diz palavra, taciturno em seu trabalho, mãos calejadas, olhar perdido nas estrelas que se apresentam no céu imenso. Pago o que pede e até compro o pequeno barco, e peço-lhe que me empurre para o meio do rio, pois desejo ficar até poder compreender o que sinto. Ele obedece e fica na margem a olhar o meu destino, até que o curso da água corrente apreende a canoa, dominando-a e vai conduzindo-me..., agora, deitado, a ver estrelas também, sem preocupar-me com o lugar de chegada. A brisa é constante e refresca trazendo o cheiro das margens, dos peixes e continuo a navegar descontroladamente, ao sabor da natureza, ouvindo, ao longe, o zumbido da grande cidade que tenta nos sufocar.

A direção é a do mar, girando sem governo, com pequenos solavancos nos bancos de areia que começam a aparecer e que prendem, fiscalizam e depois, soltam-nos, a mim e a canoa, para que se possa seguir caminho. Vão passando as pontes indiferentes a mim e meu destino, repletas de transeuntes e vendedores, camelôs, pescadores, gente que vive das pontes... Agora, o rio é mais largo, o silêncio é maior e estou próximo de mim e de Deus. É hora de a cidade começar a dormir e ninguém verá a intimidade do rio com a noite estrelada. Preso num banco de areia no meio do rio de águas rasas da maré baixa, percebo apenas, os estampidos dos pequenos entes viventes daquele lugar. É assim que me sinto nesse instante único da vida, pois não sei se me deixarão refazer esse percurso, achando que enlouqueço, descontrolo-me e, talvez o seja verdade – pouco me importa, agora.

Estou quase dormindo. A novidade é a lua que reacende a água à minha volta, com seu brilho platinado, meu olhar vigilante, cheio, límpido, compreendido pelo rio, quase uma ordem, aviso de mudança..., verve da vida, da enchente que traz o pão e o vinho, que é da cor das águas dali, embriaga com a mesma força, ajuda a vida de todos..., sempre...