2º texto da trilogia, 'Os morros, os rios, os mares' - inéditos
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A ladeira, um tanto íngreme, não dá trégua ao motorista do ônibus, e esse vai galgando o velho morro que, de cima, vê a cidade e suas cores. O cobrador tenta uma rápida dormida aproveitando os solavancos e o gemido rouco do motor. Essa é a subida principal, cujo calçamento se foi com a primeira chuva que experimentou. O terminal fica do outro lado, de onde se pode avistar o Porto.

O cheiro de mato se eleva ao ser acordado o chão inclinado e ainda molhado pela chuva, durante a noite. É relva forte que sustenta os barrancos dali, avivando a ocre tonalidade das encostas em perigo. A água da chuva desce seus córregos sulcados dia após dia, enquanto limpa os esgotos a céu aberto. É uma água azulada que desliza pelo verde musgo desenhando os canteiros e decorando as vidas dali.

São seis horas da manhã e uma trupe de garotos já corre mundo, uns a brincar, outros apedrejando o ônibus, bebendo a água adocicada do esgoto. Nus e semi-nus, não sabem, ainda, quando farão a primeira refeição.

Pulam um muro, rastejam, em surdina, o oitão lateral de uma casa, voltam aos pulos e, atrás deles, a velha senhora tenta correr a enxotá-los com o lenço da cabeça. Depois dela, vem uma jovem trazendo uma bandeja amassada, repleta de bolinhos de cuscuz de milho com leite e um bule com maltado. O motorista para, trava o veículo e desce em busca da primeira refeição do dia. Paga cincoenta centavos, esmurra a lateral do veículo mandando acordar o cobrador com um impropério, ocupa seu lugar no terraço da casa e deseja a jovem moça..., que, agora, fica à sua espera.

Os garotos voltam com risos amarelos tentando distrair a velha. Puxam conversa, simulam uma briga, sobem, sorrateiros, o muro em desalinho. Ameaçam com um pau, com um estilete improvisado, intimidam com o olhar. A velha senta-se no único batente à beira do córrego, traz ao seu colo o menor deles e, resignada, ordena a neta que distribua o conteúdo da bandeja com todos. Comem em silêncio e em respeito aos conselhos que lhes chegam aos ouvidos..., olhares baixos, o choro contido. Prometem nunca mais fazerem aquilo e escutam, ao longe, a buzina do ônibus que pede passagem ao carroceiro que vinha descendo a ladeira.

Na casa em frente, ouvem uma forte discussão, que calam um momento, e logo, é retomada aos gritos. A porta se abre com um estalo por onde sai um homem extremamente contrariado, o andar cambaleante e, logo, senta-se na calçada, mais adiante. No seu abdômen, aparece uma enorme mancha vermelha que ele tenta cobrir com uma das mãos. Seu olhar está fixo em algo que não se pode ver e ele acaba por tombar no meio da ladeira.

De dentro da casa, ouve-se, agora, um choro agonizante e, na porta, aparece uma mulher desfigurada por pancadas e escoriações - os olhos mal se abrem. É trazida por um jovem de pouco mais de quinze anos, que expõe na cintura uma faca ainda avermelhada. Descem a ladeira e deixam em casa outras três crianças pequenas, ainda nuas, que ficam olhando o pai deitado de forma estranha. Começam a subir pessoas conhecidas ou não, curiosos, cúmplices e amigos, e formam um círculo em volta do cadáver. Um vizinho recolhe os filhos menores pra dentro de casa e esses já se põem a brincar.

O morro parece acordar de um só golpe. Seus habitantes crepitam por entre o casario que se equilibra encosta afora. A cidade retumba lá embaixo, ferve e enlouquece o dia e a vida de todos os homens e mulheres. Buzinam os carros, os rádios são ligados, abrem-se as torneiras, cantarolam as mulheres que sustentam aqueles lugares. Tocam as campainhas das escolas, ouve-se o potente apito do navio cargueiro, lá no Porto. Já se pode ver a escura névoa que se forma pelo mormaço poluído. Toca a sirene policial, cuja viatura vem subindo, aos trancos, a ladeira esburacada e para ao lado do corpo.

Lá em cima, aponta o ônibus que retorna seu roteiro e, agora, desce com facilidade. O motorista, de longe, ao ver o aglomerado em frente à casa do seu novo amor, sente estremecer todo o corpo. Vem descendo, aos poucos, tentando identificar as pessoas e, quando percebe a gravidade do ocorrido, aproxima-se e estanca o veículo. Desce apressado, quase descontrolado. São oito horas da manhã e seu dia nem bem começou. Simultaneamente, sente uma grande tristeza e um enorme conforto e alívio. Seu irmão jaz naquele chão, mal tendo saído da penitenciária. Seria sua casa prisão maior...? No outro lado da rua, na casa onde aprendeu a amar, uma jovem de cabelos negros e sedosos recebe-o com um abraço perfeito.

Do interior da casa, saem a velha e duas das crianças que alimentou. Traz outra bandeja com os bolinhos amarelos embebidos em leite e um bule cheio de um forte café coado. Agora, é oferecido aos policiais que registram a ocorrência enquanto colhem depoimento.

O calor já é intenso, principalmente lá embaixo, chegando a arder, com o sol consumindo parte da coragem dos que não abrem mão do direito de labutar sob sua luz. Aqui em cima, a brisa ameniza essa dor, restando viver na paz possível.

O casal ainda está abraçado, pois, o ônibus somente poderá sair após a remoção do corpo. Seus corações palpitam descontroladamente, suplicantes de um amor então possível e que limpa vidas inteiras e reconstrói o mundo. É um amor tão puro que perdoa a todos e a tudo, e seria a verdade única..., não fosse o tom vermelho carmim que, agora, escorre pelos recantos da ladeira...